O verbo é o elemento central de uma frase. Sem ele, não há mensagem; sem ele não há comunicação. Podem faltar determinantes, advérbios, adjetivos ou até nomes numa frase, mas o verbo nunca pode faltar!

Há, porém, verbos que podem atrapalhar o nosso discurso e causar alguns embaraços à comunicação. Vejamos alguns deles:

Despoletar

O verbo despoletar, ao contrário do que pensamos, não significa deflagrar, desencadear. E porquê? Na sua base está a palavra espoleta, que é um termo militar que designa o dispositivo que produz a detonação das cargas explosivas, como por exemplo, uma granada. Quando ativamos esse dispositivo, usamos o verbo espoletar, que significa “pôr a espoleta em”, logo, “fazer deflagrar a granada”. Se tirarmos a espoleta, a granada fica inativa. Para esta ação, usamos o verbo despoletar, que significa, portanto, “tirar a espoleta a; tornar impossível o disparo de”. Em sentido figurado, significa “anular algo, travar o desencadeamento de”.

Ora, quando dizemos, por exemplo, “Foi isso que despoletou a incêndio”, estamos a dizer precisamente o oposto do que pretendemos. Porque não usar o verbo desencadear?

 

Descriminar

Apesar de ter algumas semelhanças gráficas com os verbos descrever e detalhar, o verbo descriminar não tem qualquer elo semântico com esses verbos. Significa, sim, “absolver de um crime imputado, livrar de culpa ou acusação”; é o contrário de incriminar. Por exemploO juiz descriminou o réu depois de várias audiências, ou seja, retirou-lhe o crime.

 

Matado

A palavra matado corresponde ao particípio passado regular do verbo matar. Este verbo é um dos que possuem duas formas de particípio passado: uma forma regular (matado) e uma forma irregular (morto). A forma participial regular deve ser usada com o verbo auxiliar ter: O leão tem matado muitas gazelas.

 A forma participial irregular (morto) deve ser usada com os verbos auxiliares ser e estarAs gazelas foram mortas pelo leão.

Sedear

O verbo sedear não significa “estabelecer sede num determinado lugar”. Este significado é veiculado pelo verbo sediar: “Essa empresa está sediada no Porto”.

O verbo sedear significa “limpar objetos de ourivesaria com uma escova de sedas”. Tem na sua base o nome seda, ao qual se associa o sufixo –ear, presente em verbos como cabecear, folhear, golpear, nortear, que veiculam um valor de movimento.

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Sandra Duarte Tavares

Sandra Duarte Tavares é doutoranda em Ciências da Comunicação e mestre em Linguística Portuguesa pela Faculdade de Letras de Lisboa. É professora convidada da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, na Formação Avançada em Técnicas de Alta Performance de Comunicação Oral, e da Universidade Lusófona na Licenciatura de Comunicação Aplicada. Colabora, desde 2008, com a RTP em programas televisivos e radiofónicos sobre Língua Portuguesa e é cronista na Revista Visão (edição digital), integrando a Bolsa de Especialistas. É autora e coautora de vários livros sobre Língua Portuguesa e Comunicação. Conta ainda com 12 anos de experiência como consultora linguística e formadora de Comunicação em diversas empresas e instituições.

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