Rio de Janeiro, 03 de ago (Lusa) – O Presidente da República sentou-se, “para não morrer de emoção” com o manuscrito de “Amor de Perdição”, no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, onde está para as Olimpíadas de “hino à língua” portuguesa.

“É um hino à língua que nos une”. Assim, definiu Marcelo Rebelo de Sousa, os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, pouco depois de entregar a bandeira nacional ao porta-estandarte da missão portuguesa no Rio, o velejador João Rodrigues, no Navio Escola Sagres.

O primeiro dia de uma visita oficial de seis dias ao Brasil, em que assistirá à cerimónia de abertura das Olimpíadas e passará também por São Paulo e por Recife, ficou marcado pela afirmação da língua portuguesa e da relação entre os dois países.

Em pleno processo de destituição de Dilma Rousseff, Marcelo Rebelo de Sousa não tem previsto encontros formais com reesposáveis políticos brasileiros, à parte de uma receção com todos os chefes de Estado presentes para a abertura dos Jogos, que será dada pelo Presidente interino do Brasil, Michel Temer, na sexta-feira, mas repetiu ao longo do dia o caráter singular da relação entre os dois países.

“De cada vez que é preciso haver uma candidatura de alguém que fala o português – em muitos casos candidatura brasileira ou portuguesa -, lá está presente a solidariedade de um parceiro que é um parceiro histórico. É uma solidariedade mais forte do que todas as solidariedades regionais. Todas, as de Portugal no quadro da União Europeia, as do Brasil no quadro do Mercosul”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

“Isso começa e acaba na cultura, porque a cultura é isso. A cultura é a língua, a cultura é a escrita, mas a cultura é a vivência que a língua e a escrita se traduzem, exprimem”, afirmou, no Real Gabinete Português de Cultura, uma instituição cultural criada em 1837, onde Marcelo foi “em peregrinação”.

Na “maravilha de neoclássico manuelino” que é a arquitetura do edifício do Real Gabinete, o Presidente deu voz à sua bibliofilia de colecionador de livros antigos, desde os 15 anos de idade: “Vou-me sentar para não morrer de emoção”, disse, quando viu o manuscrito de “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco.

Para manusear uma primeira edição de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, Marcelo calçou as luvas brancas da responsável do Real Gabinete, que lhe tinha mudado as páginas de “Amor de Perdição”, que viu em detalhe, detendo-se nas variações de caligrafia de Camilo e também nas poucas rasuras feitas ao romance escrito na prisão, em 15 dias.

Ao olhar para a gravura da capa de “Os Lusíadas” decretou: “Tem o pelicano para a esquerda, é uma edição A”.

“São edições em vida e são raríssimas”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, entendido em primeiras edições da epopeia portuguesa.

Na visita ao Real Gabinete, o Presidente cumprimentou os elementos de uma banda que tocou êxitos luso-brasileiros, como “A Casa da Mariquinhas” e “Cidade Maravilhosa”, um contacto que não teve de manhã com os fuzileiros navais que tocaram junto à Sagres, afastados do navio-escola pela chuva que começou a cair minutos antes da chegada do chefe de Estado português à Ilha das Cobras.

Só que os fuzileiros navais brasileiros levavam preparado mais um hino, além dos hinos nacionais dos dois países: a canção do Sporting Clube de Braga, o clube de Marcelo Rebelo de Sousa.

“Vi no youtube e o sargento fez o arranjo”, contou à Lusa o mestre da banda, sub-oficial Machado.

Antes, um oficial mais graduado tinha dado o tom: “Primeiro é o hino de Portugal e do Brasil, momento solene. Depois de ele estar lá e começar a relaxar, vocês entram com o hino do Braga”.

A gentileza musical não terá sido notada pelo Presidente, que termina o dia com uma receção à comunidade portuguesa residente no Rio de Janeiro, no Palácio de São Clemente, residência do Cônsul português.

Da comunidade portuguesa faz parte o seu filho, Nuno Rebelo de Sousa, que lidera Federação das Câmaras de Comércio Portuguesas no Brasil, sendo antiga a ligação familiar do Presidente àquele país.

“Nas últimas gerações, não há uma geração da minha família que não tenha vivido no Brasil: o meu avô viveu no Brasil, os meus pais viveram no Brasil, o meu irmão viveu no Brasil com os meus sobrinhos, o meu filho vive no Brasil, todos os meus netos vivem no Brasil”, disse.

“Não há muitos casos tão originais quanto este. Por um lado, tenho quatro netos portugueses que são descendentes em linha direta do rei D. João VI, que foi tão importante na construção do Brasil, e tenho uma neta brasileira. Não é possível ser-se mais luso-brasileiro”, afirmou.

ACL // ARA – Lusa/Fim

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