1 March 2021
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Petróleo e gás natural “aceleraram condições” para conflito em Moçambique

Macau, China, 10 mar (Lusa) – O escritor Luís Patraquim considera que as descobertas das reservas de gás natural e petróleo “aceleraram condições” para a escalada do atual conflito em Moçambique.

“A emergência destas descobertas todas de gás natural e do petróleo – absolutamente fabulosas – começa a dar a volta à cabeça daquela gente”, disse à Lusa o escritor, poeta e jornalista, em Macau, onde está a participar num festival literário.

O autor disse ainda estar convencido de que “interessa a alguém, por variadíssimos motivos, fragilizar a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique], que no fundo sempre se assumiu como partido único”.

“É dito que estamos em total democracia (…) mas depois a realidade não é essa. E então interessa a alguém fragilizar a Frelimo num jogo perigoso, não digo para fortalecer a Renamo [Resistência Nacional Moçambicana], mas sobretudo para fragilizar a Frelimo, para que se chegue a uma forma qualquer de barganha de património. Porque o que está ali em causa não é democracia nenhuma. A Renamo quer parte do bolo que neste momento está todo nas mãos da Frelimo”, afirmou.

“Não é só poder, [são] os ‘royalties’ para as concessões do gás natural, os milhões para os gasodutos”, acrescentou.

Radicado em Portugal há 30 anos, Luís Patraquim considerou que o “desenvolvimento económico acelerou condições que já não estavam bem, sobretudo, nesta integração decorrente dos acordos de paz, desta integração das forças da Renamo nas estruturas que deviam ser apartidárias do exército e das polícias, e até do aparelho de Estado como um todo”.

“O meu receio é que nas cinturas das grandes cidades – Nampula e Beira, Maputo já não tanto, por ter outro tipo de revoltas e ser mais Frelimo – possa haver ali de repente uma explosão social”, adiantou.

Por outro lado, sublinhou que o conflito não se resume a emboscadas: “Já há populações refugiadas no Malauí e, espantosamente, o Governo não quer reconhecer que existem, porque não quer assumir que está em guerra”, frisou.

De acordo com números avançados esta semana à Lusa, quase 11.000 moçambicanos estão concentrados num campo de refugiados improvisado em Kapise (sudoeste do Malauí) para fugir aos confrontos militares no centro-oeste de Moçambique.

Uma das consequências do conflito, argumentou Luís Patraquim, “é um desinvestimento muito grande por parte das multinacionais”.

Também esta semana foi divulgado que os projetos de investimento autorizados em Moçambique caíram 74, 5% em 2015 face ao ano anterior para 1, 7 mil milhões de dólares (1, 5 mil milhões de euros).

Luís Patraquim destacou, por outro lad, o “a nova corrida à África, onde a China se está a posicionar de uma maneira muito inteligente, criando aquilo que em termos militares se pode chamar uma quadrícula”.

“Não de ocupação efetiva do território, como fez o colonialismo clássico, mas através da cooperação, da construção das infraestruturas do que o país precisa, através da finança, dos grandes empréstimos, sem interferir absolutamente em nada (…) nem dizer nada disso aos governantes dos países de que têm de ter ou deixar de ter boa governação”, acrescentou.

FV (HB/ JSD) // VM – Lusa/Fim
Moçambique (Foto de "Público")

Norte de Moçambique Foto de “Público

 

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Um comentário
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    10 Março 2016 at 20:00 -

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