Imagem aérea de um leão no Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique fotografado em 29 de novembro de 2016. Os leões são monitorizados por sinais GPS via satélite que dá a localização de cada um dos grandes predadores existentes no Parque e também uma importante ajuda para os fiscais: se um animal fica imóvel por muito tempo, pode ter sido apanhado por uma armadilha. HENRIQUE BOTEQUILHA / LUSA
Imagem aérea de um leão no Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique fotografado em 29 de novembro de 2016. Os leões são monitorizados por sinais GPS via satélite que dá a localização de cada um dos grandes predadores existentes no Parque e também uma importante ajuda para os fiscais: se um animal fica imóvel por muito tempo, pode ter sido apanhado por uma armadilha. HENRIQUE BOTEQUILHA / LUSA

Parque da Gorongosa na rota de Património da Humanidade

Gorongosa, Moçambique, 18 mar (Lusa) – A administração do Parque Nacional da Gorongosa (PNG) acredita que as investigações em curso sobre a evolução do Homem têm potencial para mudar a história e colocar a principal área protegida na trajetória de Património da Humanidade.

“Há sinais muito fortes de que o facto de estarmos posicionados na ponta mais a sul do vale do Rift coloca-nos potencialmente na rota da [história da evolução humana”, refere em entrevista à Lusa Mateus Mutemba, administrador do PNG, recordando que as grandes descobertas que levaram ao conhecimento mais atual sobre a evolução da espécie ocorreram nessa faixa, como os achados de Oldevai Gorge ou a emblemática Lucy.

“Todos eles ocorreram ao longo do vale do Rift”, salienta Mateus Mutemba, num momento em que uma equipa multidisciplinar liderada pela portuguesa Susana Carvalho, investigadora da Universidade de Oxford e diretora adjunta de Paleontologia e Primatologia do PNG, procura vestígios sobre a evolução do Parque e os primeiros dados apontam para uma cronologia geológica de sete milhões de anos, quando surgiu a humanidade.

A investigação no Parque e imediações, sobretudo nos depósitos antigos do planalto de Cheringoma, vão ajudar a reconstituir a história da região e “clarificar a posição de Moçambique e da Gorongosa na história da humanidade”, segundo Mutemba.

A gestão de expetativas, numa fase inicial das pesquisas, iniciadas em meados de 2016, é ainda prudente, mas suficientemente estimulante para o administrador acreditar que, a confirmar-se a importância dos achados, “vai seguramente mudar a história” e o sítio que for eventualmente identificado se torne Património da Humanidade.

“Teremos uma diversificação da oferta aos turistas que virão ao PNG, não só para ver a fauna e flora, mas também conhecer o sítio onde possamos ter emergido como espécie”, assinala.

Pedro Muagura diretor de Conservação do Parque Nacional da Gorongosa fotografado em 02 de dezembro de 2016. Pedro plantou 45 milhões de árvores com as próprias mãos no Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique. (ACOMPANHA TEXTO DE 17/03/2017). HENRIQUE BOTEQUILHA / LUSA

Pedro Muagura diretor de Conservação do Parque Nacional da Gorongosa fotografado em 02 de dezembro de 2016. Pedro plantou 45 milhões de árvores com as próprias mãos no Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique. HENRIQUE BOTEQUILHA / LUSA

Antónia Vasco funcionária do Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique fotografada em 29 de novembro de 2016. Antónia Vasco, 24 anos, está habituada a lidar, enfrentando ações de pessoas da sua própria comunidade que, na sua enorme pobreza, agravada pelo recrudescimento do conflito entre Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) no último ano, procuram ilegalmente carne de grandes herbívoros para consumo. (ACOMPANHA TEXTO DE 17/03/2017). HENRIQUE BOTEQUILHA / LUSA

Antónia Vasco funcionária do Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique fotografada em 29 de novembro de 2016. Antónia Vasco, 24 anos, está habituada a lidar, enfrentando ações de pessoas da sua própria comunidade que, na sua enorme pobreza, agravada pelo recrudescimento do conflito entre Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) no último ano, procuram ilegalmente carne de grandes herbívoros para consumo. HENRIQUE BOTEQUILHA / LUSA

Mateus Mutemba pensa que esta frente de pesquisa traz também “um sem número de oportunidades” para a participação de investigadores e estudantes das universidades moçambicanas, em disciplinas ainda muito limitadas no país, como primatologia, paleontologia e arqueologia.

“Ainda que as informações que derivarem desse estudo não mudem completamente o conhecimento que existe até hoje, vejo o benefício do desenvolvimento do capital humano nacional como resultado desta oportunidade”, considera.

Além do projeto liderado por Susana Carvalho, “há cada vez mais manifestações de interesse” de investigadores internacionais, no sentido de “explorar esta Gorongosa, que era do ponto de vista científico virgem”.

Este era já um pilar do projeto de restauro, acordado em 2007 entre o Governo moçambicano e a fundação do filantropo norte-americano Greg Carr, através de um centro de pesquisa, “não só para apoiar a gestão do Parque como dar um contributo na formação de cientistas e profissionais na área da conservação”.

É deste princípio que decorre a aproximação a grandes centros de conhecimento, como Harvard, Princeton e Coimbra, e também a universidade de referência em Moçambique, Eduardo Mondlane, visando “criar apetite” de investigadores líderes.

“O caso mais icónico é o professor Edward Wilson, que ao fim de três visitas continua encantadíssimo e já fez três livros que versam o PNG e tem estado a fazer afirmações muito categóricas sobre a Gorongosa”, comenta Mateus Mutemba, a propósito de um dos mais importantes naturalistas do mundo e que considera o Parque como o lugar mais diverso do planeta.

Wilson dá o nome ao laboratório inaugurado em 2014 na sede do PNG e que é uma das principais infraestruturas de apoio – com a sua coleção de referência de biodiversidade e a possibilidade de já este este ano realizar análises moleculares e extrações de ADN -, aos numerosos cientistas que têm procurado a Gorongosa, entre os quais vários “discípulos” do naturalista norte-americano e investigadores de elite internacionais e moçambicanos

Todos têm em comum a descoberta de uma Gorongosa que “não tinha sido suficientemente explorada nem era falada” e atualmente já nem há espaço para acolher todos os pedidos.

HB // PJA – Lusa/Fim

 

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