Em 2008 comemoraram-se duas efemérides ligadas à vida de dois portugueses, os padres Tomás Pereira, que viveu na China e foi astrónomo e músico e de quem se comemoraram, entre Lisboa e Pequim, os 300 anos do seu nascimento, e António Vieira, cujas comemorações dos 400 anos do seu nascimento se prolongam, a pedido do Brasil, até meados de 2009, ano em que possivelmente será publicado na Europa o livro Tien Wen Lueh, Tratado de Questões sobre os Céus, que o padre Manuel Dias publicou em 1615 na China, sobre as descobertas realizadas por Galileu, cinco anos antes, graças às observações com telescópios. 
Esta capacidade de revelar outros mundos tem sido transportada através dos tempos pelo espírito da língua portuguesa, fazendo com que as teias criadas a partir das relações, centradas na cultura e no conhecimento, perdurem ao longo dos séculos. Num mundo dominado pelos conflitos entre as diferentes culturas e religiões e pela incapacidade de nos pormos no lugar do outro, onde é cada vez mais difícil fomentar ou incentivar o diálogo, é fundamental criar espaços onde possamos juntar na mesma mesa gente das diferentes culturas e religiões, onde possamos falar sobre o estado do mundo e as múltiplas formas de inventar os futuros possíveis. Ter condições para criar este espaço ou estes espaços de diálogo e troca será necessariamente uma vantagem estratégica no contexto internacional. 
A língua portuguesa, com os seus 230 milhões de falantes e com as diferentes culturas e olhares que transporta, pode ter condições privilegiadas para albergar um desses espaços. Uma língua que, sendo ao nível europeu a terceira mais falada no mundo, é, naturalmente, um instrumento privilegiado na assumpção, por parte de Portugal, de um papel activo na construção de uma Europa das Línguas e das Culturas, na construção de uma identidade europeia capaz de se afirmar no contexto mundial. 

Carlos Fragateiro

 

FONTE: Cultura e Conhecimento

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