Rio de Janeiro – (…) Assim, comentávamos que, do ponto de vista de correção idiomática, tanto podemos empregar ‘Está na hora de a pessoa descansar’, quanto ‘Está na hora da pessoa descansar’. Mas as duas maneiras de construir as frases podem não ser indiferentes quanto aos efeitos de expressividade, isto é, efeitos estilísticos. A quem tem o sentimento de sua língua materna não passa despercebida a diferença entre ‘Está na hora de a pessoa descansar’, em que há intenção de pôr em relevo o sujeito da oração de infinitivo, e ‘Está na hora da pessoa descansar’, em que não ocorre motivação de ênfase.

Talvez os exemplos de Vieira examinados sem muita atenção por Grivet, na sua ‘Nova Gramática’, nos fossem elucidativos na depreensão de ênfase e de não ênfase do sujeito aos olhos e ouvidos dos assistentes dos sermões do grande estilista.
Na tarefa de ampliar as potencialidades da educação linguística dos alunos, não deve o professor limitar-se a indicar-lhes apenas os cuidados com a norma gramatical. Na leitura e comentário dos textos lidos em sala, deve ressaltar o aspecto estético e estilístico dos recursos fonéticos (sonoros), morfológicos, sintáticos e léxicos (vocabulares) de que se servem os escritores para uma efetiva e eficaz expressão de sua mensagem.
A aula de gramática deve estender-se a uma aula de língua, de seus riquíssimos instrumentos. Neste particular, a leitura e comentário das páginas dos artistas da palavra, poetas e prosadores, são minas de lições sobre as virtualidades do idioma, e um extraordinário campo de experiência a ser surpreendido pelo leitor atento e inteligente. Será uma frustração para os alunos se a aula de língua portuguesa se resumir em classificar fonemas, palavras e orações, ou em se emparedar em listas de verbos e de regras ditatoriais de colocação de pronomes átonos ou do emprego da crase.
A língua é um veículo de ideias e sentimentos dos falantes, que se manifestam através da gramática ou de recursos linguísticos oferecidos pela estilística. Comentando a saída de um livro notável de Rodrigues Lapa, ‘Estilística de língua portuguesa’, vindo à luz em 1945 e várias vezes reeditado em Portugal e no Brasil, assim se manifestou Lindley Cintra, ambos mestres admiráveis: “Rodrigues Lapa publicou um livro de uma qualidade raras vezes atingida entre nós; um livro que marca, de fato, uma nova orientação nos estudos filológicos em Portugal. Em oposição aos gramáticos tradicionais de vistas menos amplas, de cultura humanística menos viva, Rodrigues Lapa vê a língua como um teclado variadíssimo de valores expressivos, um meio admirável e respeitável de transmitir, nos seus diferentes matizes, o mundo interior, enfim, uma forma de criação espiritual que encontra nas necessidades espirituais de toda ordem, que não nas regras dos gramáticos, a sua justificação”.
A tarefa, no início, pode parecer não ser fácil; mas, descoberta a chave do segredo, professores e alunos entrarão no maravilhoso caminho da vida da linguagem.

 

Evanildo Bechara é professor da Uerj e da UFF e membro da ABL

 

FONTE: O Dia

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