1 March 2021
À celebérrima frase socrática, “só sei que nada sei”, ajuntemos o que disse o famoso poeta inglês, Percy B. Shelley: “Quanto mais estudamos, mais descobrimos a nossa ignorância”.

“Só sei que nada sei”

Tropeçamos nestas verdades a cada momento. São fáceis de reconhecer, se tivermos a inteligência necessária e aquela percentagem indispensável de modéstia que deveríamos cultivar diariamente.

Vem isto a propósito da minha falta de paciência perante os que pretendem impor as próprias razões, assim como os que não aceitam contestações a obras e iniciativas de que são responsáveis, sobretudo quando estas são discutíveis e desprovidas de bases sólidas que as sustentem.

E quantos casos destes se nos deparam! Neste momento estou a recordar a “Declaração de Amor à Língua Portuguesa” da escritora Teolinda Gersão. Foi publicada no jornal Público, no dia 02 de Julho 2012, (salvo erro).

É um texto interessante, oportuno, objectivo e divertidíssimo. Aconselho a leitura a quem ainda o não conhece, pois é fácil encontrá-lo na Internet.

Por minha conta, já passei cópias a várias pessoas amigas, e todas aplaudiram.

Logo a seguir, no dia seis de Julho, o mesmo jornal publicou uma réplica de Maria Helena Mira Mateus: “A Propósito de um Texto de Teolinda Gersão”.

Quanto azedume, quanta agressividade… e quanta falta de estilo e elegância! A Sra. Professora jubilada da Faculdade de Letras de Lisboa, M. Helena M. Mateus, não gostou, achando ofensivo o que Teolinda Gersão escrevera, alegando que era de péssimo gosto: “o artigo tem tanto de errado como de ridículo”; que revelava amplo desconhecimento do que é o Programa de Português do Ensino Básico.

Este programa pode conter planos muito bem articulados, mas no que concerne a prática do ensino gramatical, só têm apresentado disparates e adoptado nomenclaturas – as famosas TLEBS – que semeiam confusões em quem ensina e em quem deve aprender. Todavia, a Dra. Mira Mateus evitou argumentos susceptíveis de contrastar estas anomalias. Apenas aludiu à possibilidade de erros nos “manuais de que se servem os professores”: erros ou sugestões de certos linguistas?

Por que razão a Dra. M. Helena Mateus não se referiu aos exemplos que Teolinda Gersão enumerou abundantemente? Por que não quis explicar o motivo por que, nas gramáticas hodiernas, existe o disparate do sujeito nulo onde o não é, e a que aludiu Teolinda Gersão?

Tive ocasião de verificar esse disparate no teste de uma aluna do 7.º ano, Bárbara, a quem ajudo a esclarecer as suas dúvidas.

Os pais da Joana foram para as termas. Permaneceram lá duas semanas”. O sujeito de “Permaneceram lá duas semanas” é nulo.

Nulo?!! Apontei-lhe o significado da palavra nulo; expliquei-lhe o que significa sujeito implícito,  subentendido, indefinido e quando o sujeito é verdadeiramente nulo. Divertiu-me a resposta muito rápida da Bárbara: “Pois claro que isto não tem jeito nenhum!”.

A ilustre Professora jubilada da Faculdade de Letras de Lisboa ocupou duas colunas do jornal apenas para repetir-se, numa defesa prolixa, empolada e, digamos, atabalhoada do ensino do Português actual. Porém, nada esclareceu; atacou somente. É co-autora de uma gramática (“Gramática da Língua Portuguesa”; Caminho, Colecção Universitária, série Linguística), desenvolvendo os Capítulos n.º 1, 3, 25, 26.1, 26.2: O tempo e o espaço da língua portuguesa; Dialectos e variedades do português; Fonologia; A sílaba; O acento.

Considerando que todas estas matérias explicam como nasceu e evoluiu, fonológica e lexicalmente, o português e nas quais, obviamente, a Dra. Helena Mateus é profunda conhecedora, encontra-se imensa dificuldade em justificá-la como defensora de um ensino abstruso da nossa língua e, paralelamente, apologista de um desastrado e insultuoso Acordo Ortográfico. Não me merece, portanto, a mínima credibilidade.

No dia 13/07/2012, conheceu-se a resposta de Teolinda Gersão. Sempre no jornal Público, respondeu-lhe apropriadamente, apenas numa coluna: Carta Aberta a Maria Helena”.

Efectivamente, não necessitou de escrever muito, pois foi clara, sucinta, directa. Sem eufemismos, denunciou-a como uma dos responsáveis do estado a que chegou o ensino de português e pela “passagem do ensino do português no secundário a ensino de linguística”… quando, frequentemente, desconhecem as mais elementares regras da gramática!

Vivemos há décadas no enorme equívoco de que «os linguistas é que sabem, por isso o poder é deles». (O que te deve parecer tão óbvio que nem dás conta da imensa arrogância do teu artigo). Mas é altura de o país – se assim o quiser – dizer basta. A língua não é propriedade dos linguistas. O ensino da língua também não.”

 

Por Alda M. Maia, Pensamentos vagabundos

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