3 March 2021
Indonésias de diferentes idades e até alguns homens rezam e cantam em português, por vezes intercalado com Indonésio, com o auxílio de livros, onde o português aparece escrito na forma mais conveniente para os indonésios, substituindo, por exemplo, “nosso” por “noso”, Flores, Indonésia, 23 de fevereiro de 2014. (ACOMPANHA TEXTO) ANDREIA NOGUEIRA/LUSA

Os ‘portugueses negros’ de Jacarta recebem ano novo pedindo perdão e santidade

191919A comunidade dos ‘tugu’, cristãos protestantes no maior país muçulmano do mundo, terá nascido do cruzamento de escravos de portugueses na Índia, que foram levados para a zona onde agora fica Jacarta, com comerciantes, artesãos e aventureiros oriundos de Malaca, Ceilão, Cochim e Calecute, mas não há versões definitivas da sua origem.

Os cerca de 300 ‘portugueses negros’ que vivem na aldeia de Tugu, a norte de Jacarta, seguem a tradição centenária de colocar pó branco na face uns dos outros, numa cerimónia realizada no primeiro domingo de janeiro.

Trata-se de um dos eventos mais conhecidos da comunidade e tem o nome de “mandi-mandi” (duche, em indonésio), que significa “literalmente tomar banho para limpar o corpo ‘sujo'”, disse à agência Lusa Lisa Michiels, uma das suas praticantes.

“Primeiro vamos orar juntos, ouvir a palavra do Senhor, como gratidão por todas as bênçãos de Deus. Depois, vamos almoçar juntos, antes de começar a cerimónia”, referiu.

Segundo a indonésia, o branco ou branco sujo “é como um símbolo de santidade e de perdão”, mas entre os descendentes de portugueses em Malaca, na Malásia, existe uma tradição semelhante na qual é usada “água em vez de pó”.

É também o perdão dentro das famílias que marca o momento das 12 badaladas e ainda o primeiro dia do ano, quando a tradição local – conhecida como ‘rabu-rabu’ – convida a ir de casa em casa pedir perdão, cantar e beber.

Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao território atual da Indonésia, em 1512, e, embora a posterior colonização holandesa tenha tentado apagar as marcas da herança lusa, a língua papiá tugu, uma forma de crioulo, resistiu durante séculos.

O último falante deste crioulo faleceu em 1978, mas a língua continua a fazer parte das canções do ‘Keroncong’, um estilo de música popular que resultou da vinda do cavaquinho com os portugueses.

À semelhança de anos anteriores, as canções do grupo Keroncong Tugu – que é famoso na Indonésia e que reúne vários elementos da família de Lisa Michiels – deverão ter um destaque especial no “mandi-mandi”, que atrai indonésios de outros lugares e também estrangeiros, incluindo portugueses.

A comunidade – que conta também com alguns elementos noutros pontos da Indonésia e no estrangeiro – preserva tradições lusas, como beber vinho no Natal e no ano novo.

Até à geração dos pais da família Michiels, os ‘tugu’ procuravam sempre casar entre si, mas agora a situação é diferente, pelo que características físicas como o nariz mais pontiagudo deverão desaparecer com as gerações futuras // APN – Lusa/Fim

Fonte: Público

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Fotos:
– Os Michiels são uma das 150 famílias habitantes de Tugu AFP.
Os indonésios da comunidade tugu vivem numa zona que nunca foi colonizada por portugueses, mas tentam viver de acordo com os costumes lusos e promovem Portugal num estilo de música popularizado.
– Flores, Indonésia, 23 de fevereiro de 2014. ANDREIA NOGUEIRA/LUSA

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2 Comentários do artigo
  • Tugu: a aldeia da Indonésia onde a alma portuguesa não morreu
    21 Janeiro 2016 at 13:40 -

    […] OS ‘PORTUGUESES NEGROS’ DE JACARTA RECEBEM ANO NOVO PEDINDO PERDÃO E SANTIDADE […]

  • Em Tugu há descendentes dos portugueses negros que cantam “as pombinhas”
    31 Dezembro 2015 at 15:27 -

    […] OS ‘PORTUGUESES NEGROS’ DE JACARTA RECEBEM ANO NOVO PEDINDO PERDÃO E SANTIDADE […]