Graças a um complexo modelo informático projetado originalmente para mapear epidemias, cientistas detalharam a evolução da família das línguas indoeuropeias.

Semelhanças entre centenas de línguas faladas da Islândia à Índia deram lugar a acalorados debates sobre o local onde se originaram e o que sua propagação e evolução podem dizer sobre os primeiros humanos.

A teoria dominante é que as línguas faladas atualmente por 3 bilhões de pessoas provêm de nômades da Idade do Bronze, que utilizaram cavalos e carroças para se espalhar ao leste e a oeste das estepes do norte do Mar Cáspio, perto da atual Ucrânia, de 5.000 a 6.000 anos atrás.

Outros afirmam que foi a agricultura – e não o cavalo e a roda – que ajudou a difundir as línguas e apontam suas origens para a atual Turquia há 8.000 ou 9.500 anos.

Este último estudo publicado na Science usou uma enorme base de dados de palavras comuns ou afins, tanto modernas quanto antigas, e identificou as raízes da linguagem na atual Turquia e não nas estepes.

“Este é um dos exemplos-chave propostos de que a agricultura é uma força importante na formação da diversidade linguística mundial”, disse o autor principal do estudo, Quentin Atkinson, psicólogo evolutivo da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia.

Os resultados se baseiam em investigações arqueológicas e genéticas que sugeriram que a migração humana precoce ajudou a estimular a expansão da agricultura, afirmou Atkinson.

“Não é que todos os caçadores-coletores estavam na Europa e olharam por cima da cerca e viram que seus vizinhos cultivavam e começaram a fazer o mesmo. Houve uma movimentação real de pessoas”, disse.

“Os idiomas sugerem que foi um movimento cultural também; os caçadores-coletores não estavam só arando, também estavam adotando uma cultura e uma língua”, acrescentou.

O uso de métodos projetados originalmente pelos epidemiologistas para rastrear a linguagem faz sentido porque há tempos foram percebidas similaridades entre a evolução dos seres vivos e as línguas vivas, explicou Atkinson.

“Darwin fala a respeito, em ‘A Origem das Espécies’ e em ‘A Origem do Homem’; se refere a eles como ‘estes curiosos paralelismos'”, acrescentou.

Os biólogos que buscam a origem de uma pandemia tomam amostras em vários locais, sequenciam o DNA e fazem um mapa de como o vírus evoluiu ao longo do tempo, observando como seus genes foram modificados.

“Uma vez que se tem a árvore genealógica, é possível rastrear a origem em seus galhos”, afirmou Atkinson durante entrevista por telefone.

“O que fizemos foi aplicar o mesmo enfoque aos idiomas”, emendou.

A equipe construiu uma base de dados de palavras afins, como ‘madre’ em espanhol, ‘mother’ em inglês, ‘moeder’ em holandês, ‘mat’ em russo, ‘mitera’ em grego e ‘mam’ em hindi.

Em seguida criaram uma árvore genealógica dos idiomas, que os situava no tempo e no espaço e dava conta das perdas e danos de cognatos (termos com mesma origem etimológica, mas com evolução fonética distinta). Assim, concluíram que estes cognatos derivam da palavra proto-indoeuropeia “mehter”. Ler o artigo completo.

 

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