Margarita Correia
Diário de Notícias, 16 Janeiro 2023.

Nas primeiras aulas de linguística, aprende-se que uma das características universais da linguagem (entendida como capacidade distintiva da espécie humana, que se manifesta através das muitas línguas existentes) é a variação, i.e., o processo pelo qual, apesar de reconhecermos a unidade de uma língua (por constituir um sistema linguístico, com gramática (regras) e léxico (palavras) específicos, que se desenvolveu espontaneamente no seio de uma comunidade e é partilhado pelos indivíduos que a constituem), essa língua é usada de formas variadas, no dia a dia dos falantes.

A variação linguística ocorre ao longo do tempo (diacrónica) – e facilmente percebemos que o português falado pelas pessoas dos tempos de Gil Vicente ou Camilo Castelo Branco terá sido bem diferente daquele que falamos hoje; os mais velhos de nós temos consciência de que a forma como falávamos há 30, 40 ou 50 anos sofreu mudança e não raro nos surpreendemos quando ouvimos uma forma de dizer que já não ouvíamos há tanto tempo que quase a havíamos esquecido. Mas a variação ocorre também em cada época (variação sincrónica), em função de aspetos geográficos, sociais, pragmáticos, funcionais e até mesmo pessoais.

Línguas faladas em diversos pontos do mundo, como o português, conhecem forte variação determinada pela sua dispersão geográfica, mas também pelo contacto com as diferentes línguas que coexistem em cada espaço e pela sua nativização, condicionada pela história e organização de cada sociedade. As grandes línguas – entenda-se “grandes” como faladas por muitas pessoas, em muitos lugares e situações diferentes, desempenhando múltiplas funções – desenvolvem diferentes formas ou variedades linguísticas.

Quando essas línguas se tornam oficiais de diferentes estados e as respetivas comunidades as assumem como suas, é previsível que cada país desenvolva uma variedade nacional, que é assumida como a sua variedade da língua em questão, representativa do próprio país e seu povo. É neste sentido que falamos em variedades nacionais do português (ou do inglês, ou do espanhol), apresentando diferentes níveis de desenvolvimento, aceitação por autoridades e comunidade e codificação. Brasil e Portugal têm variedades desenvolvidas, aceites, codificadas e, por isso, dominantes; Moçambique e São Tomé e Príncipe têm variedades desenvolvidas, em vias de aceitação e codificação; Angola desenvolveu a sua variedade nacional, mas esta não é aceite pelas autoridades nacionais e, logo, a carece de codificação; Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste encontram-se mais longe de virem a ter variedades nacionais desenvolvidas.

A assunção de variedades linguísticas distintas pressupõe a determinação de diversas facetas do conhecimento linguístico que são afetadas pela variação. E.g. a variedade brasileira e a portuguesa variam a nível fonético e fonológico, lexical, sintático, semântico e pragmático. Se nos cingirmos a cada faceta da variação, rapidamente somos capazes de enumerar conjuntos de variantes, i.e., de elementos que são diferentes em uma e outra, contribuindo para a construção de cada variedade – e.g. ônibus/autocarro, aids/sida, bolsista/bolseiro são variantes lexicais.
Embora partilhem o mesmo radical verbal – vari(ar) -, variaçãovariedade e variante nomeiam conceitos diferentes, que a própria morfologia das palavras ajuda a entender: variação é um processo; variedade é o facto de ser variado e aquilo que apresenta essa característica; variante é aquilo que varia.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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