fica-se sempre com vontade de lá tornar, como se a fascinação da origem e do caminho para lá se tivesse apoderado de nós, irresistível como um destino ou subitamente despertadora como aurora que nos dá nos olhos.

Padre Manuel Antunes, sj

A estrada tem estado no centro das prioridades do governo do nosso país em termos de investimento para o desenvolvimento sócio-económico. As inúmeras estradas, auto-estradas, vias-rápidas que têm sido abertas por todo o país são consideradas infra-estruturas básicas para o progresso material. Mas a estrada também tem estado no centro das preocupações por causa das consequências nefastas e criminosas da sua utilização leviana. Os acidentes de trânsito que matam e ferem anualmente milhares de pessoas não deixam de nos fazer pensar nos caminhos e descaminhos da vida.

Na história ficaram famosas as estradas romanas. Os romanos foram grandes construtores de estradas a que chamavam vias. Ficaram célebres muitas estradas rasgadas pelos engenheiros do Império de Roma, as quais funcionavam como vias de circulação/comunicação importantes e até de coesão deste que foi um dos impérios mais vastos e duradouros da humanidade.  As vias e as pontes romanas tornaram-se uma referência da história da engenharia e da arquitectura pela forma como foram concebidas e pela qualidade com que foram construídas, de tal modo que muitas delas resistiram muitos séculos à erosão do tempo, mesmo depois da queda daquele império. Famosas ficaram algumas vias romanas, as quais devem o nome aos seus construtores, como a via Ápia, a via Cláudia e via Aurélia.

Desde os tempos imemoriais, os caminhos e as estradas têm sido associados a uma boa dose de mistérios e de ocorrências fantásticas. De facto a estrada reveste-se de um extraordinário poder simbólico. Ela é em grande medida metáfora da caminhada humana sobre a terra. A estrada pressupõe um ponto de partida, uma passagem e um ponto de chegada. Ela é sinónimo de dinamismo, de acção, de viagem, de sentido,  de idade e de volta, de progresso e retrocesso. 

Algumas superstições populares tendem a associar aos caminhos medos e fantasmas. Basta lembrar o estranho e o medonho terror da meia-noite no cruzamento dos quatro caminhos, ou das profecias atribuídas a Nostradamus que profetizavam alegadamente o alcatrão negro que atapeta as modernas estradas como sinal do luto pelas muitas mortes que ocorrem nas estradas hodiernas em decorrência da loucura das altas velocidades praticadas. 

A Sagrada Escritura e a tradição cristã valoriza extremamente a metáfora do caminho e da estrada na sua conotação positiva, como possibilidade de vida plena. O próprio Cristo cognominou-se “Caminho, Verdade e Vida”, no fundo, como estrada de sentido único para a verdade e para a vida que não acaba. Jesus Cristo é, portanto, a estrada real, a estrada directa para Deus. Recorde-se que “a estrada real” era a via que conduzia sem desvios, à capital do reino, portanto, que dava acesso directo ao rei. Donde a sua forte carga simbólica associadas ao sentido redentor da kénosis de Cristo. 

Os pregadores cristãos, como foi o caso do célebre Padre António Vieira, aludem recorrentemente ao caminho da salvação. Jesus é sempre o caminho perfeito para o céu. Mas Nossa Senhora também é vista como estrada larga para chegar a Deus na perspetiva da teologia mariana.

E na moral cristã fomos insistentemente advertidos para saber escolher entre o bom e o mau caminho. 

Há de facto em torno dos caminhos e das estradas uma significação teológico-moral que se torna pertinente de ponto de vista da simbólica pedagógica. A estrada é uma realidade simbolicamente ambivalente. É sempre possibilidade de vida e de morte, de encontro e de perdição, de medo ou de esperança. Cabe sempre à liberdade humana a sabedoria da escolha. A lição desta micro-teologia da estrada também não deixa de ser útil para a prevenção rodoviária. De facto, o que torna a estrada boa ou má é, sem dúvida, o modo mais ou menos criterioso e cuidadoso com que a utilizamos, à luz da consciência do respeito pelo outro e por nós mesmos. O mesmo acontece com a nossa vida toda. A nossa vida é um carro e uma estrada. A arte e o segredo do sucesso estão em saber bem conduzir

Foto cedida por cortesia de Fernando DC Ribeiro – Blog Chaves

 

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José Eduardo Franco

José Eduardo Franco (1969). Medina de Gouveia (pseudónimo literário principal). Historiador. Investigador-Coordenador com equiparação a Professor Catedrático da Universidade Aberta, Titular da CEG - Cátedra de Estudos Globais/CIPSH e coordenador de linhas de investigação do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Saiba mais: https://drive.google.com/file/d/1mcXKBHle2276XR6ziS9dYWvaHvlGM8cV/view?usp=sharing

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