Homenagem a Annabela Rita

Natália Constâncio, Pedro Albuquerque e Ana Cristina Carvalho|07/03/2026


Sendo uma das mais influentes professoras universitárias na área dos Estudos Literários, a obra de Annabela Rita tem sido amplamente enaltecida e apresentada por vultos sonantes da intelligentsia académica, de que se destacam, entre outros, Eduardo Lourenço, Fernando Cristóvão, Daniela Marcheschi, José Carlos Seabra Pereira, Miguel Real, Teolinda Gersão, Artur Anselmo, Isabel Ponce de Leão ou Liberto Cruz.

O reconhecimento da autora é atestado por mais de três dezenas de prémios e distinções internacionais, atribuídos em países como Argentina, Áustria, Brasil, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Noruega, Portugal e Suécia, o que sanciona a vocação para a internacionalidade e para a liderança científica da homenageada.

O percurso de Annabela Rita confirma uma dedicação académica exemplar, iniciada com a formação em Filologia Românica, seguida de mestrado, doutoramento e agregação em Literatura e dois pós-doutoramentos sobre o Cânone Literário. A sua liderança do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL-FLUL ) elevou-o a um prestígio internacional notável. Até ao momento, Annabela Rita participou em cerca de sete dezenas de júris literários e culturais, assumindo frequentemente a presidência, e em júris académicos (de mestrado e doutoramento), e organizou inúmeros encontros científicos nacionais e internacionais.

Não será anódino evocar as marcas inovadoras e peculiares de uma obra encomiástica que se destaca pela sua exogenia e amplitude cultural. A primeira característica distintiva com que nos deparamos reside na organização intercontinental, que envolve Brasil, Itália e Portugal, ainda que sem representação da universidade da homenageada, aspeto que reforça a autonomia e a universalidade do projeto, que se afirma como espaço de convergência cultural e científica.

tributo a Annabela Rita emerge de uma decisão mantida em segredo pelos seus organizadores, uma “conspiração da amizade”, expressão que muito bem manifesta o desejo de surpreender a Autora. Este gesto uniu personalidades internacionais oriundas das Letras, Artes e Ciências, refletindo a magnitude das relações académicas e culturais que Annabela Rita cultivou ao longo da sua carreira.

Livro de homenagem à obra de Annabela Rita pela editora Edifir, sob organização de Fabio Mario da Silva, Isabel Ponce de Leão, José Eduardo Franco e Michela Graziani.

O resultado desses encontros traduz, simultaneamente, um retrato da homenageada e um testemunho da convergência de saberes e dos valores de cidadania que Annabela Rita defende e promove. A legitimidade da obra que agora vem a lume é corroborada por chancelas de prestígio, como a Edizioni Firenze (EDIFIR), que a integra na coleção Studi portoghesi e lusofoni, coordenada por especialistas luso-italianos e apoiada por um Conselho Científico internacional. A iniciativa conta, ainda, com o Instituto Camões, embaixadas, universidades (Firenze, UNINT, Lusófona, UBI), centros de investigação (CELL, PRAXIS), instituições religiosas, fundações e revistas literárias, evidenciando uma rede institucional ampla e diversificada.

No livro em destaque, Annabela Rita figura nas suas múltiplas facetas: académica, autora e cidadã do mundo. Nessa dinâmica representativa, a obra inclui testemunhos, textos literários — poesia, conto, epistolografia — e elementos visuais, compondo um retrato que atravessa etapas de vida e papéis desempenhados. Revela o seu modo de trabalho, sempre em diálogo com uma côterie interdisciplinar, internacional e institucional, e o seu itinerário reflexivo, que evolui dos Estudos Literários tradicionais para abordagens intermediais e interartísticas, patente em obras como Emergências Estéticas (2006), onde explora relações intertextuais e interdiscursivas, e Cartografias Literárias (2010), que desdobra procedimentos analíticos numa espécie de workshop do seu modo de ler.

A construção teórica que realiza desenvolve uma gramática própria de leitura, cruzando conceitos operatórios de várias áreas — cartografia, música, pintura, fotografia, cinema — e sinaliza uma reflexão teorizante emoldurada numa ficção de “A.” (Annabela? Autora?), que assume a relativização e a circunstancialidade das leituras.

A obra reúne contributos de diversas áreas do saber e instituições de reconhecido mérito, configurando-se como um projeto pioneiro no panorama editorial lusófono. A análise incide sobre a sua estrutura organizativa, diversidade tipológica e relevância institucional, de coordenação luso-italiana e de Conselho Científico internacional de sete membros (China, Itália, Polónia, Portugal), acompanhada pelo Instituto Camões (com destaque para 2 cátedras universitárias: a de Fernando Pessoa e a de Saramago), pela Embaixada de Portugal em Itália, por universidades (de Firenze, UNINT, Lusófona, UBI), centros de investigação (CELL, PRAXIS), instituições religiosas (Santuário de Fátima), fundações (a Dino Terra) e uma revista literária (As Artes entre as Letras.

