Lisboa, 13 mai (Lusa) – O secretário-executivo da CPLP refutou hoje as críticas feitas pelo investigador português Paulo Gorjão, que, entre outras, o acusou de deixar um “legado desastroso” à sucessora, a são-tomense Maria do Carmo Silveira, considerando que tem obra feita.

Em declarações à Lusa a propósito das acusações do presidente do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS), Murade Murargy, que esteve fora de Portugal desde então, considerou-as “estranhas”, rebatendo-as quase uma a uma.

“Não o conheço pessoalmente, nunca o vi, nem nunca conversámos para que possa tirar as ilações que tirou no artigo que escreveu sobre a CPLP. Achei o artigo de um oportunismo descarado. Não sei se ele conhece a futura secretária executiva – pelas declarações que faz, parece que a conhece -, traça um perfil que ela própria deve ficar surpreendida com o que ele escreve”, afirmou Murargy.

No passado dia 05, Paulo Gorjão disse à Lusa que Murargy, que termina o mandato (2012/16) como secretário-executivo em princípio em julho, deixa “um legado desastroso do seu consulado” à sucessora, com “feridas e divisões” entre os Estados membros para as quais o diplomata moçambicano “muito contribuiu, por ação ou inação”.

O investigador do IPRIS criticou igualmente a “inabilidade política”, a tomada de posições públicas “desnecessárias e incendiárias” que revelam uma “necessidade de protagonismo”, “brandura e compreensão” em relação à violação dos Direitos Humanos sobretudo em Angola e Guiné Equatorial.

Paulo Gorjão, por fim, criticou Murargy por não ter conseguido “recolocar a Guiné-Bissau na Lusofonia” – “não foi suficientemente pro-ativo” -, e que “não tem qualquer qualificação” para mediar o conflito entre a Frelimo e a Renamo, em Moçambique.

“Não sei em que se baseia para considerar desastroso o meu legado, a que chama consulado, ou que informações tem ou se este artigo que escreveu será uma encomenda. Uma coisa é certa: quando cheguei à CPLP, fui guiado por uma firme determinação, de fazer com que a CPLP não seja instrumento de qualquer dos países membros”, disse.

“Quis fazer da CPLP uma organização internacional independente de qualquer Estado membro. Durante o meu mandato, não permiti que nenhum Estado interferisse nos trabalhos do Secretariado. Se isso não caiu bem em algumas correntes, paciência, porque a CPLP não pode ser instrumento de política externa de um país”, acrescentou.

Murargy destacou o trabalho feito em prol da reforma da organização lusófona, com destaque para a Nova Visão Estratégica, a aprovar na próxima cimeira da CPLP, prevista para julho no Brasil e que poderá ser adiada, tal como indicou hoje à Lusa.

Reivindicando ter recebido felicitações de vários chefes de Estado dos “nove” pelo trabalho que tem vindo a desenvolver, Murargy refuta as críticas sobre a atuação em relação a Angola, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Moçambique, defendendo que numas foi parte ativa do processo e noutros não tem competências para agir.

“Não é o secretário-executivo da CPLP que vai mediar o problema que se passa em Moçambique. Quando (Paulo Gorjão) diz que fui «incapaz de trazer a Guiné-Bissau para a Lusofonia», o que significa isso? A Lusofonia é um conceito que eu próprio discuto”.

“«Trazer a Guiné-Bissau para a Lusofonia»? A Guiné-Bissau está aonde? É um Estado membro da CPLP e sempre me bati para trazer a paz e estabilidade ao país”, referiu, reivindicando a reconciliação entre a CPLP e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), cuja relação estava tensa em 2012.

Sobre as críticas de “brandura e compreensão” em relação à promoção da Língua Portuguesa e às respostas às violações dos Direitos Humanos sobretudo em Angola e na Guiné Equatorial, Murargy sublinhou que a CPLP não é um ‘watchdog’ (‘cão de guarda’).

“O que andamos a fazer todos os dias? Querem que eu chegue lá para condenar Angola ou a Guiné Equatorial? Porquê? Quem pode lançar a primeira pedra em relação aos Direitos Humanos? São só Angola e a Guiné Equatorial que têm problemas? Todos os nossos países não têm problemas com os direitos humanos?”, questionou, admitindo, porém, atrasos na tomada de decisões por razões burocráticas. “Daí as reformas”, explicou.

“A CPLP não pode confinar-se apenas à Língua Portuguesa, à concertação político-diplomática, à cooperação com pequenas ações. Se é para termos Língua Portuguesa temos o IILP, se temos concertação político-diplomática temos as nossas missões permanentes em cada uma das organizações internacionais (ONU, UA, CEDEAO, UNESCO, UE)”, acrescentou.

Questionado sobre se não estará a dar demasiada importância às críticas, Murargy respondeu que não podia ficar calado perante um artigo que é público e que, ao ser publicado pela agência Lusa, acaba por chegar a todo o mundo.

 

JSD // EL

Lusa/Fim

 

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