27 February 2021
Portugal está entre os dez maiores mercados da revista de culto que pensa no global mas que age localmente e veio a Lisboa conhecer os seus leitores. Na Monocle não há celebridades, mas há Rui Moreira e fábricas portuguesas.

Portugal está no top dez dos leitores da Monocle

A revista que se apresenta como um “briefing sobre assuntos mundiais, negócios, cultura e design” mas que, na verdade, é uma espécie de bíblia do cool com um toque solene e bom design organizou na segunda-feira o primeiro evento Monocle em Lisboa.

E a equipa da publicação britânica passou 24 horas na capital portuguesa muito porque, de repente, Portugal está no top ten de leitores da Monocle – em 2013, o país tornou-se o nono maior mercado da revista britânica. Aqui, à beira do abismo atlântico, arrisca Tyler Brûlé, o director que não rejeita o título de guru, temos uma perspectiva do mundo que condiz com a da revista.

Nunca tinham feito um evento em Portugal (só em 2013 fizeram 67 ) e os números que põem o país muitos lugares acima de países como Espanha na lista da Monocle decidiram. Também a “pequena Nova Zelândia”, exemplifica Brûlé ao PÚBLICO, é um dos mais importantes mercados da revista, e “acho que há algo no facto de se ser um pouco remoto e deslocado”, periférico, que faz com que a publicação “reverbere nas pessoas que não são o centro do mundo” (“E é claro que Londres e Nova Iorque são as nossas maiores cidades e acham que são o centro do universo”, ri-se).

“Tem muito que ver com a capacidade de olhar para dentro e para fora. Quando se está sentado no limite do Atlântico, as forças da natureza a soprar por aqui adentro, sinto sempre que o Recife é já ali, que Maputo… sentimo-nos ligados a mais qualquer coisa aqui.”

Foram entrevistas atrás de entrevistas e pedidos insistentes por convites para a noite em que, sob chuva e granizo, cerca de 80 leitores e ainda colaboradores e “apoiantes”, como descreve a própria revista, iriam conhecer 12 dos principais responsáveis da publicação que sai dez vezes por ano e pela qual se navega como por um aeroporto moderno. Muitas revistas são habitadas por pistas ou histórias nascidas destes eventos. “É a boa e velha forma de pesquisar notícias.” Ausente das redes sociais e pouco interessado em tweets ou likes, Brûlé sorri para os seus anéis prateados. “No mundo dos media estão sempre a perguntar-nos ‘quem é o vosso leitor?’. E eu posso dizer-lhes que sei quem são os nossos leitores de Lisboa. Ou querem os de Hong Kong? É que eu conheci-os.”

Com uma circulação de 75.575 exemplares em todo o mundo e 18 mil assinantes, a Monocle tem sete anos de vida e já não é só uma revista. É uma estação de rádio, dois cafés, oito lojas, dois jornais semestrais, um livro que é um “guia para viver melhor” e prepara-se para ser, em 2014, uma conferência em St. Moritz, um novo livro e mais lojas e redacções em cidades-chave como Banguecoque, Tóquio e Istambul. A extensão da marca, diz Brûlé, não perde nunca de vista “o que somos afinal – uma revista”.

O estatuto da Monocle foi congeminado na esteira do percurso profissional de Brûlé, repórter ferido no Afeganistão aos 26 anos, apaixonado pela aviação e fundador da igualmente influenteWallpaper* e da agência de publicidade e design Winkreative – a sua relação com a publicidade, bem como a própria extensão da marca Monocle noutros produtos ou pelos encartes promocionais que acompanham a revista já lhe mereceu críticas no sector.

Como se posiciona a publicação no mercado? “Temos uma visão específica do mundo e ligeiramente lateral. Uma abordagem muito optimista do mundo”, reconhece sobre um dos diferendos nos média actuais, o do culto das “boas notícias” vs. jornalismo generalista. “Quando se pega na Monocle encontram-se verdades duras, mas se podemos ser cépticos, nunca somos cínicos, e acho que isso é um alívio para as pessoas”, diz, argumentando que “é muito mais difícil ser magnânimo e encontrar o elogio em alguma coisa”.

Brûle sabe que nem todos gostam do estilo Monocle, mas encontra nichos da Escandinávia à Ásia. Pensando para um mundo global, mas agindo localmente através de uma equipa fixa de 70 pessoas e colaboradores em diferentes cidades, produzem números como aquele que, em 2012, se centrou na lusofonia e que contava histórias portuguesas, moçambicanas, brasileiras ou angolanas e cujo sucesso foi tal que Londres teve de mandar por avião mais e mais exemplares para responder à procura. Ou como as histórias da edição de Abril sobre o renascer do têxtil português ou o perfil do novo autarca do Porto, Rui Moreira, um dos motivos pelos quais estiveram em Portugal.

Fonte. Público

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