“Nos últimos anos, devido ao desenvolvimento que a sociedade de Macau vem tendo (…), e dado que serve de plataforma de intercâmbio entre a China e os países de língua portuguesa, verificam-se estreitas relações (…) no domínio da economia, comércio e cultura, tem havido um aumento gradual na procura de quadros qualificados de português”, salientou Sou Chio Fai, coordenador do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior de Macau (GAES).

Sou Chio Fai recordou que o chefe do Executivo disse, recentemente, que Macau se devia desenvolver para servir de plataforma para a lusofonia e que “a região era um lugar adequado para a formação dos quadros profissionais de português”, cinco séculos depois de Jorge Álvares ter desembarcado numa ilha chinesa, em 1513.

O Governo apoia as instituições de ensino superior locais no reforço e na promoção da cooperação com outras dos países de língua portuguesa, “designadamente na intensificação da formação de quadros bilingues qualificados, nas áreas do Direito, Economia e Comércio”, acrescentou.

Já o presidente da Fundação Rui Cunha considera que no bilinguismo há muito para fazer e que “não é algo que se possa fazer de um momento para o outro”.

“É preciso tempo, mais escolas que facilitem o ensino das duas línguas [português e chinês]”, afirmou Rui Cunha, sugerindo a utilização da televisão para esse fim.

“Tanto é necessário que os chineses aprendam o português, como os portugueses que aprendam o chinês, para podermos ter, daqui a tempos, um balanço muito bom de pessoas bilingues”, resumiu o advogado.

O diretor do Instituto Português do Oriente (IPOR), João Laurentino Neves, considerou que para a “promoção do bilinguismo efetivo por parte dos cidadãos, é também essencial, no que à língua portuguesa diz respeito, que sejam assegurados os mecanismos que permitam a sua efetiva utilização e circulação, sobretudo na relação do cidadão com as instituições”.

Atualmente o número de alunos a aprender a língua portuguesa no IPOR ascende a 1.600 formandos.

“Trata-se de um número que confirma a tendência crescente (…) e é particularmente relevante o facto de esse crescimento se registar tanto ao nível dos alunos nos cursos gerais, (…) como ao nível dos cursos específicos, resultado da aposta das entidades (sobretudo públicas) na formação linguística dos seus quadros, no que à língua portuguesa diz respeito”, disse João Laurentino Neves.

O mesmo responsável não vê como “negativo, nem limitativo, que o potencial dos negócios constitua hoje um forte impulsionador da aprendizagem do português na China e em Macau em particular”.

Pelo contrário, defende que “a associação da rota da língua à dos negócios constitui um desígnio para a afirmação internacional da língua portuguesa pelo que importa conferir-lhe toda a importância e todo o apoio, até porque aquilo que genericamente designamos por negócios movimenta um conjunto de dimensões estrategicamente decisivas – pessoas, saberes, ciências, técnicas e tecnologias, ordenamentos jurídicos e plataformas de comunicação”.

Em Macau, o português tem um papel relevante do ponto de vista institucional, visto ser um das duas línguas oficiais e usada no edifício jurídico, destacou, por seu turno, o diretor do recém-criado Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau, Carlos André.

“Não sou pessimista: o facto de existir e ter essa importância é já de si significativo”, apontou o ex-diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sem esquecer o papel “diminuído” da língua de Camões no quotidiano de Macau, por ser usada por uma percentagem mínima da população com outra língua materna.

Carlos André concluiu destacando que o interesse pelo português extravasa a área dos negócios: “Uma língua vive do uso. Quando deixa de ser usada, continua a ser uma língua de cultura, mas perde o seu lugar entre as línguas faladas. A Tradução e o Direito são importantes; mas não concordo que a apetência pelo português se resuma a isso. Há a economia, a política e há, também, a cultura”.

FV // JMR – Lusa/ fim

Foto: Foto: LUSA – Um estudante a tomar notas. 27/02/2012EPA/DIEGO AZUBEL

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