2 March 2021
Isabelle Oliveira, Sorbonne Nouvelle

Um valor seguro

Uma língua empreendedora do futuro: 340 a 400 milhões de falantes em 2050, é a quarta língua mais utilizada na internet, a terceira no Facebook e no Twitter

A lusofonia representa uma economia–mundo em transformação e revela uma área geoeconómica de limites estáveis e um ecossistema político, linguístico e cultural. O elemento ligante desse grande desígnio de prosperidade comum é, naturalmente, a língua lusófona – uma língua de cultura e diplomacia. Mas, também, uma língua empreendedora do futuro: com 340 a 400 milhões de falantes em 2050, segundo os dados da Unesco, é a quarta língua mais utilizada na internet, a terceira língua mais utilizada no Facebook e no Twitter e o poder económico dos falantes de português representa 4% da riqueza mundial. Se a partilha de uma língua é, por si, um agente facilitador nas transacções, a língua portuguesa – uma extraordinária moeda de troca humana – poderia converter-se no eixo manante e luminoso de uma interdependência económica solidária entre as suas centenas de milhões de falantes.

Barómetro Calvet:

O português em destaqueRessalva-se, igualmente, que a língua portuguesa alcançou a nona posição de acordo com o Barómetro Calvet das Línguas do Mundo, que avalia o peso das línguas relativamente a dez factores distintos, aos quais se atribui igual ponderação. Entre esses factores destacam-se, entre outros, o número de falantes como língua não materna, o índice de desenvolvimento humano, o índice de penetração da internet e as traduções que têm o português como língua tanto de partida como de chegada. Estou convicta de que uma conjugação de esforços levará a uma rápida subida de posição.

A lusoconomia não é um gueto

É nesta vertente que, na Sorbonne, redobramos esforços para valorizar, defender e promover a língua e cultura portuguesas em França. Fazemo-lo reforçando a faceta identitária da nossa diferença, exprimindo-a especialmente na criação de novos conceitos, tal como o de “lusoconomia”, que se inscreve na nossa linha de investigação. A divulgação/conhecimento e a preservação do ensino da língua portuguesa nas universidades francesas têm-nos exigido uma luta permanente, na medida em que o português ainda é considerado como língua minoritária pelo Ministério do Ensino Superior, pelo que é de todo recomendável que os portugueses, principalmente os detentores de cargos públicos e/ou políticos, não assumam a língua portuguesa como “língua de gueto”, referindo–se aos tempos remotos da emigração. A promoção da língua portuguesa tem de ser assumida por todos e sempre, seja internamente seja no estrangeiro. (Re)Lembro que compete em primeiro lugar aos agentes políticos a afirmação da língua portuguesa no palco internacional. É tempo de acordar!

Necessidade de afirmação política

Para tal, é fundamental que se arquitectem propostas concretas, e não meras teorias vagas e pouco fundamentadas. Nesta matéria, não há lugar ao conformismo. Os problemas concretos não se resolvem com retóricas. Exige-se credibilidade, conhecimento aprofundado e experiência. Só assim é possível uma efectiva afirmação política que impulsione um novo rumo para a lusofonia.

Urge uma orientação política responsável para as questões da língua em Portugal, aplicada neste caso ao português, seja como língua materna seja como não materna, que não se compadeça com simples afirmações, normalmente tomadas como axiomas, mas dissociadas da realidade internacional. É verdade que não falta quem fale sobre política linguístico-cultural e científica limitando-se, frequentemente, à exclusiva indicação de formas concretas de difusão da língua nas suas diversas vertentes, sem se saber exactamente para quem, onde, como e para quê.

Necessidade de uma política linguística

Em França demorámos cerca de 40 anos a implementar uma verdadeira política linguística que resultou na criação da Organização Internacional da Francofonia (OIF), da Agência Universitária da Francofonia (AUF) e de um Ministério da Francofonia, onde a excelência de um trabalho em rede promove permanentemente a língua francesa no mundo.

A questão é, pois, muito mais vasta e complexa do que meras acções fantasmagóricas ou efervescentes discursos floreados. Não é tempo de experimentalismos, aventuras ou fantasias.

Estamos em tempo de mudança! Aproveitemo-lo para efectivar uma mudança que irradie o incontestável valor de ser lusófono – que nos outorgue a lusofonia como um valor seguro.

Directora da Faculdade de “Langues Etrangères Appliquées” – Universidade de Sorbonne

Fonte: JornaL I

Isabel Oliveira

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