Brasília, 03 jul (Lusa) – Ricardo Araújo Pereira conquistou o público da 14.ª Festa Internacional Literária de Paraty (Flip), que terminou hoje, ao superar expectativas com o seu humor “sofisticado” e ao quebrar preconceitos, destacou a editora do humorista português.

“Este português é extraordinário, é tão sofisticado”, ouviu, várias vezes, a responsável da Tinta-da-China, Bárbara Bulhosa, que, pela primeira vez em cinco anos de participação na Flip, viu todo o público de uma mesa a aplaudir de pé no final de uma discussão.

A editora confessou à agência Lusa que desde 2012 tinha a ambição de trazer Ricardo Araújo Pereira, o primeiro autor que publicou no Brasil, à Flip, mas considerava que tal não seria fácil, porque normalmente uma “estrela de televisão” tem associado a si o estigma de que “não pode ser uma pessoa com uma cultura acima da média”.

Porém, vincou, o humorista consegue ser “muito popular” e chegar às pessoas “com menos instrução” e, simultaneamente, obter “o reconhecimento dos maiores intelectuais”.

Na conversa em que o português participou, juntamente com Tati Bernardi, autora do livro “Depois a Louca Sou Eu”, e com a moderação de Gregório Duvivier, humorista da “Porta dos Fundos”, “falou-se de temas muito sérios em relação ao humor” numa discussão “muito intelectualizada, mas com muitas piadas”, descreveu.

Falando num sonho concretizado como editora, Bárbara Bulhosa acrescentou que todos os livros do português esgotaram na Flip.

Porém, Ricardo Araújo Pereira não terminou a tempo o livro que iria lançar no evento, “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar – Uma Espécie de Manual de Escrita Humorística”, editado pela Tinta-da-China Brasil, e que, segundo a nova previsão, será lançado no Brasil em setembro.

O argumentista, cronista e comentador também deu uma aula sobre Shakespeare e participou na mesa final, em que cada autor leu um excerto de uma obra escolhida por si.

O evento, que começou na quarta-feira e terminou hoje, foi também produtivo para a Tinta-da-China, que atualmente já é uma editora facilmente reconhecida no Brasil, o que surpreendeu Bárbara Bulhosa.

Para a portuguesa, o facto de a Tinta-da-China Brasil ter iniciado recentemente o lançamento da coleção “Grandes Escritores Portugueses”, com livros como “Breviário do Brasil”, de Agustina Bessa-Luís, no país teve impacto na forma com o público olha para a empresa, com mais interesse.

No “melhor festival literário” em que participou, a diretora executiva da Tinta-da-China lamentou, no entanto, algumas manifestações políticas, num momento em que o país vive “um clima de crispação brutal”, devido ao processo de destituição da Presidente com mandato suspenso, Dilma Rousseff.

A cerimónia final ficou marcada por um episódio, em que foi projetada no palco a mensagem “Fora, Temer”, numa referência ao Presidente interino, Michel Temer.

Em várias discussões foram proferidas as palavras “Fora, Temer”, recebendo aplausos e vaias, numa altura em que os profissionais da cultura têm mostrado grande descontentamento desde a tomada de posse do governo interino, a 12 de maio.

Quanto aos efeitos da crise económica brasileira na Flip, Bárbara Bulhosa respondeu que na edição do ano passado sentiu que “estava tudo mais deprimido”.

Bárbara Bulhosa realçou ainda a “variedade e qualidade em todo o tipo de mesas” do evento, que reuniu cerca de quatro dezenas de convidados.

A edição deste ano prestou homenagem à poetisa brasileira Ana Cristina Cesar (1952-83), Ana C., como assinou, e contou com, entre outras, a presença da escritora bielorrussa Svetlana Alexievitch, Nobel da Literatura 2015.

Esta segunda-feira, Ricardo Araújo Pereira participará ainda na Flupp, a Flip das favelas, no Rio de Janeiro.

ANYN // EL – Lusa/Fim
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