5 March 2021
Entrevista com o linguista moçambicano Gregório Firmino, diretor da Faculdade de Ciências Sociais e Letras da Universidade Eduardo Mondlane.

Os limites da lusofonia

O linguista moçambicano Gregório Firmino, diretor da Faculdade de Ciências Sociais e Letras da Universidade Eduardo Mondlane, a principal universidade pública de Moçambique, não sabe se sua primeira língua foi o português. A dificuldade é comum no país do sudeste da África, que tem a língua portuguesa como oficial, embora só 39% da população seja lusófona, e a maioria viva o plurilinguismo.

De colonização tão antiga quanto a do Brasil, o país só se livrou da invasão portuguesa em 1975, quando a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), movimento que venceu a luta armada, chegou ao poder. “Moçambique independente produziu mais falantes do português do que Moçambique colonial”, diz Gregório, que se especializou na relação entre o português e os idiomas locais. À Língua falou sobre a complexidade linguística do país e o projeto de nação que a Frelimo concebeu, fazendo o país adotar o idioma tanto para promover integração social quanto para atuar no cenário internacional. Mas o conflito interno perdura. No fim de 2013, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) decidiu boicotar as eleições municipais para sabotar a lei eleitoral, que favoreceria a Frelimo, partido do presidente Armando Guebuza e no poder na maioria das cidades.
Qual a primeira língua que aprendeu?
Na verdade não sei. É muito difícil para alguns moçambicanos dizer qual a sua primeira língua, pois estamos expostos a muitas. A de casa, que, se calhar, foi a primeira que ouvi (mas não tenho certeza!), é uma bantu, gitonga, uma das muitas do país. Meus pais vivem numa região onde também se fala outra língua bantu, então, quando estava com meus amigos, tinha de falar uma língua diferente. E ao longo da vida fui aprendendo outras.
Quantas línguas há em Moçambique hoje?
Esta pergunta, para mim, como sociolinguista, não é respondível. As fronteiras linguísticas não se estabelecem dessa maneira. Claro que depende sempre de quem as estabelece. Mas, numa sistematização feita do recenseamento de 1980, foram identificadas 24 categorias. Repare, não digo línguas, digo categorias linguísticas. São 24, incluindo o português. Mas o número pode chegar a 100 ou a 5, dependendo de como se classifica.
Como caminha o processo de descrição das línguas?
Quase todas estão descritas. O problema da descrição é que ela não tem fim, até porque as línguas se modificam. Está crescendo o conhecimento das práticas linguísticas. O fato de eu saber que “essa língua é assim e assim” não é nada, mas sim “como essa língua é usada?”, “qual é sua influência na sociedade?”; isso é muito importante. 
Quais os problemas de a maioria da população não ter o português como 1a língua?
Não gosto de dizer que há problemas. Há uma situação linguística que é preciso encarar, como há em outros países. A interação social é feita pela língua, mas ela não serve só para se comunicar. Pressupomos que nós temos de ser iguais, mas não. O que se passa é que os problemas que nós precisamos discutir têm a ver com o fato de olharmos para eles com a visão do funcionamento do Estado. Moçambique é plurilíngue, as pessoas falam várias línguas; há várias bolsas de línguas, e mesmo quando dizemos “plurilíngue” estamos a simplificar. Há pessoas que falam duas línguas bantu, outras falam três, quatro. 
Outras falam uma bantu e o português, mas essa bantu não é a mesma que a dos outros que falam português. Posso falar a língua A mais o português, outro falar a língua C mais o português. É uma situação muito complexa. Do ponto de vista do Estado é importante encontrar o fator comum, sobretudo para ativar nas pessoas a consciência de que estão num mesmo Estado. É verdade que há muitas instâncias contra, o português não é a solução de todos os problemas. É uma opção estratégica, da qual as pessoas têm consciência.
