Guiné-Bissau: Detenção de Simões Pereira é “ilegalidade” para qualquer fórum

Praia, 26 jan 2026 (Lusa) – O economista guineense Carlos Lopes classificou hoje a detenção do opositor Domingos Simões Pereira e outros, na Guiné-Bissau, como uma ilegalidade que deve ser contestada em qualquer fórum internacional.

“Penso que a prisão de Domingos Simões Pereira e de outros se trata de uma ilegalidade, tem de ser posta em causa em qualquer fórum internacional e espero que a libertação dele e dos outros presos políticos na Guiné-Bissau ocorra o mais depressa possível”, referiu à Lusa, na cidade da Praia, Cabo Verde.

Segundo referiu, tal prisão trata-se de “uma afronta moral, por se tratar não só de uma ilegalidade, mas também de uma privação de liberdade” sem justificação, “nem a nível oficial”.

Carlos Lopes recordou que participou com Simões Pereira no projeto Terra Ranka, apresentado à comunidade internacional, demonstrando que “havia grande possibilidade de mobilização de recursos para desenvolver a Guiné-Bissau”, mas que “infelizmente não pôde ser levado a cabo”.

Agraciado, hoje, com o prémio Amílcar Cabral pela Universidade de Cabo Verde (UniCV), o economista foi questionado pela plateia e referiu que a Guiné-Bissau é um de “16 países africanos que organizaram eleições nos últimos três anos excluindo os opositores”.

A Guiné-Bissau espelha também outra tendência: “um crescimento muito alto e, muitas vezes, em países que são extremamente mal governados. E é o caso da Guiné-Bissau. Temos um crescimento que anda à volta dos 4% por ano”, com acesso a crédito através do Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO), que o Estado pode transformar “em viagens privadas de um Presidente. E o PIB cresce”.

“O crescimento é baseado pura e simplesmente num consumo que não tem nada de transformador”, explicou.

“O Governo da Guiné-Bissau tem uma qualidade tão medíocre, é de uma afronta a todos os princípios institucionais básicos que não merece muita consideração”, acrescentou, lamentando a falta de atenção dada ao seu país na arena global.

África é rica em juventude, mas, segundo Carlos Lopes, são jovens que dão prioridade a objetivos imediatos, algo que pode ser aproveitado por derivas autoritárias, porque, fazer política “para longo prazo, concebida com racionalidade, não mobiliza os jovens” como aquilo que desejam imediatamente.

O economista guineense, antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), foi uma das mais recentes vozes a pedir a libertação de Domingos Simões Pereira.

Na sexta-feira, o Presidente angolano, João Lourenço, exigiu a “libertação incondicional” do presidente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), detido na sequência do golpe militar de 26 de novembro de 2025, na Guiné-Bissau, um dia antes da divulgação dos resultados eleitorais das eleições de 23 de novembro.

Também na última semana, o Presidente cabo-verdiano, José Maria Neves, apelou à liberdade para os presos políticos na Guiné-Bissau, “sobretudo de Domingos Simões Pereira”, defendendo diálogo para garantir a democracia.

Os militares têm respondido, classificando os apelos como “ingerências externas” nas questões políticas guineenses.

Simões Pereira está detido e incomunicável desde o dia do golpe, sem acusação formada.

LFO (NME/RS/HFI) // VM – Lusa/Fim

Foto de destaque: Domingos Simoes Pereira. ANDRE KOSTERS / LUSA

O professor e académico Carlos Lopes (D), discursa após ter sido distinguido pela Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) com o 1º Prémio Amílcar Cabral, reconhecendo-o como uma das vozes mais influentes do pensamento contemporâneo do Sul Global, no Centro de Convenções da universidade, na Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde, 26 de janeiro de 2026. ELTON MONTEIRO/LUSA
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