Participei, há dias, em Santander, no inesquecível Palácio da Madalena, a convite de Josemaria Ballester, numa extraordinária reflexão sobre o novo conceito de Património Cultural, que procura acabar com a velha oposição entre património e criação contemporânea e dá lugar à ligação entre pedras vivas e pedras mortas, entre património, herança, memória e criação. Assim, ganha sentido a protecção do património material e imaterial e o tema das Humanidades torna-se crucial, como salvaguarda do que é comum e do que diferencia. E, com muita saudade, lembrámos a memória do mestre (que o foi de muitos de nós), que nos lançou no estudo e aprofundamento de todos estes difíceis temas – refiro-me a Pepin Vidal-Beneyto. Ora, falar de património imaterial, é referir, como essencial, a prioridade atribuída à protecção e salvaguarda das línguas e da comunicação interpessoal. Só através do uso correcto da língua, poderemos chegar aos nossos interlocutores. Daí que a defesa da língua seja um acto elementar de respeito e de cidadania. Além do património das pedras vivas, da arquitectura e da arqueologia, dos bens construídos e dos vestígios materiais, temos de cultivar as tradições e os costumes, o saber fazer e o saber saber – e as línguas têm aí um papel crucial.

Num momento em que a crise das Humanidades encontra as suas raízes na «crise do conhecimento da língua materna, que condiciona a prática da leitura e a compreensão dos textos literários, históricos, filosóficos etc.», torna-se fundamental tirar as devidas ilações desta afirmação da autoria do Prof. Vítor Aguiar e Silva. De facto, «todas as Humanidades se fundam no conhecimento e na prática da língua e sobretudo na leitura e na interpretação de textos, em particular de textos literários». Neste sentido, importa falar entre as grandes reformas urgentes, a efectuar na educação: «melhorar, fortalecer e enriquecer o conhecimento da língua portuguesa». Não se trata, porém, de uma proposta ao lado de tantas outras, mas de uma prioridade fundamental, centrada não em «tecnicismos logocráticos e abstrusos», mas no incentivo da leitura dos textos, na prática da expressão oral e escrita, na interpretação e numa especialíssima atenção aos textos literários de diferentes épocas e géneros. Não há nitidez de espírito sem ideias claras e distintas, não há conhecimento sem o contacto com os autores e os textos originais. A pobreza vocabular, a confusão nos argumentos, a desordem na exposição, a indigência das ideias – tudo isso tem a ver com a desatenção e a indiferença que atingem as Humanidades e a literatura. As cabeças bem feitas, de que falava Montaigne, e Edgar Morin recorda, exigem abertura de espírito, diálogo entre saberes, capacidade de conhecer e compreender.

A língua portuguesa é vista ainda por Vítor Aguiar e Silva como «a mais esplendorosa, perdurável e irradiante criação de Portugal». É verdade. No entanto, isso obriga-nos a especiais responsabilidades no bom domínio do português e na sua defesa e protecção. Mas a responsabilidade essencial centra-se na valorização da cultura e da ciência, como faces da mesma moeda. Lembremo-nos de Pico della Mirandola, para quem as Humanidades iam do conhecimento e da sabedoria no domínio da literatura e das artes até ao espírito filosófico e científico. Nada pode ser estranho às Humanidades. E se se nota, presentemente, descrença relativamente a essa opção, no ensino e na escolha de uma profissão, a verdade é que não estamos a falar de um domínio fechado e cabisbaixo, mas a procurar novas perspectivas, susceptíveis de abrir novas oportunidades. Afinal, não podemos esquecer que a grave crise financeira que vivemos deveu-se fundamentalmente à desvalorização da capacidade de criar e de inovar, nas duas últimas décadas. Ora, se a cultura e um novo espírito, capazes de acolher e aprofundar as Humanidades, entrarem na ordem do dia, isso significará que se dará uma especial ênfase ao seguinte: «o discurso das Humanidades tem de ser sempre (…) a defesa intransigente contra os dogmáticos, os tiranos e os espoliadores da liberdade e da dignidade do homem, no plano das ideias e dos valores, e no plano das práticas concretas». Veja-se, pois, que a apologia das Humanidades nada tem a ver com uma referência datada ou retrospectiva. Trata-se de um apelo ao universalismo do diálogo entre saberes.

No entanto, este momentoso problema não se limita às considerações teóricas e abstractas que, sobre ele, pareceriam mais fáceis. O facto é que o valor da língua e das Humanidades tem repercussões económicas e sociais. Num estudo recente do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, as indústrias e os serviços em que a língua portuguesa é um elemento chave representam 17% do Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal. Com efeito, esse estudo sobre “O Valor Económico da Língua”, encomendado pelo Instituto Camões a uma equipa de investigadores daquela instituição revela que esse valor é superior ao que normalmente é referido, por exemplo para a língua castelhana (15%), “em resultado da maior terciarização da economia portuguesa em relação à espanhola. De qualquer modo, podemos afirmar, sem grande margem de erro, que há uma equivalência, devendo salientar-se que a língua constitui um elemento de crescente importância quando falamos de criação económica. E isto é tanto mais evidente, quanto é certo que os sectores criativos nas economias modernas têm cada vez mais em consideração a língua e a cultura. A tudo isto não é alheio o facto de o português ser a terceira língua europeia com maior projecção mundial (a seguir ao inglês e ao espanhol) e de haver uma previsão de aumento muito significativo de falantes na área do português. Aliás, só as principais línguas da China e da Índia se podem comparar em número de falantes com as três línguas europeias mais faladas, ainda que só estas tenham difusão universal. Naturalmente, o que acabamos de dizer corresponde a uma crescente responsabilidade para as economias da língua portuguesa, uma vez que se exige uma maior qualidade nas aprendizagens e uma maior valorização da educação e da formação. De facto, o que distingue uma sociedade desenvolvida duma sociedade atrasada, nos dias de hoje, é a capacidade de aprender, e isso é especialmente pertinente quando falamos de tudo quanto se relaciona com o uso da língua. No fundo, falar de valor económico é referir o valor cultural – afirmando que a língua é um factor social indispensável para a coesão, para a confiança e para a auto-estima das sociedades.

Percebe-se que o Prof. Aguiar e Silva no seu livro «As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua Portuguesa» (Almedina, 2010), que temos vindo a citar, insista na «elaboração das Humanidades», como «saberes sistematizados que ensinem o homem a falar, a discorrer, a interpretar, a argumentar, a ponderar os valores, a tomar decisões na esfera política, a representar poética e simbolicamente as suas acções, as suas virtudes, as suas misérias e os seus sonhos». As Humanidades levam-nos a uma exigência redobrada na língua e nas línguas, isto é, na comunicação, relacionando saberes básicos que, por sua vez, pressupõem competências, com instrumentos para compreender e produzir textos de diversa índole, com património escrito pelas gerações que nos antecederam e com a tomada de consciência da dignidade e das limitações da humanidade. Aguiar e Silva assume, com coragem, essa atitude, até porque «são os textos, nas suas formas e nos seus sentidos, que consubstanciam a literatura».  Não é de mais repetir que a língua portuguesa é como «a mais esplendorosa, perdurável e irradiante criação de Portugal», não podendo compreender-se sem ela a nossa identidade e a nossa diferença.

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