Estado, Timor-Leste, 10 jun (Lusa) – Mau Pelo, liurai timorense, 70 e tal anos – não sabe ao certo -, fato monárquico português do século XIX, azul-escuro cruzado por duas faixas rosa, sujas, tem as mãos secas, finas e cheias de sulcos, apoiadas em duas bengalas.

Está sentado numa cadeira de plástico, hirto, quase parece de cera, no interior de uma pequena casa de cimento, branca e azul, no topo de uma escada, também de cimento, com degraus ingremes e de uma altura que obrigam a uma subida pouco natural até lá cima.

Se calhar é propositado, para que nesta casa mais moderna imitem a altura dos degraus de madeira que se tem que subir para chegar à casa tradicional em si, a Uma Lulik, a casa sagrada, do outro lado do largo, em cuja sombra brincam quatro ou cinco miúdos.

Mau Pelo vestiu-se propositadamente para receber a reportagem da Lusa, guiada nesta viagem ao passado por uma equipa do Arquivo e Museu da Resistência Timorense, em Díli, liderada por um seu familiar, Álvaro Rosário Vasconcelos.

O fato está desgastado, com as insígnias nos punhos a desfazerem-se, botões dourados, cada um com as armas de Portugal, as duas bengalas de madeira, decoradas com um punho também dourado, marcado por desenhos de flores e conchas.

Mas é quase um milagre que algo do século XIX, que já esteve escondido em buracos em vários pontos de Timor-Leste ainda esteja neste estado. Ou que sequer exista.

Como é ainda mais milagroso que tenha sobrevivido – apesar do mau-estado em que já se encontra – o que chama aqui os mais curiosos: uma bandeira de D. Maria I, enviada para Timor-Leste e que tem sido guardada, ao lado de vários documentos – esses ainda em pior estado – incluindo um alvará real.

Primeiro foi Mau Dua, depois Manuel – “não tem nome gentio” – depois Mau Pelo. O seguinte chama-se Domingos Lemos e já ajuda o liurai, a mostrar os documentos e a bandeira, a fazer a bênção com malus, areca e betel ao parente que serve de guia nesta viagem, Álvaro Rosário Vasconcelos.

Álvaro também é descente direto da linhagem que deveria cuidar a bandeira, mas a honra ficou com Mau Pelo e quando este morrer passará para o jovem Domingos Lemos, que já é chefe de suco.

Ainda que hoje, como admite, os mais jovens liguem muito menos a estas coisas e os liurais estejam menos presentes na vida diária de Timor-Leste e dos timorenses.

O culto à bandeira de Portugal, tanto a monárquica com a republicana, a um vínculo várias vezes celebrado por reinos timorenses ainda hoje é, para muitos, algo incompreensível, mal percebido, mal interpretado.

Foi lido, erradamente, como um ato de resistência à ocupação indonésia quando na prática, como esta bandeira desbotada e degradada o demonstra, já era um símbolo sagrado para os reinos timorenses muito antes, há vários séculos.

Contam os Lia Na’in, os ‘pais’ da oralidade histórica e da ligação timorense ao seu passado, que as bandeiras representam alianças históricas, muitas vezes confirmadas com os inquebrantáveis pactos de sangue.

Aqui, neste mundo dos reinos timorenses, em Hatumatei, no pequeno suco de Estado, no município de Ermera, sul de Díli, tudo é monárquico, ou pelo menos a pretender ser nobre, até no surreal, como num dos paus de bandeira que decoram o exterior da pequena casa.

Num deles uma bandeira, em tom avermelhado com símbolos estranhos, na outra, talvez pela coroa que agora o próprio clube retirou do seu símbolo oficial, uma bandeira do Real Madrid.

“Rego Real anti barça”, lê-se em grafiti na parede de uma das poucas casas que habita o largo desta vila animista que, por sua vez é observado, como não podia deixar de ser e como em cada terra de Timor-Leste, por uma capela, instalada no alto do monte mais próximo.

Esta é uma viagem no tempo, até ao final de uma estrada, até este largo dominado por uma árvore gigantesca sob a qual se fazem muitos dos encontros comunitários e em cujo tronco, cobertas com pedras de vários formatos, estão duas caveiras da 2ª Guerra Mundial.

Esta é uma visita curta ao mundo tradicional ‘lulik’, sagrado, animista, que luta por sobreviver perante a marcha impassível do tempo e contra a passividade e o desinteresse que foi crescendo, a par da melhoria de vida, do fim da ocupação indonésia, da ‘normalidade’ que levou a que este espaço de crença deixasse de ser o refúgio de outrora.

Esta é também uma viagem ao surrealismo, ao combate entre o moderno e o antigo, entre o progresso que avança, encosta acima com brigadas que colocam alcatrão nas estradas, e o quase silêncio do passado de Estado, uma viagem ao choque entre animismo e ‘lulik’ e o ‘maromak’ católico.

Uma viagem de símbolos estranhos, dos chifres de búfalo que decoram a entrada da casa tradicional, à velha roupa de nobre, de Mau Pelo, sentado na cadeira de plástico importada da Indonésia, o rosto magro, escavado, mais enrugado que a bandeira que cuida.

São apenas cerca de 70 quilómetros entre Díli e Estado – em que os últimos 10 ou 15 demoram uma hora, numa estrada de buracos e pedras, que parece entrar floresta dentro – mas uma distância de forma e de conteúdo muito maior.

Uma distância que, inversamente, aproxima reinos, tempos, realidades, o físico e o espiritual.

ASP // PJA – Lusa/Fim

Observatório da Língua Portuguesa
autores Observatório da Língua Portuguesa

Partilhar