Vem isto a propósito de Pegadas na areia, um bom romance – como tentarei mostrar – que nos coloca de imediato uma questão a que não é fácil responder e que talvez hoje já não importe muito: trata-se de uma obra portuguesa, angolana, luso-angolana, angolana-lusitana, lusófona ou uma outra coisa para a qual ainda não temos palavra mas que se situará no domínio do pós-nacional (que não é o mesmo que apátrida)? Embora possa parecer menor, este é um ponto de interesse.

É certo que se diz muitas vezes que a literatura não tem fronteiras, o que não deixa de ser verdade, sobretudo agora que o comércio eletrónico e que os meios digitais facilitam enormemente a circulação dos textos. Mas, apesar disso e daquilo a que muitos, na esteira de Zygmunt Bauman, chamavam as fronteiras líquidas (antes das crises de refugiados, do covid e da invasão da Ucrânia) – portugueses e angolanos continuamos a ser formados segundo um modelo educativo (e cívico) que estabelece um marco claro entre nós e os outros. E isso prejudica a receção de obras como Pegadas na areia, em que a noção de fronteira é bem mais complexa.

É que a autora pertence a uma geração que muitas vezes foi propositadamente esquecida e silenciada, em Angola e em Portugal: a dos que quiseram ser angolanos sem apagar o seu fundo português e que, em momentos diferentes da história, tiveram dificuldades em ser reconhecidos como iguais em cada um dos espaços. Quase sempre ligados – por laços familiares e geracionais – aos errada e depreciativamente chamados retornados (como explica Graça de Sousa na p. 146, muitos deles não estavam a retornar, estavam a pisar pela primeira vez o solo da antiga metrópole), estes cidadãos não chegaram a alcançar grande visibilidade social nem política e poucas vezes foram objeto de representação literária.

E, no entanto, tal como os africanos que se fixaram em Portugal em 1974-75, também eles foram elementos decisivos na sobrevivência e desenvolvimento dos países em causa, ficando igualmente marcados pela perda a que Graça de Sousa chama mutilação da alma. Dando voz a esta geração que, 47 anos depois da independência, está em vias de desaparecer, a autora não só contribui para a reparação de uma injustiça histórica como coloca uma questão que importa muito ao futuro do mundo de língua portuguesa.

Trecho de Apresentação do livro “Pegadas na Areia”, da autoria de Graça de Sousa, pelo Prof. Doutor Francisco Topa*

Palácio do Bolhão, Porto


Graça de Sousa, com dupla nacionalidade, angolana e portuguesa, nasceu em Sá da Bandeira, actual Lubango, Angola, em 1946, descendente de família que aí se radicou a partir do século dezanove. Permaneceu nesse país, com o marido e três filhos até 1983, estadia interrompida por razões de saúde de um dos filhos. Regressou em 1991, para ali se manter até 1995, e a partir de 2015 repartiu a vida entre Angola e Portugal.

Pegadas na Areia é o terceiro livro de sua autoria. O primeiro livro foi “Bandeira a meia haste”, assinado sob o pseudónimo Suzana Benje, que teve como lugar Angola do antes e do após independência, até 1992. Segundo a autora, ele funcionou como o desabafo necessário para poder tentar outros voos no âmbito da ficção.

O segundo livro, “A valsinha”, é um livro de contos em que o palco é o Algarve, nomeadamente Portimão.

No livro “Pegadas na areia”, Graça de Sousa regressa às origens.

Os três livros foram precedidos por algumas crónicas e contos publicados na imprensa angolana e na regional portuguesa.


*Francisco Topa, Professor Associado do Departamento de Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e membro do CITCEM. Leciona nas áreas de Literatura e Cultura Brasileiras, Crítica Textual, Literaturas Africanas e Literaturas Orais e Marginais.

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