O primeiro dia do ano

A história das línguas e de tudo o que é humano é uma mistura entre a ordem e a desordem. Encontramos lampejos de lógica num ponto, para ver como tudo está desarrumado mesmo ao lado. Isto acontece nas línguas e em muitos outros sistemas humanos. Por exemplo, o primeiro dia do ano: os Romanos, ainda antes do primeiro século da nossa era, já tinham decidido que seria a 1 de Janeiro; mas, durante a Idade Média, em muitos pontos da Europa, foram usadas outras datas. Uma das preferidas era o dia 25 de Março. O Calendário Gregoriano, que hoje usamos, garantiu que o início do ano se colou ao dia 1 de Janeiro, sem grandes probabilidades que dali venha a sair.

Ainda encontramos, no entanto, alguns resquícios do ano a começar a 25 de Março. O dia em que George Washington nasceu era, para os contemporâneos, o dia 11 de Fevereiro de 1731 — e Fevereiro era o penúltimo mês do ano. O novo ano era celebrado, em Inglaterra e colónias, no dia 25 de Março (por cá, o dia 1 de Janeiro já era o primeiro dia do ano havia muito tempo). Anos depois, a Inglaterra aceitou o Calendário Gregoriano, retirando 11 dias ao calendário e alterando o início do ano para 1 de Janeiro. Resultado? Hoje em dia, o aniversário de George Washington está nos livros como tendo ocorrido no dia 22 de Fevereiro de 1732 — mas nas obras mais antigas, ainda encontramos a data antiga.

Outro resquício do antigo Novo Ano à inglesa? Os ingleses mudaram o ano civil, mas esqueceram-se do ano fiscal, que ainda hoje começa no dia 6 de Abril (o dia 25 de Março no calendário antigo).

O calendário é uma mistura de matemática exacta e destroços de palavras antigas, de números e nomes que, ao mesmo tempo, tentam descrever a aparente ordem com que os astros percorrem o nosso céu, marcando o ritmo das horas, dos dias, dos anos. Não há calendários perfeitos — tal como não há gramáticas perfeitas ou maneiras perfeitas de descrever o mundo. A tensão entre as nossas tentativas de ordenar os sistemas que usamos (o calendário, a língua…) e a nossa simultânea propensão para escapar a essa ordem, em desarrumações que nos põem o coração a bater mais depressa — é essa tensão que torna a linguagem e tudo o que é humano tão, mas tão interessante.

Feliz Ano Novo!

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Marco Neves

Docente na NOVA FCSH e investigador no CETAPS. É tradutor desde 2002 e autor de vários livros sobre a língua portuguesa e a linguagem humana. Escreve regularmente no SAPO 24 sobre temas linguísticos e mantém a página Certas Palavras (www.certaspalavras.pt).
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