5 March 2021
O fotojornalista Mário Cruz, da agência Lusa, venceu o primeiro prémio na categoria "Contemporary Issues" da edição deste ano do World Press Photo, com um projecto pessoal sobre o tráfico e exploração de trabalho infantil no Senegal, com crianças senegalesas e guineenses, 18 de fevereiro de 2016 em Lisboa. TIAGO PETINGA/LUSA

O fotojornalista da LUSA, Mário Cruz, premiado no concurso World Press Photo

Lisboa, 18 fev (Lusa) – O fotojornalista Mário Cruz, distinguido no concurso World Press Photo, afirmou hoje à Lusa que a reportagem hoje premiada poderá chamar mais a atenção para o caso de escravatura e exploração de crianças no Senegal.

Mário Cruz, 28 anos, foi um dos fotojornalistas premiados hoje no concurso internacional World Press Photo, com uma reportagem que fez em 2015, no Senegal e na Guiné-Bissau, testemunhando a vida de crianças que são exploradas para trabalho infantil.

O fotojornalista, que trabalha na agência Lusa desde 2008, contou que passou seis meses a fazer investigação, tirou uma licença sem vencimento e rumou em 2015 àqueles dois países, onde passou um mês e meio a fotografar.

Mário Cruz tomou conhecimento daqueles casos quando em 2009, numa reportagem na Guiné-Bissau, ouviu relatos de histórias de crianças que desapareciam e que estariam a ir para o Senegal para servirem de escravas para líderes religiosos muçulmanos.

“Eu fiquei com aqueles relatos na cabeça e passados uns anos de fazer uns projetos em Portugal – porque quis começar por fazer em Portugal – decidi que estava preparado e que queria fazer uma reportagem sobre o que se estava a passar”, contou à agência Lusa.

A reportagem fotográfica agora premiada pela World Press Photo revela, num registo a preto e branco, crianças enclausuradas, presas com correntes, deitadas no chão ou a mendigarem nas ruas.

Estas crianças são mantidas em “daaras”, escolas para onde são enviadas supostamente para terem uma educação muçulmanda, e sobre as quais a polícia desconhece muitas vezes a localização.

“Encontrei condições completamente desumanas. Apesar de ter feito muita investigação, não deixou de me surpreender porque a dimensão é ainda maior do que eu esperava, porque uma coisa é ler dados outra coisa é vê-los. Assustou-me ainda mais a indiferença, porque as pessoas sabem que aquilo existe, sabem que problema acontece todos os dias”, contou.

Mário Cruz recorda que no Senegal existe o dia nacional do “talibé” – nome pelo qual aquelas crianças são identificadas -, mas o governo senegalês nada fez ainda para acabar com aquela situação.

Com o primeiro prémio conquistado hoje, na categoria “Contemporary Issues”, Mário Cruz diz que nada vai mudar na maneira como olha para o mundo e para o fotojornalismo, embora alerte que hoje é “cada vez mais é complicado publicar, ter espaço para publicar reportagens, histórias”.

“Eu sinto que a fotografia é mais do que nunca importante, sinto que é muito desvalorizada, o que não me deixa com o pensamento muito positivo. Hoje é um dia bom para o trabalho, porque estas crianças vão ter visibilidade, vai-se falar do tema, mas não mudo a minha maneira de olhar para a profissão e para a área da fotografia, que eu acho que já merece mais investimento e valorização”, afirmou.

Nascido em Lisboa em 1987, Mário Cruz estudou no Cenjor e trabalha na agência Lusa. Em 2014 venceu o prémio de fotojornalismo da Estação Imagem Mora, com a reportagem “Cegueira recente”.

No ano passado, a reportagem “Roof”, sobre a crise em Portugal, retratando a realidade de quem vive em locais abandonados de Lisboa, valeu—lhe o prémio Magnum “30 Under 30” e esteve em destaque no New York Times.

O Grande Prémio do World Press Photo foi atribuído ao fotógrafo australiano Warren Richardson, com uma reportagem fotográfica feita em agosto de 2015 com refugiados na fronteira entre a Sérvia e a Hungria.

A fotografia vencedora, a preto e branco, mostra um homem a tentar passar uma criança por baixo de um arame farpado.

SS // SO – Lusa/fim

 

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