2 March 2021
LUÍS FORRA/LUSA

O árabe padrão ou literário é uma língua “comum” que não tem nenhum locutor como língua materna.

Existe um árabe “padrão” e mais de 25 árabes dialetais, os quais constituem todos, evidentemente, línguas vivas

29/10/2012

(…) Antes de abordar a questão do ensino-aprendizagem da língua árabe como língua estrangeira, é necessário esclarecer a complexidade que representa este sistema linguístico. De facto, trata-se de uma língua plural considerando, por um lado, o conjunto de variedades que a constituem, que possuem traços linguísticos próprios e que variam em função da situação de comunicação, e, por outro lado, a diferença que existe a nível formal entre o registo escrito e o registo falado.

Sob a designação de língua árabe, pode referir-se tanto o árabe literário[1] como o árabe dialectal. O árabe literário existe em duas vertentes: clássica e moderna. A primeira está presente nos textos árabes antigos da poesia pré-islâmica, e é a língua do Alcorão[2]; é, para os muçulmanos, o veículo da palavra de Deus e de todos os preceitos da religião muçulmana. Mantém-se, portanto, inalterável e tem um estatuto elevado, sendo objecto de estudos corânicos[3], de exegeses estilísticas que consideram a sua estética uma espécie de milagre.

O árabe moderno corresponde à língua actual, apelidada de “árabe contemporâneo”[4]. Assegura as produções técnicas e literárias de todos os países árabes, constituindo a sua língua oficial. Resulta do contacto entre o árabe clássico e as variedades regionais, surgindo como resposta a uma necessidade de flexibilidade e de modernidade a nível das estruturas gramaticais e do vocabulário, para acompanhar a evolução dos tempos. É essencialmente a língua dos discursos oficiais, da imprensa, da literatura contemporânea, das ciências e das tecnologias, das comunicações formais na rádio ou na televisão, por exemplo.

O árabe literário é dotado de um sistema de escrita comum a todos os países árabes. É ensinado nas escolas e não constitui a língua materna de ninguém. Considerado a língua dos letrados, o árabe literário beneficia de um estatuto superior em relação aos outros dialectos[5]. No entanto e apesar de estarem associados a formas de menor prestígio, estes dialectos asseguram desde sempre a comunicação quotidiana e espontânea, constituindo o chamado árabe dialectal.

O árabe dialectal[6] (ou falado) designa todas as variedades em uso nas diferentes regiões do mundo árabe. É a língua usada em situações de comunicação do dia-a-dia, nos domínios privado e público e em produções artísticas como a música, o teatro ou a indústria televisiva e cinematográfica. É a língua materna da maioria da população dos países árabes, exceptuando os berberes[7] do Norte de África, que falam línguas berberes, da família de línguas afro-asiáticas.

Divide-se grosso modo em dois grupos de dialectos: um grupo ocidental formado pelo árabe magrebino (variedade falada em Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Mauritânia) e um grupo oriental constituído por dialectos falados no Egipto, no Sudão, no Médio-Oriente e no Golfo Pérsico. Os dialectos pertencentes a cada um destes grupos recebem geralmente os nomes das áreas geográficas nas quais são falados e apresentam diferenças a nível da pronúncia, do vocabulário e da gramática.

Estas diferenças permitem inteligibilidade e intercompreensão entre falantes de dialectos próximos mas dificultam a comunicação no caso dos dialectos mais distantes. Os falantes do Médio Oriente, por exemplo, têm dificuldades em compreender os Magrebinos devido às influências do substrato berbere no dialecto magrebino, das quais resultam diferenças a nível das estruturas gramaticais. Os Magrebinos entendem facilmente os médio-orientais, pois estão mais familiarizados com o dialecto oriental devido ao fluxo importante das produções artísticas orientais que chegam ao Norte de África.

O árabe dialectal é adquirido naturalmente, e não é contemplado pelo processo de ensino-aprendizagem nos países árabes aos falantes nativos. A língua da escolarização é o árabe literário. No entanto, verifica-se, em contexto escolar, o uso do árabe dialectal no discurso conduzido pelos professores aquando da explicação das matérias. A presença dos dois discursos na sala de aula[8] depende de vários factores tais como: o nível, o tipo de aula, a proficiência dos alunos e a atitude do professor relativamente ao uso das duas variantes.

