28 February 2021
Praia- A utilização do Português como língua exclusiva nas salas de aula em Cabo Verde prejudica muitos alunos, razão pela qual o cabo-verdiano (crioulo) deve tornar-se o idioma de ensino nas escolas do arquipélago, defendeu hoje o investigador João Rosa.

Uso do Português como língua exclusiva nas salas de aula

Em declarações à Agência Lusa, João Rosa, um investigador cabo-verdiano mestre em Linguística na Universidade de Massachusetts (Estados Unidos), onde lecciona, sublinhou que o Português leva a que muitos alunos em Cabo Verde sejam “silenciados” nas salas de aula, dado que, fora delas, só falam o Crioulo.

“A utilização do Português como língua exclusiva nas salas de aula prejudica muitos alunos cabo-verdianos que não têm acesso à língua em casa, que é a maioria dos alunos em Cabo Verde”, sustenta João Rosa, autor do recentemente editado “Discursos Linguísticos e Realidades nas Salas de Aulas — Vencendo a Luta pelo Controle”.

João Rosa frisou que, dentro das salas de aula, os alunos “são sujeitos a uma política linguística que os obriga a falar Português”, mas recusou a ideia, questionado pela Lusa, de que a falha pertença também à própria sociedade local.

“Não acho que seja uma falha da sociedade cabo-verdiana. Desde que foi instituído nas escolas o Português tem sido uma língua protegida na sociedade. Só que a realidade ocorre em Crioulo, em Cabo-Verdiano. Acho que o Português é uma grande herança do povo cabo-verdiano, mas a prática, o ensino e a política linguística não podem sujeitar a maioria dos alunos a um silêncio dentro das salas de aula”, respondeu.

“O Português tem de ser ensinado em Cabo Verde mas como segunda língua, não como língua nativa. Essa política, por exemplo, iria diminuir as interferências linguísticas que ocorrem na maior parte da população”, sublinhou João Rosa, natural da Cidade da Praia, onde nasceu a 05 de abril de 1969 (41 anos) e residente nos EUA.

“O ensino do Português como segunda língua exigiria um ensino, na primeira fase da aprendizagem das crianças, em Crioulo. Depois, gradualmente, envolver-se-ia o Português. Não pretendo que não se deve estudar o Português em Cabo Verde. Isso seria absurdo”, acrescentou.

Como exemplo de que a aprendizagem em Crioulo facilitaria a aprendizagem, João Rosa indicou que, nos Estados Unidos, os alunos cabo-verdianos que lá estudam fazem-no na língua Cabo-Verdiana “sem quaisquer problemas”.

“Muitas escolas americanas, sobretudo em Boston, utilizam o Crioulo como língua oral sem problema nenhum. Os alunos cabo-verdianos que vão para os Estados Unidos não têm base nenhuma de Português e aprendem com a língua que utilizam diariamente. Utilizamos esse método de ensino sem problemas nenhuns”, exemplificou.

João Rosa lembrou que o Instituto do Crioulo Cabo-Verdiano (ICC) produz materiais escolares em Crioulo e que são utilizados no ensino sem qualquer problema.

“Esse é um debate que existe apenas em Cabo Verde e que não tem em conta o que se passa no exterior, na diáspora”, referiu o autor, argumentando que o modelo existente nos Estados Unidos prova que pode ser aplicado no país.

Questionado pela Lusa sobre se a estrutura gramatical do Cabo-Verdiano é suficiente para o ensino no arquipélago, João Rosa defendeu que sim, frisando que não existem, em termos linguísticos, diferenças entre o Crioulo e uma língua formal.

“Em termos linguísticos não existe uma diferença entre o Crioulo e uma língua própria. Não é consistente com o facto de a população utilizar diariamente o Crioulo. Não existe um que não tenha regras próprias. Isso é um mito generalizado”, concluiu, lembrando que o Inglês é falado diferenciadamente em Inglaterra, Estados Unidos ou Índia e não deixa de ser uma língua.

 

 

FONTE: Angop

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