Díli, 27 ago 2019 (Lusa) – O jornalista da Lusa António Sampaio, que esteve destacado em Timor-Leste durante o referendo que garantiu a independência do território da Indonésia, será condecorado com a Ordem de Timor-Leste no próximo dia 30 de agosto.

Para o jornalista, a cobertura dada pela Lusa ao referendo foi “o cimentar da presença em Timor-Leste da agência”.

“A Lusa acompanhava há muitos anos a situação de Timor e decidiu, desde esse momento, que ia ter uma presença permanente. A Lusa nunca mais saiu de Timor, desde 1999″, disse o jornalista, acrescentando que a agência tem uma delegação no país que foi inaugurada em 2002”, explicou o jornalista, por telefone, a partir de Díli.

António Sampaio, agora com 47 anos, foi um dos vários jornalistas da agência destacados para acompanhar o processo que viria a dar a independência a Timor-Leste, com o referendo de 30 de agosto de 1999, que esta semana cumpre vinte anos.

O jornalista chegara a Timor-Leste em março desse ano, meses depois da queda do ex-Presidente da Indonésia, Suharto, e semanas depois de o então chefe de Estado indonésio, o Presidente Jusuf Habibie, mostrar abertura para um referendo.

“Quando há aquele anúncio de 27 de janeiro de 1999, do Presidente Habibie, de que os timorenses poderiam fazer um referendo, isso fez acelerar as coisas”, afirmou Sampaio.

Entre as várias situações vividas pelo jornalista em Timor-Leste durante o primeiro período em que lá esteve a trabalhar, destacou o 05 de maio de 1999, data em que os então chefes de diplomacia de Portugal e da Indonésia – Jaime Gama e Ali Alatas, respetivamente – assinaram um acordo sob os auspícios do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que permitiu a realização do referendo.

“Estar em Díli no 05 de maio foi o primeiro de vários momentos importantes de poder acompanhar”, explicou, acrescentando: “Depois o ano foi um corrupio de momentos de grande excitação, de grande emoção, de grande alegria, mas marcados também por momentos de grande violência, de grandes massacres”.

Estes momentos, contou, “colocaram os jornalistas a serem obrigados, muitas vezes, a tentarem manter-se frios perante um conflito em que os mortos eram dados com nome e apelido”.

“O conflito era um conflito que nós conhecíamos bem, que a Lusa conhecia bem, mas estar a vivê-lo aqui [em Timor-Leste], com esta proximidade, num momento de grande carga emotiva, colocou desafios adicionais ao que foi uma situação que em momentos foi muito complicada”, disse o agora delegado da agência.

Para o jornalista, 1999 foi “um ano de excessos”, tendo destacado a “rapidez com que tudo aconteceu”.

“Passava-se de um momento de grande emoção e de grande alegria nas ruas para momentos de grande medo e de grande intensidade. Acho que isso é que caracterizou 1999, sendo que o culminar dessa onda de subida e descida de emoção é entre o dia 30 [de agosto, dia do referendo] e 04 de setembro”, apontou António Sampaio.

O atual delegado da Lusa em Timor-Leste reconhece que “havia sempre uma intimidação aos jornalistas”, e que estes “eram sempre rodeados, havia sempre uma ameaça latente”, mas que nunca fora intimidado ou ameaçado de forma direta.

Ainda assim, a ação das forças paramilitares pró-indonésias de Timor-Leste, apoiadas e financiadas pelos militares e soldados indonésios condicionou a ação de vários jornalistas.

“No dia 05 de setembro – seis dias depois do referendo – nós temos de sair [do Hotel Mahkota, atual Hotel Timor] há uma confusão muito grande sobre se íamos ou não ter avião (…) só tivemos voo às 19:00 e somos obrigados a embarcar em camiões militares a meio da manhã, para ir para o aeroporto de Díli. Umas horas depois soubemos que o hotel tinha sido destruído, inclusive o quarto 209, que foi a primeira redação da Lusa em Timor-Leste”, declarou António Sampaio.

Agora, vinte anos depois, o jornalista refere que “mesmo que Timor tenha, mediaticamente, desaparecido do foco da atenção em Portugal, a Lusa continua a distribuir informação sobre Timor diariamente, e eu acho que isso é algo de que a agência se deve honrar”.

Sobre a condecoração que vai receber do Estado timorense, António Sampaio diz sentir-se honrado.

“É um sinal de reconhecimento. Tanto tempo depois, o Estado timorense ainda estar a reconhecer pessoas que, à sua maneira, deram algum apoio a contar o que se estava a passar aqui”, concluiu.

António Sampaio manteve-se como correspondente e, mais tarde, como delegado da Lusa em Timor-Leste até 2004. Viria a regressar por três vezes, de forma pontual, ao país, até 2015, quando, após passagens por Genebra e Madrid, retomou o cargo de delegado da Lusa no país, que ainda hoje ocupa.

Criada em 2009, a Ordem de Timor-Leste pretende “com prestígio e dignidade, demonstrar o reconhecimento de Timor-Leste por aqueles, nacionais e estrangeiros, que na sua atividade profissional, social ou mesmo num ato espontâneo de heroicidade ou altruísmo, tenham contribuído significativamente em benefício de Timor-Leste, dos timorenses ou da humanidade”.

As condecorações vão ser entregues nas cerimónias oficiais dos 20 anos do referendo no recinto de Tasi Tolo, a leste de Díli, local onde a 20 de maio 2002 foi formalmente restaurada a independência de Timor-Leste

JYO // JPF

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