Os textos que homenageiam Annabela Rita abarcam áreas tão diversas como literatura, belas-artes, filosofia, história, medicina, física, museologia e estudos culturais, incluindo vozes ligadas à diplomacia e à vida associativa.

Das inúmeras assinaturas – não obstante o testemunho dos organizadores/ coordenadores e a autoria da ilustração da capa por António Nahak Borges – destacam-se nomes como os de Anamarija Marinovic (Association of Literary Translators of Serbia; CLEPUL), Anna Kalewska (Instituto de Estudos Ibéricos e Iberoamericanos da Universidade de Varsóvia), Carlos Nogueira (Universidade da Beira Interior), Chris Gerry (Universidade do Porto), Deana Barroqueiro (escritora), Ernesto Rodrigues (Universidade de Lisboa), Eugenio Lucotti (Università Ca’ Foscari Venezia), José Viale-Moutinho (Escritor), Luísa Antunes Paolinelli (Universidade da Madeira), Maria Aparecida da Costa (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), Mendo de Castro Henriques (Universidade Católica Portuguesa), Miguel Real (escritor e ensaísta) ou Silvie Špánková (Masarykova Univerzita, Czech Republic).

Por conseguinte, a tipologia dos contributos revela-se, também, variada e plural: contos, poemas, ensaios, depoimentos e representações iconográficas da homenageada, da infância à atualidade. A obra inclui, ainda, uma Tábua Gratulatória, com cerca de 150 nomes de reconhecido mérito internacional, conferindo-lhe um caráter coletivo e celebratório que ultrapassa fronteiras disciplinares e geográficas.

O livro em foco não traduz exclusivamente um gesto celebrativo e uma voz encomiástica uníssona. Expressa, de forma análoga, um testemunho de vitalidade dos estudos literários e da sua capacidade de se reinventarem em diálogo com outras áreas do conhecimento. E realça, sobretudo, a delicadeza e a admiração dos autores pela homenageada, a “inconfundível” e “amabilíssima Annabela Rita”[1], cujas palavras “não cabe[m], […] nestas linhas”[2], pois que “nos sulcos do [s]eu sabedor gesto”[3]acolhe com generosidade o Outro. Annabela Rita alimenta “Os seus sonhos/ Com a força da amizade!”[4],num “bordado de palavras belas e sábias”[5], “com o desprendimento que só os que amam compreendem.”[6]

Pela escrita delicada e imagética de Diomira Maria, a narradora do conto Lisboa exibe um quadro feérico, no desfecho da narrativa: trajando um vestido níveo, com uma “grinalda em sua cabeça e as tulipas nas mãos”[7], Annabela Rita e o noivo subverteram o Tempo, e os seus pés elevam-se num céu sem estrelas, acompanhados pelo mágico “unicórnio branco [que] se ofereceu para levá-los”[8], rasgando o breu, para os fixar numa constelação de luzes e de afetos…

Autores:

Natália CONSTÂNCIO (IELT-NOVA-FCSH – CIAC-UAlg. – CEG-UAberta)

Pedro ALBUQUERQUE (Universidad de Sevilla – CEG-UAberta – CIAC-UAlg. – UNIARQ.)

Ana Cristina CARVALHO (IELT-NOVA-FCSH e CICS.NOVA)

Livro de tributo a Annabela Rita

TítuloUma Filósofa da Literatura e do Diálogo Interartes. Livro de Homenagem

Organização: Fabio Mario da Silva, Isabel Ponce de Leão, José Eduardo Franco, Michela Graziani

Editora: Edifir – Edizioni Firenze (Itália)

BIBLIOGRAFIA:

RITAAnnabela (2006). Emergências Estéticas. Lisboa: CLEPUL.

RITAAnnabela (2010). Cartografias Literárias. Lisboa: CLEPUL.

RITA, Annabela (2018).Do Que Não Existe. Repensando o Cânone Literário. Lisboa: Manufactura.

SILVA, Fabio Mario da, LEÃO, Isabel Ponce de, FRANCO, José Eduardo, & GRAZIANI, Michela (Orgs.) (2025). Uma filósofa da literatura e do diálogo interartes. Livro de homenagem. Firenze: Edizioni Edifir.

[1] “MEU TESTEMUNHO SOBRE A ANNABELA”, Carlos Fiolhais, p. 67.

[2] “UM TESTEMUNHO E UM AGRADECIMENTO NUMA SENTIDA HOMENAGEM”, Pedro Albuquerque, p. 62.

[3] “MULIER VIATOR (ANNABELA RITA)”, Dionísio Vila Maior, p. 25.

[4] “O ELOGIO DA ÁGUIA”, Medina de Gouveia, p. 26.

[5] “PEQUENOS TEXTOS PARA ANNABELA RITA”, Kátia Canton, p. 27.

[6] “EPISTOLOGRAFIA IMAGINÁRIA”, Natália Constâncio, p. 49.

[7] “LISBOA”, Diomira Maria, p. 43.

[8] Ibidem.


A Prof. Doutora Annabela Rita é membro do Conselho Diretivo do OLP-Observatório da Língua Portuguesa.


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