O Presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, durante uma entrevista à agência Lusa, em Lisboa, 02 de novembro de 2022. JOÃO RELVAS/LUSA

Lisboa, 03 nov 2022 (Lusa) – O Presidente timorense disse hoje esperar que Timor-Leste e a Austrália cheguem a acordo sobre o campo de hidrocarbonetos conjunto, Greater Sunrise, em 2023, esperando que a produção comece no prazo máximo de oito anos.

“Acredito que vamos ter uma solução em 2023”, afirmou à Lusa José Ramos-Horta, que está de visita a Portugal esta semana. Depois do acordo assinado entre os dois países, “leva-se normalmente cinco a sete anos para começar a produção comercial”, muito “tempo antes do chamado abismo fiscal”.

Em causa está a possibilidade do fundo petrolífero de Timor-Leste ficar esgotado, com os peritos a apontarem para 2034, colocando em causa o financiamento do Orçamento de Estado.

Ramos-Horta mostrou-se confiante de que “o gasoduto virá para Timor-Leste porque os estudos já foram feitos e os argumentos apresentados” e a Austrália tem outros campos petrolíferos relevantes pelo que será do interesse de Camberra partilhar a gestão desta zona.

Admitindo que a negociação com os trabalhistas, agora no poder em Camberra, é “mais fácil”, Ramos-Horta salientou o “interesse estratégico” do país vizinho em “apoiar esta iniciativa do pipeline para Timor-Leste porque a Austrália já tem muito gás no oeste australiano” e esta solução permitia que os dois países, mais a Indonésia (com um campo na zona), seja os “grandes ‘players’ dos recursos energéticos da região”.

Localizado a 150 quilómetros de Timor-Leste e a 450 quilómetros de Darwin, o projeto tem estado envolto num impasse, com Díli a defender a construção de um gasoduto para o sul do país e a Woodside, segunda maior parceira do consórcio, a defender a ligação à unidade já existente em Darwin.

Nos últimos meses têm-se intensificado os contactos entre as partes, com o tratado de 2019 que definiu as fronteiras marítimas entre os dois países a prever a assinatura de um contrato de partilha de produção, além de outros quadros técnicos.

Sobre a gestão das receitas do fundo petrolífero, Ramos-Horta elogiou as opções dos sucessivos governos em investir em instrumentos financeiros, mas também em retirar verbas para projetos estruturais do país, uma decisão criticada por alguns “mais românticos e mais líricos” defensores da inviolabilidade dessas verbas.

“Como se pode poupar para o futuro? Há duas formas, um é fazer como o Salazar, não investir no país, não investir na educação, não ter dívidas, ter muitas reserva de ouro” e a outra é “investir para o futuro, fazendo obras hoje para dotar o país de infraestruturas”, exemplificou Ramos-Horta.

“Como não é o Japão, não é Portugal, não é a Austrália que nos vão fazer as estradas que precisamos, as pontes que precisamos, a eletrificação, fizemos nós com o fundo petrolífero”, justificou o Presidente timorense.

Por outro lado, os investimentos do fundo petrolífero em fundos do Tesouro norte-americano e noutras áreas permitiram receitas de sete mil milhões de euros.

“Eu defendo, por exemplo, que Timor-Leste deveria investir em imóveis”, mas o mais importante é “investir bem”: “temos biliões de dólares que não podemos gastar à toa”, sublinhou o chefe de Estado.

PJA // EJ – Lusa/Fim

Partilhar