Como foi a adesão ao português? Ele era a língua do inimigo, não?
Foi um processo político, de alguma forma normal – considerando a configuração do movimento nacionalista.
Sim, pois foi a língua adotada pela Frelimo, certo?
Era a língua do movimento, a que poderia unir. O nome já diz, era uma “frente”, a união de todos, desde que tivessem uma posição anticolonial. A Frelimo congregava diferentes tendências, então elegemos um catalisador comum, e a língua portuguesa serviu. Mas isso confunde as pessoas: não quer dizer que todos falassem português. 
Não?
Pelo contrário: nomes influentes no movimento falavam inglês. Eduardo Mondlane – que deu nome à universidade – foi o primeiro líder do movimento nacionalista, e foi escolarizado num mundo em inglês. Na África do Sul, nos EUA; viveu muito fora de Moçambique. A vida dele, nos momentos cruciais, ele a fez em inglês. Muitos que aderiram ao movimento não falavam português. Pois uma coisa é as pessoas falarem a língua; outra é assumi-la como símbolo do que se está a fazer. Sem o português, o país não seria o que é. Não digo que não haveria Moçambique – mas não com a configuração social, econômica e política que conhecemos.
No Brasil, houve a imposição do idioma. Há essa percepção em Moçambique?
Essa ideia de que a escolha do português foi neocolonial perpassa alguns círculos intelectuais, mas não há como associar a Frelimo ao movimento neocolonial. Ela é um movimento nacionalista, anticolonial, dos mais consequentes que houve em África.
Aqui se questiona o “abaixo os tribalismos”, para unir todos em uma nação forjada e, com isso, apagar as diferenças. 
Como você vai apagar? A questão em causa era executar um projeto nacional. E mesmo agora em Moçambique, muitos não falam português. Mas toda gente o assume como um símbolo. Tanto que o português, além de servir como instrumento de comunicação, é como se fosse uma bandeira, um hino. Posso não gostar do hino; posso até não conhecer a letra e não cantá-lo, mas representa todos nós. Os estudos que há em Moçambique enfatizam muito a mudança linguística no lado da estrutura da língua. No tempo colonial, a língua  não era falada da mesma forma que em Portugal nem pelos próprios portugueses que estavam em Moçambique. Mas o que fez a língua ser moçambicana foi o fato de ela ter sido assumida pelos moçambicanos como símbolo da unidade nacional – a mudança simbólica precede, tem mais relevância que a estrutural. Porque esta é normal; uma língua está sempre em mudança! O português está a sofrer um processo de nativização; que se associa a novos valores sóciossimbólicos e traços linguísticos. Esta “nativização” tem mais a ver com o novo uso social do que com a diferenciação da língua em si. Ao português em Moçambique é conferido um caráter singular pela ideologia que motiva os seus usos e não só por suas inovações linguísticas.
Como avalia as contribuições do português moçambicano?
Há várias contribuições estruturais. A coisa mais óbvia é lexical. Há formas sintáticas, fonológicas, fonético-fonológicas, morfológicas, que foram mostrando outras possibilidades de a língua existir.
Alguma delas chegou a Portugal ou ao Brasil?
Algumas. A mudança linguística, para os linguistas, segue um processo natural. Alguns fenômenos da mudança linguística têm a ver com a forma como a língua funciona, ou como nosso cérebro funciona. Eu, você, alguém que está em Portugal, temos o mesmo cérebro, portanto partilhamos aquilo que chamamos de “universais linguísticos”, algumas tendências naturais da língua. Portanto alguns fenômenos que nós vemos em Moçambique poderiam ocorrer em outros locais. Agora, pode ser que estes fenômenos sejam acelerados pelo contexto específico de Moçambique. Por exemplo, o fato de muitos moçambicanos terem uma língua bantu como 1a língua, com um conjunto de estruturas diversas, facilita o surgimento de certos fenômenos – mas alguns deles que ocorrem aqui no Brasil podem ocorrer em Portugal. A língua bantu tem certas estruturas, que podem ser projetadas ao português, e ficam mais salientes em Moçambique do que no Brasil ou em Portugal. 
