Há que regressar aos Séculos XVI e XVII, à crescente consolidação das línguas nacionais e à expansão e criação do império marítimo português.

Com efeito, a par de uma estratégia delineada pela dinastia de Aviz no seio da qual a língua portuguesa começa a definir-se com carácter institucional e a par da expansão, e por interesses comerciais, mas também sob mandato de Respublica Christiana, ao lado do marinheiro-soldado, do mercador, também enviámos para África, Ásia e América do Sul o missionário com o catecismo, a cartilha e a gramática.

Criaram-se, assim, formas de comunicação, traduzindo vocábulos em ambas direcções, inclusive absorvendo mais tarde no nosso léxico e fazendo absorver nas línguas locais dos potentados com os quais foram encetadas relações (por vezes, de mútuo reconhecimento e outras de dominação), boa parte do vocabulário relacionado com sensações, sentidos, estética, cores, anatomia, produtos de comércio e geografia.

Poder-se-ia dizer que se foi estabelecendo um linguajar mesclado de vocábulos portugueses e locais, desenvolvendo-se rapidamente uma língua franca de mercadejo com caracter absolutamente regional e costeiro, que se tornou cúmplice da nossa universalidade. Demos e absorvemos palavras e expressões de uma variedade significativa de línguas e dialectos locais, desde os de origem africana ao japonês, passando pelo português, língua oficial e materna no Brasil desde os tempos coloniais e com suas variantes internas, e mais tarde pelo papiamento de Curaçau, Aruba e Bonaire, o saramacano de Suriname, os crioulos de Cabo Verde, Guiné, Casamansa, S.Tomé (no dialecto forro) e os papiás cristam de Malaca, do Ceilão, o tetum de Timor, os crioulos malaio-portugueses de Java e Singapura e as variantes locais em Macau e na Índia (os crioulos indo-portugueses de Goa, Damão e Diu). Desenvolveu-se assim uma diversidade dialectal, hoje afastada da língua de origem, mas que acabou por disseminar ao longo do nosso percurso marítimo, vocábulos ainda hoje persistentes, embora mais ténues nalguns casos e/ou noutros completamente desaparecidos.

Ilustração Hafaell | 08/08/2014
Cristianismo na África: portugueses confundiram a Etiópia com um reino lendário no século 16 (Ilustração Hafaell | 08/08/2014)

O português surge, nessa época, como língua da corte e de comunicação internacional de alguns potentados africanos e do oriente, tal como sucedeu no Benim, no Congo, na Etiópia. Boa parte dos tratados firmados entre Portugal e esses potentados como o Congo e o Japão, foram redigidos em vernacular. O tradutor-intérprete assumiu, a partir sobretudo do Século XVI, um estatuto incontornável.

Uma política da língua portuguesa começa também a definir-se a partir dos primeiros avanços da expansão. O português chega a ser introduzido localmente, inclusive de uma forma personalizada. A par disso, redigem-se os primeiros glossários. Na narrativa da primeira viagem de Vasco da Gama existe um glossário que poderá ter sido a primeira tentativa de tradução de uma língua local do Malabar para português e que se afigura provavelmente como um dos primeiros sinais de transmissão e comunicação linguística entre o ocidente e o oriente. Introduzem-se igualmente as gramáticas e cartilhas para ler. Ler o artigo completo

Francisco Duarte Azevedo
Consul Geral de Portugal em Newark, NJ

 

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