Gerhard Seibert, analista ligado ao Centro de Estudos Africanos (CEA) do ISCTE, disse à Lusa desconhecer “passos concretos” no sentido de uma troca de Taiwan pela República Popular da China, recentemente falada no arquipélago a propósito de ligações chinesas do MPSTP-PSD.

“Mas, como em São Tomé e Príncipe estão sempre à procura de financiamentos, não sei. É possível que numa certa conjuntura eles possam mudar de parceiros. Mas acho que isso, por enquanto, não está a acontecer”, disse à Lusa.

Seibert sublinha que a cooperação taiwanesa tem dado frutos no arquipélago, sendo emblemático o projeto que permitiu praticamente erradicar a malária, e que o montante disponibilizado por Taiwan para investimentos públicos está “muito à frente” de países europeus, apenas ultrapassado por Nigéria e Angola.

“Enquanto os taiwaneses puderem garantir este fluxo de ajudas, São Tomé e Príncipe não sentirá necessidade de mudar de parceiro”, diz Seibert.

A China estabeleceu relações diplomáticas com São Tomé e Príncipe logo depois da independência, em julho de 1975.

Mas a 06 de maio de 1997, o presidente Miguel Trovoada anunciou o estabelecimento de relações com Taiwan.

“Embora esta ação tenha suscitado fortes repercussões em São Tomé e Príncipe e oposição do Governo, dos principais partidos políticos e personalidades de vários círculos, as autoridades de topo recusaram-se a corrigir a decisão errada”, relata a página do Ministério das Relações Exteriores da China.

As relações foram suspensas no próprio dia, os acordos de cooperação foram cancelados e foi retirado o “staff” da embaixada, bem como engenheiros e pessoal médico cooperante.

Dessa época, resta uma dívida de 17 milhões de dólares à China, além do Palácio dos Congressos, “um dos maiores projetos da época pós-colonial”, afirma Seibert.

A cooperação bilateral entre os dois Estados incluía o envio semestral de um navio de grande porte com todo o tipo de mercadoria, incluindo géneros alimentícios e materiais de construção civil.

Os chineses deixaram para trás o emblemático edifício onde funcionou a embaixada e as instalações de uma empresa de construção civil denominada Covec, sendo os interesses de Pequim no arquipélago assegurados atualmente pela missão diplomática portuguesa.

Após a compra da Addax, em 2009, a petrolífera estatal chinesa Sinopec passou a ser acionista de quatro blocos na zona de desenvolvimento conjunto petrolífero com a Nigéria (JDZ).

Contudo, em 2012 a Sinopec e a subsidiária Addax, juntamente com outras participando nos blocos 2, 3 e 4, abandonaram a JDZ, devido a resultados insatisfatórios na pesquisa.

Mantêm apenas uma participação no bloco 1, que foi perfurado em 2012 pela operadora Total, aguardando-se a divulgação dos resultados.

No início de 2012, chegou a ser noticiada no arquipélago, e posteriormente desmentida, a presença de uma delegação são-tomense no Fórum Macau, polo de interação económica entre a China e a lusofonia, onde é o único dos “8” não representado.

Quase dois anos depois de eleito, Manuel Pinto da Costa ainda não se encontrou com o Governo de Taiwan, que o seu antecessor Fradique de Menezes frequentemente visitava.

“É bem possível que ele ande com estas ideias [de ligação à China] porque o partido dele, MLSTP, nunca cortou com o partido comunista chinês (PCC). Até houve um congresso do MLSTP onde estiveram representantes de Taiwan ao lado dos do PCC”, afirma Seibert.

 

PDF / MYB // MLL – Lusa/Fim

Foto: Miguel Trovoada, 29 de julho  de2001, São Tomé e Príncipe. EPA PHOTO AFPI/DESIREY MINKOH/dm-vl-ms

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