Por exemplo?
O aspecto marcante é a gente dizer “essa língua é nossa, não devemos nada a você”. Os portugueses querem cobrar o uso do português, como se fosse um favor que nos fizeram. Não, eles nos deveriam muito mais! Mas a língua portuguesa deve a quem? Eles devem ao italiano? Daqui a mil anos, vamos chamar de português aquilo que se fala no Brasil? Aquilo que se fala em Moçambique? Não sei. Mas a língua é nossa. E não só é nossa, mas é tão nossa quanto os outros dizem que é deles. Não devemos favor a ninguém, não venham nos dar lições, fazemos o que queremos. E amanhã, se nós dissermos “já não queremos” – como Estado – e adotarmos, como política linguística, alguma outra opção estratégica, qual o problema?
Quais os maiores desafios da linguística em Moçambique?
O desafio, que se estende para fora da África, é o de trabalhar sem preconceitos. Assumir uma visão linguístico-científica para conhecer as coisas de uma forma científica – porque muitas vezes os cientistas querem descobrir aquilo em que já pensaram, que acham que já descobriram, e não é bem assim. Penso que muito do que se faz na África tem esse defeito de já ter um pensamento preconcebido. Da mesma forma como falamos em “África”. É errado. Devemos falar de “Áfricas”… As pessoas querem soluções gerais, “a mesma fórmula que se aplica a tantos contextos”. Mas a questão é olhar cada caso sem preconceito, e assumir que África é um continente; os países africanos sempre tiveram dinâmicas, não são produtos acabados. Nesse dinamismo, a interação com elementos crioulos, que surgem do contato entre línguas e povos, sempre esteve presente – de forma positiva ou negativa. Antes de chegarem os colonos europeus, já havia colonização em África – dos árabes. Havia colonização intra-africana também – grupos que invadiram outros grupos, e ocuparam outros, mataram etc. Sempre houve isso e isso sempre teve consequências sociais. As pessoas olham para África como se ela tivesse só uma colonização, como se a história de Moçambique começasse quando os portugueses chegaram. Aquilo foi uma etapa – houve e vai haver outras.
Havia índices que apontavam para 92% da população analfabeta no país no ano da independência. Como está isso agora?
Um dos grandes objetivos sempre foi a promoção da educação. Está havendo uma evolução muito grande – mas, como eu disse, isso tem que ser equacionado; há muitos problemas, o contexto político, econômico, etc… Você pode dizer “olha, eu quero escolarizar toda a gente”, mas pode não ter uma escola ou um professor. Mas está havendo avanços, sim. Muitas coisas estão sendo feitas. Eu penso que, nas camadas jovens, quase toda gente tem acesso ao ensino primário, que é uma coisa que não havia antes. Em todas as regiões de Moçambique, é possível ter acesso a esta escolaridade, o que não quer dizer que toda gente vai à escola; mas as possibilidades estão lá, houve uma grande política de massificação do ensino. Os processos de massificação têm seus lados positivos e lados negativos, sempre, mas há avanços, e isso que importa. Há escolas primárias em todo lado, secundárias; agora há universidades em todo lado, isso alcançou o país inteiro, não há mais região isolada nesse sentido. Agora, trabalhar, por exemplo, com 20 pessoas é diferente de trabalhar com 100 pessoas. Tentar imaginar, por exemplo, o volume de estudantes do ensino primário que há agora, que não havia antes. Isso traz problemas. Temos professores suficientes? Eles estão em qualidade suficiente? Há um orçamento para dar salário para todos os professores? Etc, etc. Portanto, dentro desses constrangimentos todos, procura se fazer o melhor possível. No fundo, o problema linguístico não é um problema linguístico, é um problema social e político.

Fonte: Revista Língua Portuguesa

Foto de Gregório Firmino, extraída do Facebook

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