Afinal, os santos também ficam desactualizados, não é? Já o sabíamos, mas decidi trazer São Tomé e Príncipe como exemplo. Na minha infância, San Ximon D’Azuda (São Simão de Ajudá) e Nosa Xola d’Ola (Nossa Senhora da Hora) eram veneradíssimos. Veneradíssimos. Não havia canção popular que não os invocasse com fervor, unção e devoção. (Havia, também, os que por eles clamavam como aliados dos seus rancores, ódios e ressentimentos, numa sociedade onde, desde sempre, se convocam e evocam santos e santas, crendo fortalecer, desse modo, a eficácia das mais medonhas pragas rogadas aos inimigos. Mas isto é outra história.) Sobre San Ximon D’Azuda e Nosa Xola d’Ola, o que vemos hoje? Quase sem deixar rasto, desapareceram das bocas, das mentes e dos espíritos, ficando confinados a um arco residual no qual sobressaem, sobretudo, um ou outro ancião ou anciã. E Sama Nanzalé? Sama Nanzalé (Nossa Senhora da Nazaré), padroeira da Trindade e arredores era, igualmente, veneradíssima nos lares, destinatária de preces, súplicas e promessas, incensada nas canções. Hoje, se a atenção não me atraiçoa, está essencialmente reduzida a uma dimensão paroquial (distrito de Mé-Zóchi), com direito a um tratamento mais reverencial e territorialmente mais dilatado no dia que lhe é consagrado, tal como acontece com San da Névi (Nossa Senhora das Neves) ou com San Zudon (Santo Isidoro), em Ribeira Afonso. E Santa Ana, a Grande, ku bôbô mina klagá neto (que tem ao colo a filha e a neta) também tem vindo a perder fôlego e devotos. O resto do país, sobretudo os VIPs da capital vão lá como zuxis e fixalis, pelo meio comes e bebes e umas orações. A propósito, alguém ainda se lembra de San Lajigati (Nossa Senhora do Resgate) e de Santo Benedito, o único santo negro, segundo o povo? Da San Men Dêsu, também chamada Samadêsu, (Senhora Mãe de Deus)? Entretanto, recém-oriunda de terras gaulesas, robustece, no Bairro do Hospital, a Senhora de Lourdes, num belo templo ao qual acorrem, reverentes, fiéis de diversas proveniências. E, directamente de Luanda para o Bairro Militar, a Senhora da Muxima instalou-se, atraindo fiéis e mais fiéis, os quais se referem a esta santa, até há alguns anos estranha ou, pelo menos, algo longínqua, como se ela sempre cá tivesse morado. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam as tradições, os símbolos e as manifestações de religiosidade. Não foram apenas o Nhamunhango e o esmagamento de Judas que deixaram de ser rituais sagrados da Páscoa nas ilhas, valha-nos Deus. Entretanto, de pedra e cal, permanecem São Tomé, O Poderoso, (San Tomé Plodôzo), Santo António (Sant’ Antoni), Nossa Senhora do Bom Despacho (San Bom Dispachu) e Nossa Senhora da Conceição (San da Kuensón). Não há nenhum sinal de que a fé nesse vigorosíssimo quarteto venha a sofrer algum abalo, erosão ou diminuição num horizonte à vista. Mas se os católicos, apesar de estarem já abaixo dos 50% (contra mais de 85% em 1975) podem ainda ser considerados a religião dominante, é porque constituem um bloco, enquanto as neopentecostais estão divididas. Vamos a ver.

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Conceição Lima

Conceição Lima nasceu em Santana, na ilha de São Tomé, São Tomé e Príncipe, a 8 de Dezembro de 1961. Jornalista, poetisa e cronista. Foi durante longos anos jornalista e produtora dos Serviços em Língua Portuguesa da BBC, em Londres. É licenciada em Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros pelo King's College of London e possui o grau de Mestre em Estudos Africanos, com especialização em Governos e Políticas na África subsaariana, pela School of Oriental and African Studies, SOAS, Londres. Pela Editorial Caminho, de Lisboa, publicou O Útero da Casa (2004), A Dolorosa Raiz do Micondó (1ª edição 2006, 2ª edição 2008) e O País de Akendenguê (2011). Em 2015, em edição de autor, publicou Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico. Está traduzida para o alemão, árabe, checo, espanhol, francês, galego, inglês, italiano, servo-croata e turco.

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