Fotos: cortesia de Afonso Corte-Real

Resumida Anotação: Timor-Leste – um olhar aos primórdios da polis

Por: Benjamim de Araújo e Corte-Real (09-set-2022)

 

  1. Coordenadas de organização social

Bem repleto em sua linguagem ritualística – nos vários idiomas locais –, a organização social ancestral timorense está assente em duas coordenadas fundamentais: fatuk no rai (rocha e solo) e uma no ahi (casa e lume). Fatuk no rai é a linha orientadora dos atos alusivos ao espaço-sede territorial, onde se instala a comunidade. Enquanto que uma no ahi é o referencial a que rebatem as relações de parentesco e afinidade dos membros dum aglomerado familiar.

Foto: cortesia de Afonso Corte-Real

Nos primórdios, terão sido as pequenas áreas geográficas de conquista tribal ou de prática de caça que, motivando um sentido de auto-defesa e de sobrevivência, se tornaram em diversos territórios, mais ou menos restritos, e se constituiram, para a respetiva comunidade, o seu fatuk no rai, seu habitat. Ali se concretiza a sedentaridade e o exercício de domínio sobre um espaço assumido como lhe sendo próprio e soberano. Aí se desenvolve efetivamente a vida em sociedade, de convivência interna e de auto-defesa contra invasões externas, resultando na constituição e reconhecimento mútuo das comunidades distintas, dispersas pela ilha. Por esse seu papel fundador de sedentaridade e de berço da prole continuadora de uma entidade própria, o fatuk no rai de cada aglomerado é assumido sagrado, o referencial constante da vida comunitária.

Segundo a crença popular, os atos e comportamentos solenes concernentes ao fatuk no rai devem conformidade com ou anuência de um ‘poder mítico’, atribuido a certo espiritual patrono. Por isso é com absoluta reverência que os anciãos locais invocam o fatuk no rai supondo-o tutelado e protegido pelo ‘senhor divinal’. Os atos benéficos são premiados com bem-aventuranças, enquanto os nocivos originam desgraças. Acredita-se que as grandes calamidades na vida de uma pessoa advêm do crasso desrespeito que essa pessoa alguma vez causou aos trámites primordiais coletivamente assumidos. Talvez, por isso, o timorense tradicional se vê destinado a manter-se fiel para com suas ‘raízes’ (valores primordiais), quer por convicção e entrega pessoal, quer por receio à praga retaliativa quando negligencia ou abandona esses valores.

Os domínios territoriais acima referidos ou coincidiam com uma delimitação natural em virtude da configuração montanhosa do país, ou eram motivados por afinidades, (etno-)linguísticas, por exemplo. Hoje em dia, a sua evocação representa uma preocupação dos anciãos da comunidade em recordar à sua prole a história desse passado que era cheio de conflitos tribais e de pactos sanguíneos de pacificação, de princípios e compromissos enunciados, através de sucessivos protagonistas ou líderes tradicionais.

No rigor da prática, fatuk no rai inspira o cidadão ante seus atos públicos, ditos ‘atos próprios do tempo diurno’ – uma forma de designar os assuntos de governação, tocantes aos interesses de todos quantos estão adstritos ao referido espaço geográfico. Por outras palavras, essa coordenada é invocada para as lides que devem decorrer nas horas ‘luminosas do dia’, versando assuntos concernentes ao interesse público e coletivo (em contraposição àquelas próprias das horas nocturnas, que dizem respeito a interesses mais privados e íntimos da família extensa). Pedra angular da vida em sociedade, o conceito fatuk no rai é omnipresente à sociedade, transcende suas vicissitudes ou circunstâncias sesonais e retém imperecível o sentido de espaço-pátrio – o habitat de soberania.

A segunda coordenada da organização social – uma no ahi – refere-se ao mais ou menos extenso circuito sanguíneo e de afinidades e que enuncia o relacionamento íntimo entre os indivíduos, e se circunscreve aos afazeres de família, denominados ‘lides da noite’, que é uma forma de designar os assuntos do sistema de parentesco e de afinidade, num regime de reciprocidade de direitos e privilégios vis-à-vis deveres e obrigações, como sucede no ato transacional de dotes, no modus operandi das alianças de pacto social – barlaque, habelun, feto-san uma-mane. São assuntos considerados próprios a abordar no período da noite, isto é, oculto ao brilho dos raios solares.

