27 February 2021
Alvo de meros planos nacionais no passado, a língua portuguesa atrasou-se na sua expansão internacional, o que não aconteceu com o espanhol. A opinião é de Gilvan Muller de Oliveira, director executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).

Entrevista a Gilvan Muller de Oliveira

Participou na elaboração do Plano de Acção de Lisboa nas áreas da diplomacia e da política, recentemente decidido na conferência da CPLP. Que pontos principais destaca dos trabalhos?
O objectivo é traçar no plano uma estratégia da área para a formação da língua portuguesa nestes temas que animaram também a outra parte da conferência, ou seja, o português como língua da ciência, e a sua importância para as diásporas para os falantes da língua portuguesa, a questão da educação e especialmente do ensino superior. Já há documentos para o próximo período (2014–2018) com uma estratégia e um avanço dessa estratégia, com a previsão inclusive de incluir elementos que permitem a medição do avanço dos esforços concertados. O plano, no seu andamento, evidentemente propõe assuntos novos, retoma alguns assuntos do Plano de Acção de Brasília (PAB), e mantém as suas decisões. Inclui parte das conferências e também acolhe propostas e sugestões dos governos da CPLP.

Em termos políticos e diplomáticos o que pode ser feito no mundo da CPLP para que se atinjam esses objectivos?
Em primeiro lugar fico muito satisfeito com a conferência, acho que é um momento alto da comunidade. O Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) teve a oportunidade de apresentar dois projectos que consideramos relevantes para o futuro da língua portuguesa e que foram indicados no PAB. Um deles é o portal do professor de português como língua estrangeira, e que traz unidades didácticas disponibilizadas gratuitamente para o utilizador. Tal permitirá a professores de todo o mundo utilizarem materiais abertos para o seu trabalho. O segundo projecto são os avanços no Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), um instrumento solicitado ao IILP pelo PAB e previsto no novo Acordo Ortográfico. São vocabulários de Portugal, Brasil e Moçambique. Pela primeira vez temos esta confluência de esforços e é, também, a primeira vez que os vocabulários do Brasil e de Portugal estão plasmados numa única base. É, igualmente, a primeira vez na história que temos um país africano de língua oficial portuguesa com o seu vocabulário elaborado segundo modernas tecnologias. E é também a primeira vez que financiamos um projecto central com recursos de um país africano de língua portuguesa, neste caso Angola. Esses esforços dos últimos três anos mostram a viabilidade da nossa cooperação e a efectiva vantagem de trabalharmos juntos e criar projectos concretos. Estamos aqui para garantir que tenham a devida continuidade e importância que merecem.

Angola financiou esse projecto. Acredita que a expansão da língua portuguesa nos próximos tempos terá que ser financiada pelas grandes potências falantes de português, sem esquecer o Brasil?
Vejo que temos conseguido somar recursos porque é muito mais económico e inteligente dividirmos os custos. Não criamos sistemas que depois são incompatíveis, como tem sido muitas vezes a história da nossa língua. Temos dois certificados de avaliação da pro-eficiência da língua, duas ortografias e dois vocabulários. É uma visão inteligente dos nossos chefes de Estado terem incluído no PAB a ideia de que devemos coordenar isso, que podemos sim compartilhar recursos, e com o próprio financiamento do IILP. É claro que os países que dispõem de mais recursos podem contribuir e são beneficiários dessa contribuição, na medida em que os seus recursos tecnológicos e em termos de qualificação profissional são aproveitados para a comunidade.
Poderemos falar da criação de um fundo financeiro comum da CPLP?
Temos captado recursos de acordo com os projectos, tanto dos próprios Estados-membros como de comunidades de que esses Estados fazem parte. Em 2011, fizemos a primeira captação de recursos externos, o que mostra que, para além dos recursos propriamente oriundos dos Estados-membros, os nossos projectos são interessantes para financiadores de programas mais amplos de financiamento. Vejo muito mais do que a existência de um fundo específico, mas sim a busca de fundos que compõem então os financiamentos para os projectos estabelecidos.

Decerto concorda que à medida que a língua portuguesa se for expandido será preciso cada vez mais financiamento. Haverá uma lacuna a esse nível nos próximos anos, ou essa possibilidade será contornada?
Não acredito em falta de recursos, antes pelo contrário. Nunca houve tantos interessados em actuar na promoção da língua, porque é lucrativa e traz benefícios. As universidades que se podem internacionalizar com a língua portuguesa e que podem ter alunos de outros países, obtém uma circulação internacional. Ter uma língua expandida no mundo é extremamente vantajoso.

ESPANHÓIS CHEGARAM PRIMEIRO

Comparando, por exemplo, com a expansão da língua espanhola, também muito falada na América do Sul, a nossa estratégia para o português está mais consolidada?
Não, considero que a estratégia de promoção da língua portuguesa é muito mais tardia, ainda está mais em formulação. Durante o século XX tivemos a formação de um sistema de normas com a colaboração do Brasil e de Portugal, mas uma promoção estritamente em limites nacionais da língua portuguesa. O que vemos hoje se movimentando, através da CPLP sobretudo, é a concertação dos países para uma promoção conjunta, com todas as dificuldades que isso traz. Estamos a fazer esse trabalho de promoção, que não está consolidado, que se amplia através da incorporação na sociedade civil, das universidades, dos institutos de pesquisa, com uma cada vez mais crescente iniciativa privada. Estamos a passar por um momento muito importante na história da nossa língua. Nunca ela foi tão desejada e ensinada no exterior. E também nunca os nossos povos tiveram tanto acesso à escolarização como neste momento. Foi citado na conferência que na queda da monarquia em Portugal, no final do século XIX, 90% das nossas populações eram analfabetas. Hoje há um avanço enorme neste campo.

