Todavia, dependendo do ponto de vista onde cada um se encontra, assim muda a forma como se entende a defesa da língua, a definição do que é importante e daquilo com o qual já não vale a pena perder-se tempo.

Os idiomas foram e são ainda hoje (com a excepção das línguas francas de verdadeira mistura), expressões de particularismos culturais e mecanismos de defesa contra competidores e inimigos. Instrumentos também de domínios imperiais, ou de resistência a esses imperialismos. São hoje a última barreira contra a homogeneização, que será a longo termo uma consequência triste da globalização, em contraste com outras que são positivas. Os idiomas são fontes de enriquecimento na diversidade, mas também de incompreensões e conflitos.

Quanto aos Adamastores, Camões tinha razão no seu tempo, Mia Couto já não tem no nosso: “O mar foi ontem o que o idioma pode ser hoje, falta vencer alguns Adamastores”. A frase é atraente, mas inexacta, uma liberdade poética que acaricia o ego no sentido do pelo, mas uma falta de realismo.

O mar foi ontem a melhor e por vezes única forma de ligação, um meio de comunicação, o veículo para esclarecer as incertezas sobre o que havia do outro lado. Historicamente, isso foi sendo feito em zonas geográficas cada vez maiores até que coube aos portugueses o privilégio de tornar global essa descoberta.

O mar é sempre uma ponte entre sociedades diferentes para trocas comerciais, interpenetração cultural e competição. De acordo com a evolução natural, favorece o sucesso do dinamismo contra a estagnação.

Já não há Adamastores na superfície da Terra (resta a exploração espacial), no sentido épico de enfrentar o grande desconhecido, o perigo supersticioso, os obstáculos físicos inultrapassáveis. Há pequenos Adamastores conhecidos, mas são políticos, económicos, financeiros, comerciais, religiosos, burocráticos, etc.  Todas as formas por que se traduz a competição pelos recursos.

Também já não há Adamastores linguísticos. Os idiomas são instrumentos de comunicação primeiro e culturais depois. Na comunicação, as traduções e interpretações automáticas dão uma ideia cada vez precisa dos conteúdos, embora ainda muito recheados de frases incompreensíveis. Dentro de pouco tempo, de importante restará o espaço cultural.

Os últimos Adamastores são os da estandardização, sobretudo no mundo digital. Que meio se usa para comunicar verbalmente e por escrito, como se regista, guarda  e transmite informação, quais os instrumentos acordados para compatibilidades no desenvolvimento e utilização das ciências e das tecnologias. A pressão comercial e popular faz com que estas guerras acabem cada vez mais depressa.

O domínio político e económico dos Estados Unidos a seguir à última guerra mundial, impôs o inglês como língua dominante. A expansão da internet como instrumento de comunicação global e instantânea, consolidou esse facto para o futuro previsível. Mesmo os media que transmitem para o mundo as sensibilidades regionais e nacionais, exprimem-se em inglês (XinHua, Al Jazeera, France 24, etc.).

As línguas multi-nacionais como o português  têm que se impor em igualdade com o inglês em todos os fora onde ainda subsiste o pluri-linguismo oficial, resistir como instrumento de comunicação e educação nos países em que é língua oficial, e sobretudo investir no seu florescimento e reconhecimento como veículo cultural.

Para se obter resultados, é preciso separar o que é realista do que não é. Focar esforços e recursos no essencial e deixar o secundário ao seu destino. Cada coisa no seu lugar. Mais do que referencias históricas, há medidas concretas a tomar, baseadas no bom senso e dignidade próprios, e guerras a ganhar no interesse mútuo, em relação aos outros países lusófonos.

Todos os representantes institucionais da República Portuguesa no desempenho das suas funções devem exprimir-se exclusivamente na língua portuguesa, mesmo que falem fluentemente outras línguas. Em caso nenhum, absolutamente nunca, se podem expor ao ridículo de palrarem “portinhol”, “français de petit nègre” ou “pidgin english”. Nunca ceder a tentações parolas, ou tentar mostrar cosmopolitismo quando se é representante oficial de um país e duma cultura.

Em todos as organizações internacionais que tenham vários idiomas como línguas oficiais, todos os meios são bons para que a língua portuguesa não seja injustamente descriminada. Mesmo sabendo que a evolução normal, por razões de eficácia e de economia, tende para o mono-linguismo.

Para os países de língua portuguesa é indispensável que a educação transmita o conhecimento da língua, da história, da geografia e da literatura de todos, em graus diferenciados de acordo com as suas particularidades individuais.

Mas em zonas lusófonas periféricas há batalhas perdidas, como Goa e Macau. Outras  que se podem perder por falta de investimento e vontade mútua, por não se aperceberem dos riscos que correm em não manterem um máximo de diferenciação em relação aos vizinhos mais poderosos, como na Guiné e em Timor.

Sobre tudo isto há excesso de informação, mas incapacidade de transformar essa informação em conhecimento geral e implementação. Tudo se encontra, mas com o preço de dispersão da atenção, excesso de alternativas e mesmo por vezes um  facilitismo estéril. Isto é um trabalho de todos. Sem desculpas.

JSR

 

FONTE: Caged Albatross

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