Mais de metade dos católicos vive hoje na América Latina ou em África, mas a Igreja ainda é eurocêntrica.

Nas últimas três décadas, o centro de gravidade do catolicismo mudou do ocidente para o sul. Hoje, segundo os dados mais recentes, quase 40% dos quase 1, 2 mil milhões de católicos do mundo estão na América Latina e mais de um quarto estão na África Subsaariana (16%) ou na Ásia/Pacífico (12%).

Os três países com mais católicos são o Brasil (134 milhões), o México (96 milhões) e as Filipinas (76 milhões), lembrou à Lusa o bispo de Lamego e presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, o “ministério” da Igreja Portuguesa para os missionários.

Além da mudança geográfica, disse António Couto, o catolicismo está “a rejuvenescer em todo o mundo e na Europa está em franco marcar passo”.

“O velho continente foi o berço da cristianização e da evangelização, mas hoje [a Igreja europeia] está apagada, indiferente, anestesiada, anódina”, enquanto em África, na América Latina e na Ásia a igreja está “pujante e cheia de vida”, exemplificou.

Com efeito, enquanto muitas igrejas da Europa e da América do norte estão hoje vazias e algumas dioceses declaram falência, os templos em África ficam lotados todos os domingos; enquanto as celebrações europeias são vistas como demasiado formais e ritualísticas, as missas africanas são uma festa de cânticos e danças.

O bispo dos missionários reconheceu que a Igreja está “numa espécie de encruzilhada” e espera por isso que o próximo papa seja “alguém com ideias abertas, lúcidas e talvez um bocadinho novas, dinâmicas, abertas e enérgicas”.

“Um bocadinho de energia e sangue novo ajudaria muito a igreja a crescer”, defendeu.

O padre Tony Neves, provincial dos missionários Espiritanos, defendeu também que a eleição de um papa não europeu, não só faria sentido, como seria “um sinal muito bonito para a Igreja”.

“Se a Igreja é católica e universal, não tem de partir do pressuposto de que o papa tem de ser europeu, como tem sido nos últimos tempos”, disse.

No entanto, o líder dos Missionários do Espírito Santo em Portugal defende que não se deve pensar a figura do papa de uma forma regional. O próximo pontífice, “venha ele de onde vier, terá de ser o papa do mundo inteiro” e terá de ter “horizontes larguíssimos”, defendeu.

A atual discussão em torno da origem geográfica do próximo líder da Igreja católica não deve dar a ideia de que há uma regionalização da Igreja, mas sim “ajudar a perceber que a Igreja católica não é a Europa e o norte da América, é o mundo inteiro”, argumentou Tony Neves, lembrando que é precisamente “fora do habitat clássico” que os católicos mais têm crescido.

O sacerdote admite que “tem havido algum eurocentrismo na gestão da Igreja” que, embora natural, “porque foi aqui que ela ganhou raízes”, tem tido consequências ao longo dos 20 séculos de história do cristianismo.

Tony Neves lamentou que as culturas africanas, latino-americanas e asiáticas tenham sido pouco consideradas: “Mesmo na forma de celebrar, de o latim continuar a ser a língua oficial”.

“O Vaticano tem regras litúrgicas que estão focadas na cultura europeia. Quando em África as pessoas dançam o dia todo e por isso na missa dançam do início ao fim, há a tendência, a partir de Roma, para dizer que isso não é bom, que não cria clima de recolhimento”, exemplificou.

O religioso diz que “há um certo eurocentrismo que tem de ser ultrapassado”, mas acredita que não é necessário que o próprio papa venha do sul para que isso aconteça, embora assuma alguma preferência por um papa africano como o ganês Peter Turkson.

E o bispo António Couto, embora confesse que gostaria de ver eleger um papa latino-americano, concorda: “O que eu desejo, o que eu sei, é que venha o papa de onde vier – da África, da Ásia, da América Latina ou da Europa – será certamente alguém que vai (…) ajudar a igreja a revitalizar-se”.

FPA // PJA

Lusa/fim.

Foto: Basílica da Santíssima Trindade, uma obra da autoria do arquiteto grego Alexandros Tombazis, Fátima, 12 de outubro de 2012. PAULO CUNHA / LUSA

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