Lisboa, 08 mar (Lusa) – Quase 11.000 moçambicanos estão concentrados num campo de refugiados improvisado em Kapise (sudoeste do Malauí) para fugir aos confrontos militares no centro-oeste de Moçambique, disse hoje à agência Lusa a responsável pelo local de acolhimento.

Contactada telefonicamente pela Lusa a partir de Lisboa, Monique Ekoko disse desde Kapise, a apenas seis quilómetros da fronteira com Moçambique, que, até segunda-feira, foi possível registar 8.776 moçambicanos, estimando que estarão a aguardar idêntico procedimento cerca de 2.250 outros.

“Até ontem (segunda-feira) registámos 8.776 moçambicanos que estão a pedir asilo. Alegam que têm estado a ser perseguidos pelas tropas governamentais (moçambicanas na província de Tete), que as suas casas têm estado a ser queimadas e que essas forças os acusam de albergarem soldados da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana, oposição)”, explicou Monique Ekoko.

Segundo a responsável pelo centro de acolhimento, que indicou não haver cidadãos de outras nacionalidades, essas informações têm sido comuns aos moçambicanos que estão a chegar a Kapise desde Tete, atravessando a fronteira aleatoriamente sem passar pelos postos fronteiriços oficiais.

“Começaram a chegar em pequenos grupos em junho de 2015. Em dezembro de 2015, o número subiu drasticamente. Desde então que têm chegado cerca de 300 moçambicanos por semana, especialmente desde o final de fevereiro”, disse.

Em causa está a crise política e militar entre o Governo moçambicano, de Filipe Nyusi, e a Renamo, liderada por Afonso Dhlakama, com o partido da oposição a reivindicar a vitória nas eleições gerais de 2014 em seis províncias do país, incluindo Tete.

As últimas semanas têm sido marcadas por acusações mútuas de ataques armados, raptos e assassínios por razões políticas e também por emboscadas a viaturas civis atribuídas à Renamo na província de Sofala.

“Estão a chegar com as suas bagagens, com tudo o que têm, alguns deles até com utensílios de cozinha, uma vez que foram das poucas coisas que conseguiram tirar das casas destruídas e queimadas. As forças governamentais estão a considerá-los como apoiantes da Renamo. Pelo menos é o que eles nos têm dito. Mas ainda não conseguimos confirmar nada disto”, insistiu à Lusa Monique Ekoko.

A responsável pelo centro de acolhimento indicou que as autoridades locais disponibilizaram um terreno para os abrigar nesta fase, havendo já o compromisso de Lilongwe para encontrar um local com maiores e melhores condições.

A 01 deste mês, o governador de Tete, Paulo Auade, negou a existência de refugiados moçambicanos no Malauí, defendendo que a maioria das pessoas que estão em Kapise são cidadãos malauianos que, por causa da seca, “se fazem de deslocados”.

No entanto, Auade acabou por ser desmentido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação moçambicano, Oldemiro Baloi, que, dois dias depois no parlamento, confirmou a existência de moçambicanos a precisar de assistência no Malauí e que a prioridade do Governo de Moçambique é garantir assistência humanitária, embora sem admitir que se trata de refugiados.

“Para se ter o estatuto de refugiado, não é automático. A atribuição dessa categoria subordina-se a requisitos, que incluem ser requerente de asilo, mas, independentemente disso, a componente humanitária sobrepõe-se a essa questão”, frisou Baloi.

JSD // VM – Lusa/Fim
Uma mulher transporta vasilhas com água em cima do seu burro em Guijá, na Província de Gaza, Moçambique, 01 de março de 2016. A província de Gaza encontra-se presentemente numa situação de seca. ANTÓNIO SILVA/LUSA

Uma mulher transporta vasilhas com água em cima do seu burro em Guijá, na Província de Gaza, Moçambique, 01 de março de 2016. A província de Gaza encontra-se presentemente numa situação de seca. ANTÓNIO SILVA/LUSA

Partilhar