Minhas amigas, meus amigos,
Finalmente surge na imprensa (BBC Brasil) uma matéria equilibrada e sensata sobre as divergências geradas (muito artificialmente) pelo Acordo Ortográfico, que este ano está chegando ao seu vigésimo quinto aniversário de assinatura. É absolutamente inacreditável a quantidade de bobagens que se têm escrito e falado sobre essa questão, de um lado e outro do Atlântico. Bobagens proclamadas não apenas por aqueles que nada sabem do assunto mas insistem em opinar, como também – o que é bem mais grave – por alguns escritores, intelectuais e até professores portugueses, brasileiros e angolanos, sobretudo. A matéria em questão trata, como se verá, da situação em Portugal, mas teríamos muito a acrescentar sobre as tolices veiculadas no Brasil.
Recentemente tive o desprazer de ter que enviar ao jornal Folha de São Paulo duas Cartas do Leitor, para introduzir alguns reparos sobre duas diferentes matérias publicadas e assinadas por figuras de destaque no país, uma delas conhecido e respeitado biógrafo e colunista do jornal. Se tiverem paciência, leiam uma dessas notas ao final, mas não deixem de ler a esclarecedora matéria da BBC Brasil abaixo transcrita.
Um abraço,

Lauro Moreira

‘Imposição do Brasil’ ou língua do futuro? Acordo ortográfico divide Portugal

Portugal não se entende sobre o Acordo Ortográfico. Criado com o objetivo de aproximar as diferentes variantes do idioma, o instrumento é encarado por parte dos portugueses como uma imposição da versão brasileira da língua e uma ameaça real a um dos símbolos de maior orgulho do país europeu.

Diversas razões são apontadas para justificar essa sensação de domínio brasileiro sobre a nova ortografia. Entre as principais, está a retirada das consoantes mudas da escrita lusa, alterando a grafia de palavras como “óptimo” e “acto” para a maneira adotada no Brasil.

Segundo o Ministério da Educação brasileiro, o Acordo Ortográfico altera 1, 3% dos vocábulos portugueses e 0, 8% dos brasileiros. Ratificado em 2008, será obrigatório no Brasil a partir de 1º de janeiro de 2016, enquanto isso ocorreu em Portugal em maio passado.

“Os nossos governantes impuseram-nos um modelo que nada tem a ver connosco. E não é porque o Brasil fala assim que vão nos obrigar a fazê-lo”, diz à BBC Brasil a professora de filosofia e escritora Maria Saraiva de Menezes, que faz parte de um crescente movimento contrário ao acordo.

“A língua evoluiu naturalmente no Brasil para essas alterações. Aqui em Portugal, não. Portanto, a imposição não tem fundamento.”

Referendo popular

Nos últimos meses, Maria de Menezes e outras centenas de portugueses – entre eles políticos, acadêmicos e artistas – têm saído às ruas para recolher assinaturas com a esperança de conseguir um referendo popular que discuta o Acordo Ortográfico. Os manifestantes cobram o direito de debater abertamente o tema, que teria sido tratado apenas na esfera política.

“A população não foi ouvida quando o acordo foi firmado ou implantado, e temos certeza de que a maioria de nós, portugueses, é contrária a ele. Temos o direito de debater abertamente sobre um assunto tão importante, que tem influência direta no nosso país”, argumenta o jurista Ivo Miguel Barroso, administrador do grupo virtual “Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico de 1990”, que reúne quase 30 mil pessoas no Facebook.

Defensor da unificação das grafias, o escritor e ex-eurodeputado por Portugal Rui Tavares acredita que, por trás da visão “extremada” de parte de seus compatriotas, estaria uma espécie de “complexo de inferioridade” despertado por problemas que o país europeu enfrentou nos últimos anos.

“A visão extremada sobre o acordo é uma mera projeção dos portugueses em relação a suas próprias fraquezas. O país atravessa por um momento de crise e isso acaba por fazer com que muita gente interprete qualquer coisa como um sinal de vulnerabilidade”, diz Tavares.

“Para mim, é um mistério o fato de algumas pessoas considerarem o acordo algo até humilhante. Isso revela uma visão complexada.”

Outro notório “acordista”, o professor catedrático Carlos Reis, coordenador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, argumenta que apenas uma parcela ínfima dos portugueses resiste às novas regras, por não aceitar que Portugal, nos últimos 40 anos, tenha deixado de ser o “proprietário” do idioma para ser mais um “condômino”, junto com outras sete nações.

“Convém não confundir a agressividade de algumas pessoas – e de um determinado jornal, em particular, que é das poucas exceções à regra – com a realidade das coisas. Outras exceções acontecem por ignorância e falta de preparação, não por vontade de contrariar o Acordo Ortográfico”, afirma Reis.

Interesse da mídia

Desde que a nova ortografia passou a ser obrigatória, a maior parte da mídia local optou por adotá-la, mesmo com a oposição de parte de seus funcionários.

“A verdade é que, entre jornalistas e escritores portugueses, praticamente ninguém é a favor desse acordo. Mas, como são profissionais, acabam aceitando-o, por lhes ser imposto por seus empregadores”, afirma o jornalista Nuno Pacheco, fundador do jornal , a principal voz contra o Acordo Ortográfico na imprensa lusa.

