Nos tempos em que exerci o mandato de deputado ao Parlamento Europeu não fui o único a envolver-me nessa questão, sendo justo salientar nomes como os dos então meus colegas Edite Estrela e José Ribeiro e Castro, aquela reforçando frequentemente a insistência na não marginalização do português no trabalho das comissões e este procurando consagrar por vários modos o reconhecimento efectivo da projecção internacional do português.

É precisamente de José Ribeiro e Castro um artigo publicado no Expresso de 19.2.2011, sob o título “Requiem pela língua portuguesa”, a propósito da cooperação reforçada que visa privilegiar as línguas inglesa, francesa e alemã, no tocante ao registo de patentes.

Só posso aplaudir o que ele diz. E corroborar o princípio, mais do que evidente quanto às línguas nacionais, de que não são admissíveis línguas de primeira e línguas de segunda na União Europeia. Muito embora se possa compreender que o registo de patentes se simplificaria consideravelmente se se reduzisse o número de idiomas em que é admitido, não se pode aceitar esse argumento: de outro modo, também se simplificariam todos os pro- cedimentos e se economiza- riam verbas astronómicas se fosse dispensado o recurso às vá- rias línguas nacionais, quer nas várias instâncias europeias, quer no resto do mundo… A União Europeia tem necessariamente de pagar o preço da sua diversidade linguística e da sua pluralidade cultural.

Todavia, se é certo que estou plenamente de acordo com Ribeiro e Castro quanto a todos os pontos por ele aflorados, devo dizer que Portugal tem o que merece. O nosso país, pela mão obscena dos seus políticos, tem perpetrado tão implacavelmente o assassínio da sua língua materna, com a alegre colaboração de alguma comunicação social, que as patentes são pequenas bodelhas boiando no vasto oceano de tanta irresponsabilidade.

A maneira como essas entidades se prestaram a acatar uma ignomínia, aliás inaplicável, que dá pelo nome de Acordo Ortográfico é eloquente: para não falar já nas trapalhadas relativas ao emprego do hífen e ao uso de maiúsculas e minúsculas, acontece que ninguém é capaz de fazer funcionar correctamente as suas regras, por ser impossível determinar, no tocante às chamadas consoantes mudas, quando é que elas se mantêm, por serem pronunciadas num ou noutro dos lados do Atlântico, e quando é que elas se suprimem, por não o serem em nenhum deles.

Não fez impressão a essas luminárias que, para escrever “correctamente” a sua própria língua, um cidadão português tenha de saber como é que ela se pronuncia num país estrangeiro… E agora as coisas estão a ser levadas ao extremo do inconcebível: não se sabendo como aplicar o Acordo, vai-se mais longe do que o previsto no seu próprio texto e zás!, varre-se de uma penada consoantes que não são mudas e continuam a ser pronunciadas no Brasil! De maneira que se gera um novo fosso ortográfico da asneira, ainda mais absurdo do que o texto que é invocado.

À sombra do Acordo estão a ser criminosamente fabricadas grafias anómalas que o Brasil não aceita nem pratica. E continua a não constar que países como Angola, Moçambique ou a Guiné, tenham ratificado a imbecilidade ortográfica que pretensamente as sustenta.

É claro que não vale a pena falar do que está ou vai passar-se nas escolas do nosso país, nem se pode ainda medir até que ponto alguns oportunismos editoriais, para não perderem o negócio, vão contribuir para escorar as soluções mais aberrantes em matéria de livros e manuais escolares.

Em Portugal, tudo apodrece. O país vai deixando de existir porque estamos a perder a nossa língua com a cumplicidade activa de toda essa gente. E por isso Portugal talvez não mereça mais do que ser arredado como impertinente, mesmo que se ponha em bicos de pés, seja no tocante às línguas de registo das patentes, seja nas outras áreas. Mas Ribeiro e Castro tem razão: a língua portuguesa está a pedir urgentemente a sua missa de defuntos.

Além de ser hoje um país falido, sem valores e sem rumo, Portugal tornou-se um país linguisticamente invertebrado.

 

FONTE: DN

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