Lisboa, 04 mar 2026 (Lusa) – O autor do dicionário de inglês para crioulo cabo-verdiano considerou hoje à Lusa que a língua materna é “a alma do povo” e que o crioulo precisa de ser mais bem estudado, escrito e valorizado.
Manuel da Luz Gonçalves explicou, em declarações à Lusa, que a ideia de elaborar o dicionário surgiu quando lecionava nos Estados Unidos da América, onde sentiu a falta de materiais pedagógicos para ensinar crioulo cabo-verdiano e inglês a estudantes cabo-verdianos e os descendentes nascidos na diáspora, no âmbito de um programa de aulas bilingues em Boston.
“Eu vivia nos Estados Unidos, particularmente em Boston, onde tínhamos um programa de língua, tanto crioulo [cabo-verdiano] como inglês, mas infelizmente não tínhamos materiais para o ensino”, recordou.
Segundo o autor, a ausência de recursos dificultava o ensino e a necessidade de materiais de estudo tornava-se ainda mais evidente entre os cidadãos nascidos nos EUA.
“Na América há muitos cabo-verdianos que nasceram lá e viveram por muito tempo sem essa parte cultural que é a língua”, afirmou.
A falta de instrumentos pedagógicos levou os próprios alunos a questionar a inexistência de um dicionário que facilitasse a aprendizagem.
“Nas aulas perguntavam sempre: ‘Vocês não têm um dicionário? Como é que vamos saber o vocabulário e o significado de uma língua para outra se não temos um dicionário?'”, recordou.
Foi assim que surgiu o projeto, que acabou por se tornar na investigação de uma vida.
“Primeiro fiz o [dicionário] crioulo-inglês e depois surgiu a necessidade de complementar a outra parte, que era o inglês-crioulo”, explicou.
Cada obra levou cerca de uma década a concluir, num processo que descreveu como exigente e marcado por dificuldades financeiras, sem o apoio do Governo cabo-verdiano.
“Foi um trabalho penoso, com muito esforço, muito sacrifício, mas lá conseguimos”, disse.
Na fase mais recente, o trabalho do segundo dicionário, o “Cape-verdian – English Dictionary – Dicionário Inglês para Crioulo Cabo-verdiano”, teve o apoio de familiares reunidos numa equipa chamada Mili Mila.
“Criámos uma companhia que se chama Mili Mila. Somos sete, incluindo a minha filha e as minhas sobrinhas. Foi um ajuntamento de familiares que viram a necessidade e o sacrifício que eu fazia sozinho”, relatou.
Apesar da importância do trabalho, Manuel da Luz Gonçalves lamenta que o crioulo ainda não tenha um estatuto plenamente consolidado em Cabo Verde.
“O problema não é linguístico, é político, porque ainda não se concretizou a fase da oficialização do crioulo”, afirmou.
Segundo o autor, embora a Constituição reconheça o valor da língua, na prática ela ainda não tem o mesmo peso que o português.
“Dizem que na Constituição as duas línguas têm o mesmo peso, mas na prática não têm, porque a língua ainda não está completamente oficializada”, sublinhou.
A professora Ana Josefa Cardoso, que vai apresentar a obra hoje no Centro Cultural Cabo Verde (CCCV), em Lisboa, com o autor, também considerou, em declarações à Lusa, que para esta língua ser, na prática, oficializada em Cabo Verde falta “vontade política, financiamento e a legislação começar a ser aplicada”.
A especialista salientou também que, erradamente, se tem a ideia de que o crioulo é uma língua única. Na verdade, é uma família de línguas com a mesma base, mas que divergem entre si, referiu.
Por outro lado, o autor da obra salientou que o dicionário pretende contribuir para a valorização e normalização do crioulo cabo-verdiano, nomeadamente do uso do alfabeto oficial, que “ainda é pouco conhecido” pela população em geral.
“Muita gente escreve em crioulo, mas cada um escreve à sua maneira, sem utilizar o alfabeto oficial para uniformizar a língua”, explicou.
Para o professor, a preservação da língua é essencial para a identidade cultural cabo-verdiana porque “a língua materna é a alma do povo”.
Com mais de 100.000 palavras e expressões, a obra reúne variantes do crioulo das regiões de Sotavento e Barlavento do arquipélago e pretende servir de referência para linguistas, professores, estudantes e membros da diáspora, concluiu.
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