Macau, China, 12 mai (Lusa) – Em 1965, poder entrar na licenciatura de português de uma universidade chinesa foi “uma rara oportunidade” para Li Changsen, que, ao contrário de muitos, nunca abandonou os estudos, mesmo quando um ano depois irrompeu o caos da Revolução Cultural.

Li Changsen entrou no Instituto da Radiodifusão de Pequim (atual Universidade de Comunicação da China) num ano em que abriram duas turmas, cada uma com 20 alunos, uma dedicada ao Português de Portugal e outra ao Português do Brasil. Li frequentou a segunda.

Com a chegada da Grande Revolução Cultural Proletária em 1966 “toda a ordem pedagógica deixou de existir. Tudo dependia, de facto, de cada turma, da vontade dos alunos. Era a anarquia”, disse Li Changsen à agência Lusa, a propósito da passagem dos 50 anos do início do movimento político e social desencadeado por Mao Zedong para consolidar o seu poder.

Metade dos 40 alunos das turmas de português desistiu dos estudos para se dedicar ao movimento revolucionário, mas os outros decidiram não desperdiçar a oportunidade de terem conseguido entrar na universidade.

“Por isso, apesar do caos em todo o país e também dentro do instituto, eu e outros continuámos”, conta Li, recordando as vezes que foi ao hotel da professora Rosália “só para aprender mais umas palavras, conversar, praticar a língua”, em conturbados tempos em que os materiais didáticos não passavam de uma miragem.

O Instituto da Radiodifusão de Pequim – o primeiro estabelecimento de ensino superior da China a abrir, em 1960, um curso curricular de língua portuguesa – ministrava 23 línguas, sobretudo as do chamado ‘terceiro mundo’, incluindo a portuguesa e as faladas em territórios africanos, em linha com a teoria de Mao Zedong de apoiar países e povos que combatiam o imperialismo e o colonialismo e lutavam pela independência.

A Revolução Cultural paralisou todo o ensino na China. No caso dos cursos de Português, as novas admissões foram suspensas durante sete anos, até ser colocada em marcha uma nova política que veio facilitar a entrada de camponeses, operários e soldados e resgatou os “bem-comportados” que haviam sido enviados para o campo, independentemente do diploma do ensino secundário.

Em 1969, “apesar de toda a turma ter sido transferida da cidade para o campo”, Li continuava a estudar, mas apenas de manhã, “porque à tarde ia para a lavoura”.

Foram oito meses a aprender o “espírito revolucionário dos camponeses”, num templo antigo e abandonado transformado em sala de aula.

No ano seguinte, foi “felizmente” escolhido para trabalhar na Rádio Pequim – hoje Rádio Internacional da China –, na secção de língua portuguesa, onde fez carreira durante mais de duas décadas, como intérprete/tradutor e jornalista. Outros continuaram a receber “reeducação ideológica”.

Em 1973, ainda corria a Revolução Cultural, Li partiu para África, onde teve o primeiro contacto real com falantes de português. Foi designado pelo governo chinês para trabalhar em dois centros de treino militar, no sul da Tanzânia, para onde eram enviados guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), trabalhando como intérprete durante quase dois anos.

O primeiro país lusófono que pisou foi a Guiné-Bissau, em 1983, novamente requisitado pelo governo chinês, no quadro de um acordo de cooperação económica em que a China se comprometeu a desenvolver projetos para apoiar o país. Ficou pouco mais de um ano.

Já como jornalista teve um dos pontos altos da carreira em 1987, quando testemunhou a assinatura da Declaração Conjunta sino-portuguesa. Foi para Macau que foi destacado, de seguida, para colaborar no processo de transição, em particular na tradução jurídica e nunca mais deixou o território.

A Grande Revolução Cultural Proletária, que agitou a China entre maio de 1966 até à morte de Mao Zedong 10 anos depois, pretendeu purgar a República Popular da “infiltração de elementos burgueses” nas estruturas do governo e da sociedade.

Por todo o país, os Guardas Vermelhos, na larga maioria grupos de adolescentes e jovens sempre acompanhados pelo “livro vermelho” com os ensinamentos de Mao, ocuparam todas as estruturas da sociedade para impor o novo modelo, enquanto milhões de estudantes e intelectuais foram enviados para os campos para “reeducação” pelo trabalho.

Milhões de pessoas sofreram humilhação pública, prisão arbitrária, tortura, confiscação de bens. A tradição cultural milenar foi renegada, museus, monumentos e livros foram destruídos.

Estimativas colocam em 750.000 mortos o resultado da violência da Revolução Cultural.

DM // JMR – Lusa/Fim
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