Foto: cortesia de Afonso Corte-Real

A casa sagrada ou casa tradicional timorense – uma lulik – inscreve-se no contexto de uma no ahi, nesse indesgarrável apego às origens genealógicas, de pertença, alinhamento ou adoção, ou de pactos sanguíneos, aonde o timorense vai repousar seu retroimaginário e donde atesta seu sentido referencial de identidade.

Foto: cortesia de Afonso Corte-Real

  1. Hodierna sociedade timorense

A estrutura social tradicional timorense de classes – onde figuram a chefatura tradicional, as classes intermédias e o povo simples com suas funções sócio-políticas e culturais (Cf. Luís Filipe Thomaz; País dos Belos; 2008; pág. 150-160), típica das comunidades agrárias orientais das zonas indo-pacíficas –, vem-se expondo a influências externas quando, pelos poros de sua secular atitude convivial, vem acolhendo novos elementos, sobretudo, a partir dos contactos regulares, desde o séc. XVI, com os portugueses, contacto esse com efeitos civilizacionais luso-latinos ou representativos da Europa continental de então.

Surge, então, um processo em que o seu modo oriental de forte organização agrofeudal, de aglomerações em torno do nó familiar, absorve valores ocidentais, mormente luso-latinos. Essa interação de moldes de organização sócio-política foi-se aprofundando pelos séculos, forjando mudanças etápicas, mais ou menos longas, até ao quadro atual de cidadania, num país de Estado democrático de Direito, contemporâneo com o mundo envolvente e globalizado, com índole simbiótico de traços ocidentais e de feições sócio-antropológicas orientais.

Podemos extrair essa realidade a partir dos testemunhos em obras publicadas de inúmeros escritores de renome na matéria, entre os quais, Ruy Cinatti, Pinto Corrêa, Ezequiel Eanes, Luís Filipe Thomaz, Jorge Barros Duarte, James Fox, Elizabeth Traube, David Hicks, Álvaro Fernandes, Francisco Menezes, Frédéric Durand, Tom Therik, Carlos Filipe Ximenes Belo, Artur Teodoro de Matos, Nuno Canas Mendes, Luís e Maria Gárate, e ainda muitos outros, que nos dão a compreender melhor como esta vertente antropológica da gente timor se vem ajustando e mantendo. Com o seu conteúdo humano feto-san e uma-mane, (extensão familiar definida a partir da matriz “recetor e dador de mulher”), uma lulik marca um nó importante da vida social dos timorenses, essa vida social que é cada vez mais aberta e convivial e que, nessa medida, vai relativizando sua rigidez original e, ainda nessa medida, vai enriquecendo e expandindo a noção de uma lulik para os tempos que passam e para as gerações vindoiras.

Os múltiplos sentidos de que se reveste uma lulik concretizam-se uma de cada vez ou em simultâneo, conforme o propósito do momento: (1) uma morada ou um abrigo físico, (2) um repositório material de riqueza e relíquias, (3) um símbolo de património imaterial de valores e princípios, e (4) um espaço de recoleção e (con)vivência familiar de reforço à coesão, força e orgulho do conjunto genealógico. A sua resiliência, enquanto prática e função cultural, advém do interlaço desses sentidos – estes, subsidiarizando-se e alimentando-se entre si para suprir eventuais suscetibilidades.

Foto: cortesia de Afonso Corte-Real

Qual não é a suave surpresa de reconfirmação por parte do ancião timorense quando dá conta de que mesmo a Bíblia Sagrada lhe prega semelhante testemunho – ao falar da Casa de (Jacob) Israel, de David. Para o timorense, tudo isto é revelação do carácter universal dos seus valores primordiais, pois se comprova que estão em sintonia com a vontade divina. Isto dá-lhe a perene justificação do sentido duradoiro e cosmogónico da sua uma lulik – ‘casa sagrada’. Tanto quanto sua periférica e rudimentar perceção da Santíssima Trindade da fé cristã lhe leva a reapreciar sua cosmovisão do trino-harmónico loron, fulan no fitun – ‘o sol, a lua e as estrelas’ – o ente absoluto de que tudo nasce e a que tudo se destina.