Justificativas não faltam para que a maioria dos veículos de comunicação portugueses abrace o acordo, mesmo supostamente contrariando a vontade dos seus jornalistas.

Geograficamente limitados a uma população de pouco mais de 10 milhões de pessoas, a oportunidade de se aproximar de um mercado como o brasileiro, mesmo que este passe por um momento de instabilidade econômica, é considerada importante demais para ser menosprezada.

“A existência de um espaço comum para a língua portuguesa é absolutamente chave para a otimização das oportunidades e o aproveitamento cultural, social e econômico possibilitados por uma língua moderna, culta, viva e falada por quase 300 milhões de pessoas, das quais mais de 200 milhões estão no Brasil”, explica o executivo Miguel Gil, membro do conselho de administração do grupo Media Capital, um dos mais importantes do país europeu.

“Obviamente Portugal é o primeiro país interessado nisto, e o Brasil é o principal país para a natural expansão e crescimento das atividades das empresas de mídia portuguesas.”

O desejo de expandir os negócios para o Brasil fica mais evidente quando explicado por números. No fim de 2013, cerca de 90 milhões de brasileiros já eram utilizadores da internet, enquanto os internautas portugueses chegavam a somente 5, 7 milhões.

Esse abismo também é constatado no investimento em publicidade na mídia, que no mercado brasileiro gerou um volume de R$ 121 bilhões em 2014, enquanto em Portugal somou apenas R$ 1, 64 bilhão no mesmo período. Para Nuno Pacheco, porém, não será o Acordo Ortográfico o responsável por escancarar as portas do mercado brasileiro às empresas de mídia portuguesas.

“Esta é uma ilusão que foi criada para justificar as mudanças. O português do Brasil e o de Portugal seguiram caminhos distintos, tanto no vocabulário quanto na construção verbal, e o acordo não muda isso”, diz Pacheco.

“O que deveríamos fazer é investir em dicionários unificados, que expliquem os diferentes termos e a qual variante da língua eles pertencem. Isso faria com que nos entendêssemos de verdade, e sem abrir mão das particularidades que o idioma tem em cada local onde é falado.”

Idioma na contramão

Os avessos à ortografia unificada alegam ainda que a mudança faz com que o português ande na contramão da evolução dos idiomas, contrariando uma tendência universal de multiculturalidade.

“Estamos caminhando no sentido contrário ao restante do mundo. A diversificação é uma característica valorizada por todos os idiomas. Não faz sentido que caminhemos na direção oposta”, diz Pacheco.

“Se o inglês tem 54 versões da língua, respeitando as diferenças culturais onde é falado, mas mantendo a matriz para a qual é sempre possível remeter em caso de filiação, por que razão o português quererá meter num caldeirão a língua falada em vários continentes e dizer que é tudo igual, quando na realidade não é?”, questiona Maria de Menezes.

Rui Tavares discorda dessa visão e acredita que, em vez de arrastar o português para o passado, a nova ortografia abre caminho para um importante desenvolvimento da língua no futuro.

“Ficamos muito tempo agarrados a discussões extremadas. Agora que temos um acordo aplicado, temos de ultrapassar as polêmicas e trabalhar em conjunto para divulgar o português no cenário internacional, fazê-lo ganhar força em organismos políticos mundiais como a ONU. Todos temos muito a ganhar com isso, especialmente os portugueses, apesar de alguns ainda não se darem conta disso.”

Nota enviada à Folha de S.P.

“ACORDO ORTOGRÁFICO

Difícil acreditar que até hoje haja alguém no Brasil – jornalista ou autoridade – discutindo questão inteiramente ultrapassada, como a do Acordo Ortográfico, assinado 25 anos atrás. “Saudade do trema” (Opinião, 20/07/15) nos informa sobre opinião emitida pelo Ministro da Cultura, após visita a Portugal.

Durante quatro anos (2006-2010), como Embaixador do Brasil junto à CPLP, estive envolvido nesse assunto. Sabemos que um acordo ideal, que promova total unificação da escrita jamais poderá ser alcançado, em razão da variedade fonética observada na língua falada no Brasil ou em Portugal.

Ademais é preciso não confundir unificação com uniformidade, e ter em mente que não existe nenhuma ortografia sacralizada pela tradição.

O importante, para além das pequenas modificações ortográficas (0, 6% das palavras no Brasil, 1, 4% em Portugal) é que o AO finalmente reunificou aquilo que sempre fora unificado, e que se bifurcara irremediavelmente em 1911 em decorrência de Reforma unilateral implantada por Portugal. Assim, o AO veio eliminar uma aberração insustentável: o convívio forçado de duas ortografias oficiais e excludentes.

E ao contrário do que diz o articulista, o AO em Portugal passou a ser aplicado na área governamental em janeiro de 2008 e alcançou sua plena vigência em 13 de maio último, data de vencimento do prazo de seis anos para adaptação.

No Brasil, o Presidente Lula assinou em setembro de 2008 três decretos criando um cronograma para entrada em vigor até janeiro de 2013. Em decisão até hoje inexplicável, a Presidente Dilma resolveu, em dezembro de 2012, mudar essa data para 2016, reabrindo a discussão de algo que já estava mais que incorporado à vida do país.

LAURO MOREIRA, Embaixador aposentado

Partilhar