Segundo o ainda Bispo de Santiago, que será elevado a cardeal no Consistório do próximo fim de semana, o mundo lusófono “está de parabéns” pela sua História, pelos seus feitos e também pelas perspetivas de futuro a nível da Igreja Católica.

Numa entrevista à agência Lusa, Arlindo Furtado, 65 anos, natural de Santa Catarina, interior da ilha de Santiago, tornado padre em 1976 e bispo em 2004, lembrou o papel evangelizador “muito grande” dos missionários portugueses e a dinâmica que se seguiu e que ainda hoje se mantém, sendo disso prova os sete cardeais lusófonos.

“É uma repercussão de toda uma História que continua com a sua dinâmica. Desde o século XVI que os portugueses tiveram um papel muito grande na evangelização, criticável num ou noutro aspeto social ou político, mas não deixaram de ser um grande meio de evangelização no mundo, incluindo o Brasil, Cabo Verde, Guiné, Angola, Moçambique, São Tomé, Macau, Timor, etc”, explicou.

De acordo com o futuro cardeal, “Portugal teve um papel importante e essa dinâmica continuou, com a sua autonomia, primeiro com a independência do Brasil, depois com as das outras colónias”.

Arlindo Furtado garantiu que tudo fará para dignificar a língua portuguesa, ainda não utilizada como idioma oficial no Vaticano, embora reconhecendo que “há meios em que, de facto, será difícil usar o Português como língua oficial”.

Fruto desse trabalho missionário português é o exemplo de Cabo Verde, onde foi criada, em 1533, a primeira e mais antiga circunscrição católica edificada no continente africano, a diocese de Santiago, com religiosos que estiveram desde o início no povoamento das ilhas, iniciado em 1462.

“Consideramos que o papa, ao nomear-me cardeal, teve em conta um bocadinho o percurso histórico da Igreja em Cabo Verde, que esteve cá desde o início, acompanhou todo o processo de povoamento das ilhas, nos momentos bons e menos bons da nossa história”, salientou.

Arlindo Furtado, que afirmou existir uma “cumplicidade com os fiéis cabo-verdianos – 95% da população é católica -, considerou que Francisco “terá reconhecido todo esse passado”, sobretudo pelo “peso e importância” que o centro de evangelização teve na relação com a costa africana e como ponto de passagem para o Brasil.

“Isto quer dizer que a Igreja interessa à comunidade cabo-verdiana. Acho que todos os cidadãos, mesmo os não católicos, têm consciência do papel da Igreja no passado, no presente e em relação ao futuro. A Igreja tem feito um trabalho muito ativo, sobretudo a partir da independência (1975)”, afirmou.

Na altura, explicou, havia muito poucos padres cabo-verdianos e a maior parte vinha do estrangeiro, salientando que, depois, fez-se um “trabalho notável”, no ambiente político, ideológico e eclesial difícil do pós-independência.

A 04 de janeiro, o papa Francisco nomeou cardeais Arlindo Furtado e Manuel Clemente, aumentando para sete as personalidades eclesiásticas lusófonas com direito de voto na escolha do líder da Igreja Católica.

Além destes, existem ainda outros 10 cardeais lusófonos que pertencem ao Colégio, sem direito de voto por terem mais de 80 anos, embora, tal como os restantes, assistam o papa nas suas decisões.

JSD // VM – Lusa/Fim

Fotos:

– Foto de arquivo datada de 25 de dezembro de 2012 de D. José Policarpo durante a Missa Solene Pontifical do Natal do Senhor na Sé Patriarcal de Lisboa, 12 de março de 2014. O ex-cardeal patriarca de Lisboa José da Cruz Policarpo morreu a 12/03/2014, em Lisboa, aos 78 anos, na sequência de um problema cardíaco. TIAGO PETINGA/LUSA

– Cidade Velha, CABO VERDE: Igreja na Cidade Velha, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. ANDRE KOSTERS/LUSA

 

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