8 March 2021
“Foi muito difícil porque tudo o que aprendemos na época dos portugueses ficou para trás, as nossas tradições também, tivemos que adotar a cultura indonésia e não podíamos falar o português. Embora, clandestinamente, falássemos e também praticássemos os nossos usos e costumes, mas sempre com medo”, referiu a escritora.

“Timor – Paraíso Violentado” quer preservar memórias para as gerações futuras

O livro “Timor–Paraíso Violentado”, que foi lançado hoje, dia 28 de novembro de 2014, em Lisboa, é um relato autobiográfico que pretende preservar memórias dos acontecimentos vividos em Timor-Leste, antes e depois da invasão indonésia em 1975, disse hoje a autora.

“Não queria compactuar com os nossos ancestrais, que apesar de serem sábios, consideravam tudo sagrado e nada podia ser revelado. Este livro tem como objetivo preservar as minhas memórias, para as gerações futuras, sobre os acontecimentos vividos em Timor-Leste”, declarou à Lusa Fátima Guterres.

A autora, no primeiro e segundo capítulos da obra, relata a sua infância e a vida social timorense durante o período da colonização portuguesa, antes da Revolução dos Cravos, que ocorreu em 1974.

A autora descreveu a sua infância e juventude felizes em Ermera, que fica no centro do país, localidade da qual a autora tem “boas lembranças”. O pai de Fátima Guterres, que era enfermeiro, foi várias vezes deslocado para trabalhar em cidades no interior timorense.

“Tenho muito orgulho de ter vivido no interior de Timor, nas montanhas, mais próximo das tradições e das pessoas mais simples, humildes, mas que são mais sábias”, sublinhou.

A revolução em Portugal levou a uma sucessão de eventos em Timor-Leste, que culminaram na declaração de independência do país, a 28 de novembro de 1975, e a posterior invasão da Indonésia neste mesmo ano.

A autora descreveu nas terceira e quarta partes do livro toda a sua vivência durante este período de transição e a invasão dos indonésios, que acabou por provocar a fuga das populações, incluindo a família de Fátima Guterres, para as montanhas, longe das cidades e das suas casas.

“Foi muito difícil porque tudo o que aprendemos na época dos portugueses ficou para trás, as nossas tradições também, tivemos que adotar a cultura indonésia e não podíamos falar o português. Embora, clandestinamente, falássemos e também praticássemos os nossos usos e costumes, mas sempre com medo”, referiu a escritora.

Fátima envolveu-se com a organização de mulheres da Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste), organização que na altura liderava o combate aos indonésios, factos descritos na quinta parte do livro.

“Posteriormente, o comando superior da luta decidiu que seria secretária do comando de operações, pois estava disposta a dar a minha vida pela causa e não revelar os segredos das operações (da Fretilin)”, sublinhou.

Em 1979, Fátima Guterres viu o marido Artur, também seu companheiro na Fretilin, ser morto pelos indonésios, tendo sido presa nesta ocasião.

A autora relata, na sexta parte da obra, os episódios que viveu durante a sua prisão, que durou quatro meses, retratando a tortura e as humilhações sofridas nas mãos dos militares da Indonésia.

Do período da luta armada, da qual Fátima Guterres tem grande dificuldade em falar, disse guardar um “grande sofrimento pessoal e o sofrimento que era também visível no povo timorense”.

Nos dois últimos capítulos, Fátima Guterres relatou como foi viver sob o domínio indonésio e o processo de exílio que a trouxe a Portugal, onde vive desde 1987, através da Cruz Vermelha.

Fátima Guterres voltou a Timor-Leste – que se tornou independente em 20 de maio de 2002 – somente em meados deste ano, quando foi lançar a sua obra no país.

O livro, com 430 páginas e editado pela Lidel, foi lançado hoje, dia 28 de novembro de 2014, na Fundação Mário Soares, em Lisboa.

CSR // EL – Lusa/fim

PREFÁCIO de Timor, paraíso violentado

TIMOR, MEMÓRIA DUM OLHAR E DE UMA VIGILÂNCIA

Entrar no coração de um país, Timor Leste, é o convite que nos é dirigido por Fátima Guterres em Timor, paraíso violentado. Neste texto autobiográfico concentram-se as memórias da sua infância e adolescência, antes de mergulhamos brutalmente na juventude de Fátima Guterrres, destruída pelo drama da invasão indonésia do país maubere. Durante a descrição da sua infância descobrimos o eco das guerras e guerrilhas internas no decorrer do século XIX, entre os vários grupos étnicos presentes em Timor Leste e a complexidade das suas relações com a colonização portuguesa.

Fátima Guterres quis partilhar a longa descrição da sua infância com todo o seu colorido em que ‘uma infância feliz’  nos conduz no seio de uma família conceituada e com amplas ramificações na história de Timor. Estas longas páginas são como um pórtico revelador do contraste entre aquilo que vai acontecer dentro em breve. São páginas de uma vida idílica e tradicional, as quais formam uma sinfonia de cores, de rostos, de nomes. São os belos rumores e sabores da infância. Neles se revela a alma da sua autora que é ao mesmo tempo testemunha plena e como que distanciada dos acontecimentos que percorreu. Entramos num cenário que se tornou distante em virtude do exílio, mas próximo porque o olhar se foi apurando. Os sentidos visuais, as memórias e os sentidos espirituais, pois de espírito é polvilhada a sua narração, são aqui bem convocados.