Disse à agência Lusa que os estados membros da CPLP devem 500 mil euros ao IILP. Quais são os países mais devedores?
Comentei também com a jornalista da Lusa que estamos a passar por um momento de festa da língua portuguesa, que é a conferência, e acho que neste momento de festa vamo-nos concentrar exactamente em tratar das boas questões e das perspectivas que se abrem.

Mas esta situação pode afectar o futuro do instituto?
Vários destes problemas são conjecturais e acredito fortemente que o instituto tem e terá capacidade de diversificar as receitas através de apresentação de projectos e outras formas. O instituto é um instrumento útil à comunidade, que pode usá-lo muito mais fortemente do que usa. Pode estabelecer para ele muito mais metas do que tem estabelecido. Essa preocupação vai orientar a acção da futura direcção executiva do IILP, que avança em ordem alfabética, em que cada país ocupa a sua gestão. A próxima cimeira da CPLP, que vai para a Ásia pela primeira vez, no ano que vem, (Timor-Leste ocupa a presidência), vai aproximar a gestão da CPLP de Macau.

Essa transferência vai, de facto, contribuir para essa aproximação? É necessária?
O secretário-executivo (da CPLP) certamente terá as suas estratégias. Mas evidentemente que a proximidade geográfica e a próxima posição de Timor são positivos para o incremento da relação do português nessa região do mundo.

IILP E IIM, A PARCERIA POR CONCRETIZAR

O IILP tem ligações com o Instituto Internacional de Macau (IIM). Como estão essas relações?
Tivemos conversações, encontrámo-nos algumas vezes, mas não temos um trabalho ainda estabelecido de cooperação, que seria efectivamente muito bom. Macau, sendo um território de língua oficial portuguesa, é um parceiro muito importante e poderia ser muito importante para o IILP.

Essa parceria poderia até ser a nível financeiro, para futuros projectos de maior envergadura?
Seria muito positivo poder contar com parcerias das instituições de Macau e com financiamento dos projectos aprovados pelo IILP. Talvez fosse uma boa ideia para a próxima direcção, estabelecida a partir da presença da CPLP para Timor-Leste.

Já houve alguns projectos editoriais entre o IILP e o IIM. Porque é que ainda não se avançaram para projectos mais concretos?
Pelas limitações da nossa capacidade de actuação. O instituto tem uma estrutura bastante pequena e modesta, e tem operado no limite da sua capacidade. Então essas boas ideias e esse potencial talvez possa ser percebido agora que a conferencia numa fase de maior tranquilidade, esperemos. Então, espero que possamos estabelecer algum plano de trabalho conjunto.

Os países da CPLP poderiam ter mais em conta o trabalho do IILP e olhar melhor para ele?
Tenho referido sempre isso. O instituto teve uma proposta muito vanguardista para a sua época, que foi a concepção de 1989, que cria o IILP, antes mesmo da CPLP. Posteriormente o IILP foi integrado na estrutura da CPLP. O IILP é uma estrutura vanguardista que estabelece um tipo de cooperação linguística horizontal entre os países que não é muito comum no mundo das grandes línguas. Têm modelos mais centralizadores em que um único país puxa o esforço para uma língua, o que não é o caso dos países de língua portuguesa neste modelo do IILP e da CPLP. Mas construir um modelo como este não é algo fácil e é preciso deixar muito claro aos estados e vice-versa que níveis serão colocados pelos estados e o que é que eles têm interesse de colocar num panorama multilateral. Para umas coisas é melhor, para outras será melhor um ambiente nacional. Acho que no século XXI o aprofundamento maior dos países de língua portuguesa, e a consciência que é importante somar recursos tendem a favorecer uma visão mais internacional. A internacionalização da língua portuguesa também faz com que haja vantagens de internacionalizar a sua gestão e criar consensos.

 

QUEM É GILVAN MULLER DE OLIVEIRA?

Gilvan Muller de Oliveira é brasileiro, licenciou-se em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, em 1985; fez o mestrado em Linguística Teórica, Filosofia e História pela Universitat Konstanz, Alemanha (1990), o doutoramento em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (2004) e o pós-doutoramento, em curso, na Universidade Autónoma Metropolitana Iztapalapa, no México. É professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina, ex-director do IPOL – Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística. Actua na área de Política Linguística, com especial atenção na formulação e execução de projectos em promoção linguística e no apoio à pluralidade linguística.
Coordenou projectos na área de formação de docentes e elaboração curricular para regiões de bilinguismo e plurilinguismo, realiza pesquisas no campo da história da língua portuguesa e, como pós-Doutor pela Universidade Autónoma Metropolitana Iztapalana (UAM) México Distrito Federal, no seu tema de pós-doutoramento, escreveu sobre a sua internacionalização no século XXI.

Fonte: hojemacau

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