  1. Como será de hoje em diante?

Contam-se milénios, e uma pergunta se pode fazer : qual é o estado de espírito de ‘casa sagrada’ timorense, hoje no século XXI? Isto é, como se pode retratá-la nos momentos atuais?

Na nossa idade cibernética, com todo o corolário de engajamento global, uma lulik, ao invés de se apressar a conformar-se com algum novo paradigma, na medida em que novas propostas se fundem e compenetram na sociedade, particularmente, no seio das novas gerações, parece, pelo contrário, teimar sua unicidade e importância enquanto nó primordial de realização social.

Por um lado, a grande e fácil mobilidade dos cidadãos, na subsunção do globo, arrastando o desmantelamento de critérios loco-territoriais de identidade e desafiando o seu tracejamento genealógico e apego emocional às raízes, concorre para um eventual afastamento ou esfriamento relacional do timorense com a sua uma lulik. A moblidade maciça da juventude timorense pode vir a rendê-la mais suscetível a atitudes de indiferença ou, até, oblívio. No entanto, testemunha-se hoje um certo rejuvenescimento da afirmação das uma lulik, e um maior reconhecimento da cosmovisão da fatuk no rai e uma no ahi. A prova para o conceito tradicional de ‘extensa família’ dos timorenses está, pois, em curso.

Entrementes, é preciso trazer à consciência dos timorenses o facto de que uma lulik, sendo um traço importante de vínculo à terra natal e do sentir timor (a que, por vezes se atreve um ingénuo e exagerado discurso primordialista), ela não é referencial único da nossa hodierna timoridade. Ou seja, sendo um inegável pilar identitário, ela não esgota, mas sim, co-integra o critério de timoridade, por honra à evolução, à convivência intercultural e à modernidade – vetores civilizacionais irrenunciáveis aos timorenses –, justamente pelo facto de estar a viver num mundo cada vez mais aberto, interativo, convivial, miscigenante e enriquecedor.

Quando se verifica, nalguns timorenses, uma fervorosa busca e adesão às suas raízes, explica-se que é fenómeno surtido, em grande medida, pelo múltiplo sentido que uma lulik representa. O indivíduo quer, por nostalgia, estar na casa de origem, visitar e dar tributo aos guardiões das relíquias ancestrais, deseja receber presencialmente as bênçãos dos anciãos e porta-vozes da extensa família, ou aconchegar-se no abrigo e calor familiar de conforto e descanso, ou recrear-se num ponto de encontro para convívio familiar, ou ainda participar em algum evento ritualístico da extensa família, e não só.

A construção de expressão verbal diádica/ paralela – fatuk no rai, uma no ahi – na linguagem dos lia-na’in exprime simultaneamente as duas coordenadas do quadro relacional em que o indivíduo se insere, garantindo-lhe sua realização vivencial – material e espiritual, privada e pública, pessoal e comunitária.

Ei-lo que, nos tempos correntes de mudanças virtiginosas, no meio de equívocos e enigmas que lhe assaltam, ainda que por vezes se lhe desaconselha a vaidade, se lhe retrai o espírito, o timorense submete-se ao ensaio introspetivo que o consola, com a convicção da fatuk no rai, a que supõe estar umbilicado para sempre, e da uma no ahi, onde remete o coração a pulsar. É-lhe firme e clarividente que, da convergência das duas fontes de consolo e inspiração, está apto e pronto para os novos desafios.

 

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Benjamim de Araújo Corte-Real

Benjamim de Araújo e Corte-Real, doutorado em Linguística pela Macquarie University em abril de 2000. Foi Reitor da UNTL (decénio 2001-2011); é Diretor do Instituto Nacional de Linguística (INL da UNTL) desde julho de 2001, Professor Auxiliar e docente permanente nas Faculdades de Direito e da Educação, Artes e Humanidades, e ainda no Mestrado de Ensino em Língua Portuguesa.
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