Fátima Guterres solicitou a minha leitura como frade dominicano, recordando que foram os dominicanos portugueses aqueles que em primeiro lugar evangelizaram o território de Timor Leste. De facto Timor Leste, Solor, Flores foram evangelizados a partir de 1515 e após a conquista de Malaca. Muito tempo antes de a Coroa portuguesa tomar posse do território já a presença de comunidades religiosas dominicanas ali estava consolidada.

A fé cristã da autora, uma alma profundamente religiosa espelha-se regularmente na sua descrição, particularmente nos momentos dramáticos em que acompanhamos a sua resistência solidária junto dos seus companheiros e companheiras de luta. A fé não é em Fátima Guterres de forma alguma fuga da realidade mas ela alimenta o combate quotidiano, transcende-o e amadurece as decisões mais urgentes. A sua fé em Jesus Cristo mostra como o seu olhar resistente, até ao impossível, se torna também um olhar contemplativo perante o inferno que surge no horizonte, cada vez mais devastador.

O drama que Fátima Guterres viveu, para além do seu carácter biográfico, constitui por si só um documento de alto valor histórico e um ato de grande coragem. É que a nossa autora não se coíbe de penetrar no âmago das forças, das fraquezas dos seus companheiros e companheiras de fuga, na traição e submissão de vários dos seus compatriotas que se colocaram ao serviço do regime indonésio.

Portugal para o melhor e para o pior impregna este drama. O nosso país que vivia nesses anos de invasão do território timorense, uma redescoberta de si próprio, num primeiro tempo viverá algo alheado do drama do povo maubere e progressiva e coletivamente aprenderá a solidariedade para com a sua antiga colónia. Esta atitude sem dúvida que será reforçada pela manifestação da vontade inquebrantável do povo timorense que nesta narrativa se revela tão eloquente.

Fátima Guterres descreve com frontalidade a amizade e a relação de convivência que se foi entranhando entre os dois povos de forma indelével. E nesse sentido ela faz ofício de ponte, talvez até sem o saber. Porque seguimos o seu olhar, profundamente ágil e feminino. E esse olhar é tanto mais singular quanto a mulher timorense foi relegada e teve o seu papel limitado na sociedade tradicional timorense até uma época recente.

Os diálogos na língua tétum, bem presentes na sua narrativa, introduzem-nos não tanto numa descoberta exótica e etnológica de Timor Leste, como antes permeiam abundantemente a sua descrição e nos colocam o desafio da distância de um olhar que é diferente do nosso olhar lusitano apesar da proximidade afetiva que nos torna povos irmãos.

O drama da invasão indonésia aparece em toda a sua crueldade, inclusivamente o sofrimento de muitos soldados indonésios, obrigados a participar nos massacres, em nome do famigerado regime de Suharto.

A infinita poesia da natureza cruza o horizonte com os crimes indonésios e a genocídio duma parte significativa da população timorense. Os que resistem vivem «o barulho das bombas, dias a fio, sempre a andar entre as florestas virgens». E persiste no seio do drama a infinita poesia da natureza como o descreve a autora: «Os riachos fogosos desciam a montanha com o estrondo forte de coisas a quebrar-se, sentia-se um cheiro intenso da terra molhada e amolecida, de mistura com outros, preponderantemente selvagens. Surpreendente mistério esta perseverança da natureza em gerar, durante séculos, as mesmas variedades de coisas e no mesmo sítio, enquanto que tudo o que em nós existe se transforma e acaba».

Mas esta melodia idílica e algo camoniana logo esbarra com a descrição seguinte: « Entretanto, as grossas colunas de tropas indonésias continuavam a avançar em nossa perseguição, acompanhados pelo rugir das bazookas e morteiros que abriam fogo sem duração, cortando o ar tórrido e indo rebentar nos lugares que lhes despertavam suspeitas, levantando negros repuxos de terra e fumo, recheados de estilhaços, e deixando, entre o matagal, o solo esburacada pelas crateras das bombas».

Fátima Guterres não sobrevoa mas descreve num ritmo lento o seu drama e o do seu povo. Neste mergulho no inferno das vidas ceifadas, no genocídio de um povo, nas cenas de tortura, mutilação e de violação perpassa um olhar contemplativo. É um olhar feminino que se compadece, que espera apesar de todos os sinais contrários, onde o humor, o riso, o sorriso, os sinais da bondade em si e nos outros são um lampejo da humanidade que não desapareceu totalmente neste campo de ruínas. A sua memória assombrosa, meticulosa dá voz a essas vozes que desapareceram tão cedo da sinfonia do povo timorense.

Os leitores timorenses, portugueses e de outros horizontes encontrarão aqui mais do que uma narração puramente literária, uma fonte de conhecimento para compreender aquilo que aconteceu não num passado tão longínquo, mas no nosso tempo. A barbárie nunca está longe, carecemos portanto de ouvir esta voz, para percebermos que a vigília pela nossa humanidade é um dever de todos os dias.

Fr. José Luís de Almeida Monteiro, o.p.

Lyon, 23 de Outubro de 2013

 

Fotos gentilmente cedidas por João Tolentino

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