Teolinda Gersão: encenações, de Annabela Rita, constitui-se como um livro fundamental para a hermenêutica da obra de Teolinda Gersão, uma das nossas melhores escritoras vivas, com obra absolutamente marcante no campo do romance, do conto e da diarística.

É notável este encontro entre Teolinda Gersão e Annabela Rita. Desde o seu primeiro romance, O Silêncio (1981), a escritora tem vindo a revolucionar a arte da escrita, abandonando o realismo então dominante, promovendo uma escrita de ficção sobre a ficção, onde, de certo modo, o trabalho sobre um presente intemporal substitui as três dimensões do tempo e onde o espaço é habitado, menos por uma realidade material impositiva e mais por fulgurações ou iluminações desta. Neste sentido, os textos de Teolinda Gersão, eminentemente fragmentários, dão-nos a ver a realidade por via do labirinto da construção de puzzles, nos quais cada peça e o seu todo podem ser interpretados poliedricamente pelo leitor. Deste modo, a história inicial é sempre revista e reinterpretada e a própria História desmistificada e reexaminada, dando origem a textos labirínticos formados por – diz Annabela Rita com grande acerto – por inúmeros círculos concêntricos cujas ondas semânticas se repercutem mutuamente como ecos de ecos de ecos.

Assim, nenhuma outra analista da literatura que Annabela Rita, devido à sua singular hermenêutica de integração da Literatura no todo das Artes, combinando texto com pintura, texto com música, texto historiográfico com texto mítico e com o complexo mental estético, estaria em condições de perfazer um balanço do todo da obra publicada de Teolinda Gersão, libertando-a (à obra) de uma contextualização realista e de um encarceramento histórico do presente, estatuindo-lhe um vínculo cultural. Usando a sua habitual terminologia cinematográfica, Annabela Rita perfaz diversos travellings sobre a obra da escritora, detectando continuidades e descontinuidades (não rupturas), detendo-se em algumas imagens centrais, fazendo zoom sobre elas, destacando-as como elementos semânticos fundamentais que, concatenados, perfazem uma cartografia original, isto é, uma paisagem narrativa absolutamente singular no horizonte da literatura portuguesa contemporânea.

Penetrar na centena de páginas de Teolinda Gersão: encenações é refazer a longa caminhada da autora, de O Silêncio à Cidade de Ulisses (2011), isto é, 30 anos completos de contos, de diários, de romances, perspectivada pelo olhar sapiente e longamente experimentado de Annabela Rita, que, de certo modo, refaz e perfaz, histórica e culturalmente, o “museu imaginário” cultural e crítico onde se cria e integra a obra de Teolinda Gersão.

Neste sentido, Teolinda Gersão: encenações é um ensaio deveras original, já que Annabela Rita, lendo e analisando a obra da escritora, não a transforma num “monumento” literário, fixo, cristalizado, dotado de um único sentido. Diferentemente, interpreta-a como um motor caleidoscópico, que absorve e emite sentido, relacionando-a com os diversos patamares do horizonte estético e cultural da sua época e integrando-a, em simultâneo, por via de analogias e comparações, com outros horizontes estéticos e culturais de épocas diferentes.

É, sem dúvida, um retrato original da obra de Teolinda Gersão. “Original” tem aqui um duplo significado: 1. – não é a aplicação de uma metodologia alheia, copiada e ora aplicada por Annabela Rita; 2. – com esta metodologia, Annabela Rita cria uma novíssima interpretação da obra de Teolinda Gersão, que não mais poderá deixar de ser toda em conta.

Teolinda Gersão: encenações é, assim, um ensaio literário simultaneamente cultural e historiográfico que, estamos certos, marcará indelevelmente não só o horizonte ensaístico português como se tornará determinante para uma compreensão global da obra de Teolinda Gersão.

Miguel Real,

Colares / Sintra,

1 de Março de 2020.

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