Há dias almocei num restaurante de comida africana em Lisboa, com canja de ostras, cachupa e mornas de Cesária Évora e ouvia a conversa de clientes que lembravam a Baía das Gatas na Ilha de São Vicente, – como personagens dos extraordinários filmes de Pedro Costa – os hipopótamos do arquipélago dos Bijagós e a tradicional culinária guineense. Numa mesa ao meu lado, uma ucraniana refugiada que deixara um filho adulto em Kiev, dizia a uma portuguesa que a acolhera, em inglês, que “o Presidente da Ucrânia é um populista e corrupto e o Putin um ditador implacável, corrupto e paranóico…um perigo”, enquanto elogiava a comida do restaurante. 

Emigração, refugiados, deslocados, exilados, pessoas fugindo de guerras, de opressão política e procurando melhores condições económico-sociais… acompanham a história desde sempre. Adiante.

Saigão (antiga capital do Vietname do Sul) é uma cidade morta – o seu nome mudou em 1976 (depois da vitória militar contra os E.U.A.) para Ho Chi Minh – com muitas histórias e mitos, e é o título de uma peça, talvez a mais importante no corrente ano apresentada em Lisboa. Escrita e encenada em 2017 pela francesa Caroline Gulela Nguyen, apresentada por toda a Europa, reapresentada em 2019 no Théâtre Odéon em Paris, esteve em abril no Teatro Nacional Dona Maria II no âmbito da Temporada Portugal-França 2022.

Caroline Nguyen é filha de mãe vietnamita e pai francês pied-noir de origem argelina, vozes que não eram escutadas nos palcos franceses. A peça é passada num restaurante vietnamita entre 1956, em Saigão na antiga Indochina francesa, e 1996 num restaurante com o mesmo nome em Paris – há centenas de restaurantes com este nome em França – gerenciada pela cozinheira, uma velha vietnamita com o nome nobre de Marie Antoinette. Excelente atriz (os atores são, em geral, pessoas felizes, escolhem fazer sofrer ou divertir, provocar lágrimas ou o riso, a tragédia ou a comédia, é o caso desta atriz vietnamita e cozinheira de profissão). A criação desta narrativa teve origem em um almoço de Caroline com amigos num restaurante vietnamita, segundo um amigo comum antigo exilado político da ditadura de Salazar em Paris.

A peça “Saigão” trata um tema de forte impacto nos dias que correm. Veja-se o caso da Ucrânia, com histórias cruzadas de partidas, fugas apressadas, exílios, pessoas que desapareceram, situações que criam memórias, mentiras, mitos, suposições… e a necessidade de recordar.

Nostalgia e dor. A vida dos refugiados e emigrantes vietnamitas em França e dos seus descendentes, uma geração que se sente francesa e não fala a língua dos seus pais é o centro da narrativa da peça. Por que “muitos vietnamitas em França não transmitiram a língua (aos seus descendentes) pelo receio de que seus filhos não se integrassem na sociedade francesa…e este fato levou a que as crianças assimilassem de forma massiva …” a cultura local, segundo a autora de “Saigão”. Os filhos viam as lágrimas dos pais – denominados viet kieu – por um país que já não conheciam, uma herança desaparecida. Tudo mudara, a geografia, a mentalidade, os nomes das ruas, as músicas, a língua…um mundo que desapareceu, um futuro que ruiu, uma grande cidade que era uma ficção nas consciências dos vietnamitas expatriados em 1956 e só autorizados a regressar em 1996. Uma fantasia como o musical “Miss Saigon” exibido no fim do século passado, com grande êxito, em teatros das grandes capitais do mundo.

Enquanto assistia à peça, com mais de três horas de duração, lembrei-me da minha chegada em 2017 ao aeroporto de Ho Chi Minh (capital que tem Saigon como seu próprio fantasma) e da imediata deslocação e visita ao complexo de Cu Chic, inaugurado em 1979, com a sua rede de 250 quilómetros de túneis em que viveram 16 mil vietcongs combatentes da resistência durante as guerras contra a França e E.U.A.. Este centro turístico com albergue, piscina, restaurantes, um setor de tradição revolucionária e um templo comemorativo dos mártires é visitado por turistas de todo o mundo. Já anoitecia quando chegámos ao centro de Ho Chi Minh com os seus letreiros luminosos que coroam as cristas da cidade de capitalismo pujante com suas modernas estruturas comerciais. E pensava nas personagens da peça e o seu lamento com o país forjado numa nova identidade sem a sua participação. 

No restaurante de comida africana onde almocei, a dado momento sentou-se um velho guineense que me disse ter sido sargento da tropa de Comandos “no tempo em que o Spínola foi governador, no início dos anos setenta do século passado. Sou um dos quatrocentos mil que lutamos ao lado dos portugueses na guerra colonial e depois da independência tive que fugir para o Senegal para não ser morto. E não tenho nenhuma pensão.” Depois referiu-se ao seu irmão que lutava pelo PAIGC, estavam em campos opostos “e eu como todos os comandos negros fomos considerados traidores de raça e de classe e fui abandonado à minha própria sorte. Venho aqui ao restaurante quando arranjo algum dinheiro para comer os sabores da minha Guiné”, acrescentou.

Neste nosso mundo já não há colónias, mas há um século que não atravessámos um período tão complexo e sombrio. Terrorismo, crises financeiras (que enfraqueceram os sistemas democráticos e fortaleceram os oligarcas na política) climáticas e sanitárias com um vírus que provocou mais de um milhão de mortos na maior potência mundial (os E.U.A. perderam mais vidas com o Covid do que nas guerras da sua política externa belicista) e recentemente a guerra na Ucrânia e crises internacionais em várias frentes.

Enfim, guerras, refugiados, populações deslocadas, exílios, preconceitos que se estimulam…a tragédia transformada em teatro da vida.

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Jacinto Rego de Almeida

Jacinto Rego de Almeida nasceu no ano de 1942 em Alcanhões (Santarém), onde reside atualmente. Entre 1968 e 2004 viveu no estrangeiro, exilado até 1974 e no exercício do cargo de conselheiro económico da Embaixada de Portugal no Brasil após a Revolução de 25 de abril. Os seus livros abrangem os domínios da crónica, conto, romance e literatura de viagem. Saber mais: https://www.wook.pt/autor/jacinto-rego-de-almeida/9638
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