3 March 2021
O chamado retrato de Camões na prisão foi revelado por Maria Antonieta Soares de Azevedo em 1972 e parece anterior ao de Fernão Gomes e ao da casa Rio Maior.

O chamado retrato de Camões na prisão …

Sendo um testemunho muito importante, este retrato não é propriamente uma obra de arte. A peça é de execução tão imperfeita quanto colorida. O desenho é tosco e desajeitado, com flagrantes erros de perspectiva e de escala. Mostra um Camões arruivado, de guias do bigode assimétricas, sentado a uma mesa, segurando uma travessa na mão direita e uma pequena peça escura na esquerda. Estará prestes a trabalhar num dos cantos de Os Lusíadas (o décimo para Maria Antonieta Soares de Azevedo).

O poeta parece dispor de um certo “conforto intelectual”: vemos vários cartapácios na parede, pode consultar uma carta geográfica que tem perto de si, certamente para verificar qualquer afirmação ou referência do poema. Mas o gibão está roto na manga esquerda e a comida representada não parece abundante, não percebendo bem que objecto mostra na mão esquerda.

Pode confirmar-se que ele está a trabalhar no Canto X exactamente por ter aquela carta geográfica aberta para consulta. Isto porque, n”Os Lusíadas, na descrição geográfica da Europa, feita no Canto III (6-20), não faria qualquer sentido serem representadas as embarcações que ali são figuradas. Não assim na longa descrição geográfica da Ásia feita no Canto X (10-73), entremeada com as profecias dos feitos dos portugueses. Embarcações semelhantes às representadas nessa carta, movidas à vela (com a cruz de Cristo) e a remos, podem ver-se desenhadas no Roteiro do Mar Roxo, de D. João de Castro.

Não sabemos se a prisão em que o poeta se encontra é a de Goa ou a da Ilha de Moçambique. Seria muito perto da água, uma vez que, da cela, se avistam dois mastros de navio pela janela do lado esquerdo. Na planta de Linschoten (1596), vemos que o tronco de Goa não ficava propriamente à beira da água, mas mais recuado. Já na Ilha de Moçambique, que é uma estreita língua de terra, de 3 km de comprimento com uma largura entre os 300 e os 500 m, seria praticamente impossível não estar junto à água, o que explicaria a proximidade das embarcações.

No cartão que constitui a parte de trás do retrato, informa-se o seguinte, em letra que pode ser do século XVI: “Luis de Camões prezo e tendo aos pés quem quis perdelo. Pintado nas Indias e foi do propio.” E mais abaixo, em letra de fins do século XVIII (sempre segundo a já referida investigadora), está colada a tarjeta dizendo que o “(pai)nel pertenceu a Sr Marquez de Sande é hoje de Joze Antonio de Saldª e Sousa, Conde da Ponte”.

A biógrafa do marquês de Sande e primeiro conde da Ponte, Teresa Schedel Castelo-Branco, pondo sérias dúvidas à posse do retrato pelo marquês de Sande, dá importantes achegas no tocante à cadeia de proprietários da peça e que podem resumir-se assim: em 1650 morre o Dr. Gregório Mascarenhas Homem. No apanhado feito para o seu inventário orfanológico, a dada altura, referem-se várias obras de pintura e menciona-se, entre elas, “o retrato do Camoens”. Por via sucessória, a 5.ª condessa da Ponte veio a recebê-lo. Casou em 1758 com José António de Saldanha e Sousa, autor da segunda parte do letreiro que está no verso da imagem, havendo engano dele quando escreve que a peça tinha pertencido ao marquês de Sande, também 1.º conde da Ponte.

Aquele Gregório de Mascarenhas Homem era neto de Vasco Fernandes Homem, que foi contemporâneo de Camões e esteve com ele na Ilha de Moçambique em 1569.

Vasco Fernandes Homem seguiu com Francisco Barreto na expedição ao Monomotapa. Duas das três naus dessa viagem foram parar ao Brasil, sendo que numa delas seguia Francisco Barreto. A nau de Vasco Fernandes Homem chegou à ilha em Julho de 1569.

O poeta regressou ao reino em 1570. Embora não se saiba a que título, é de conjecturar que o retrato, que “foi do próprio”, tenha entrado na posse daquele Vasco Fernandes Homem nessa ocasião, por oferecimento do poeta ou a qualquer outro título, o que explicaria tenha mais tarde passado às mãos de seu neto, o Dr. Gregório Fernandes Homem.

Por sua vez, a nota que se encontra no verso, “Luís de Camões preso e tendo aos pés quem quis perde-lo”, permite deduzir que o borrão que impede se reconheça “quem quis perdê-lo” só ocorreu posteriormente à feitura de tal inscrição.

VASCO GRAÇA MOURA (9-10-2013)

Fonte: DN Opinião

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