Quando se diz que se deve suprimir os hífenes nos compostos ligados por preposição (excluindo-se as espécies botânicas ou zoológicas), urge ter em atenção aqueles que formam uma unidade de sentido.

Sendo assim, por exemplo, a palavra colher-de-sopa, sinónima de concha, deverá manter o hífen, de modo a evitar ambiguidades do tipo colher de sopa de ervilhas, sem hífenes, pois cada palavra tem o seu sentido próprio.

O mesmo acontece com pés-de-galinha (rugas), pé-de-atleta (micose), ou pó-de-arroz (produto cosmético).

No caso da palavra pinheiro-do-brasil, tratando-se de uma espécie botânica, tem de ser escrita com hífenes, caso contrário, seria um pinheiro que poderia ser plantado no Brasil, no Canadá ou na China. E, nessa situação, a palavra Brasil deveria ser grafada com maiúscula.

Ainda em relação a China, a palavra tinta-da-china deverá ser igualmente escrita com hífenes, pois, se não o fosse, a palavra não formaria um conjunto com sentido único, que especifica o tipo de tinta.

De facto, muito se tem dito a propósito do hífen, mas o conhecimento do sentido das palavras em determinados contextos e das regras que são inerentes à sua escrita são fundamentais. Daí que não haja nenhum programa informático capaz de interpretar essas diversidades.

Ora, tem-se verificado uma interpretação abusiva do 6.º ponto da Base XV do Acordo de 1990, que apontava para o projeto de 1986, no sentido da eliminação dos hífenes em compostos ligados por preposição. Porém, é indispensável refletir sobre os pontos 6.2 e 6.3 das Notas Explicativas do Acordo de 1990 e não tornar casos excecionais os apontados como meros exemplos (água-de-colónia, arco-da-velha, pé-de-meia).

Relativamente às locuções gramaticais (pronominais, adverbiais, prepositivas, conjuncionais) já não tinham hífenes na norma de 1945: a fim de, a par de, à parte; à vontade, abaixo de, acerca de, acima de, apesar de, ele próprio, por conseguinte, visto que… As que poderão dar lugar a algumas ambiguidades são as substantivas e as adjetivas, sempre que a omissão do hífen possa dar lugar a diferentes interpretações da palavra. Por isso, nas palavras cão de guarda, sala de jantar ou fim de semana a eliminação dos hífenes é pacífica, uma vez que todas as palavras do grupo apontam para o sentido real da palavra que designam. Sendo assim, não se compreende a excecionalidade da palavra cor-de-rosa, com hífenes, em relação, por exemplo, a cor de laranja, cor de açafrão, cor de vinho.

Em conclusão, a língua portuguesa é densa e complexa. Dominá-la é uma tarefa árdua e descobrir os significados das mensagens é um desafio para os que a utilizam corretamente. Os programas informáticos são limitados nessa decifração de sentidos.

* Professora de Português e formadora do acordo ortográfico

jn.acordoortografico@gmail.com

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