 

Nadia Bentahar, Contributos para o Ensino do Árabe Marroquino a Falantes de Português, 2006, Tese de Mestrado, Universidade de Lisboa,


[1] Em árabe, diz-se al ?arabiyya al-fu??a Significa “o árabe eloquente”. Na literatura francófona, costuma-se designar por «arabe classique», «arabe littéral» (cf. Marçais (1930) e Blachère (1975)).

[2] Na tradução de Samir Al Hayek do Alcorão O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado, São Paulo: MarsaM, 1994, lê-se no versículo 2 da Surat Youssif (José) “Revelamo-lo como um Alcorão árabe, para que raciocineis”, também se lê no versículo 103 da Surat Annáhl (as abelhas) “o idioma …deste (Alcorão) é a elucidativa língua árabe” e ainda no versículo 37 da Surat Ar-ra d (o trovão) “deste modo to temos revelado para que seja um código de autoridade, em língua árabe”.

[3] Ver Al-Jurjani, Dala?il al-i?jaz, Librairie du Caire, 1969 e AT-Tabarri m. Jami?u l-bayan fi tafsir l-qur?an, Bulaq, Egypte, (1320 de l’Hégire).

[4] «Produit d’une longue évolution, l’arabe contemporain est cette langue intermédiaire qui est plus raffinée que la langue courante. En effet, c’est une variante de langue qui a su conserver ses spécificités et ses structures originelles tout en vivant pleinement sa contemporanéité. C’est pourquoi cet arabe connaît une période de prospérité qui intéresse les différentes disciplines littéraires et scientifiques. Son accessibilité tient à sa simplicité et à sa sobriété qui lui permettent désormais une plus large expansion et la conquête de nouveaux secteurs de l’art restés longtemps l’apanage exclusif du parlé courant. En effet, nous savons aujourd’hui que la langue arabe contemporaine a ravi à son pendant populaire de vastes espaces d’expression au cours du siècle passé» in Abdulaziz Othman Altwaijri (2004)L’Avenir de La Langue Arabe, Publications ISESCO.

[5] Cf. Fergusson, C. A. 1959. Diglossia, Word. 15, 325-340.

[6] Em árabe, diz-se al-?arabiyya ad-darija ou al-?ammiyya. Na literatura francófona encontram-se designações diferentes como: «arabe parlé», «arabe vulgaire», «arabe dialectal», «dialecte arabe », «langue maternelle».

[7] Cf. Camps, G. (1987), Les Berbères. Mémoires et identité, Errance, Paris.

[8] Sobre este assunto, veja-se Tamer, Y. 2003. “Code-Switching In Classroom Discourse, Moroccan Elementary Schools as a Case Study”, AIDA Proceedings, Cadiz, 1-16.

Uma representante dos sete países (além de Portugal, a Espanha, a Itália, a Tunísia, o Egito, a Jordânia e o Líbano) envolvidos Projeto Umayyad ao abrigo do Encontro Internacional de Turismo Cultural, tira uma fotografia durante a visita ao Castelo de Alcoutim, pertença do património edificado, entre castelos e outras construções erguidas durante o califado Omíada, entre os séculos VIII e XI, em Alcoutim, 08 de junho de 2015. O Algarve é a única região do país a integrar uma nova rota turística internacional que visa mostrar os costumes e o legado árabe construído durante a dinastia Omíada, ao longo de mais de 300 anos. LUÍS FORRA/LUSA

Uma representante dos sete países (além de Portugal, a Espanha, a Itália, a Tunísia, o Egito, a Jordânia e o Líbano) envolvidos Projeto Umayyad ao abrigo do Encontro Internacional de Turismo Cultural, tira uma fotografia durante a visita ao Castelo de Alcoutim, pertença do património edificado, entre castelos e outras construções erguidas durante o califado Omíada, entre os séculos VIII e XI, em Alcoutim, 08 de junho de 2015. O Algarve é a única região do país a integrar uma nova rota turística internacional que visa mostrar os costumes e o legado árabe construído durante a dinastia Omíada, ao longo de mais de 300 anos. LUÍS FORRA/LUSA

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2 Comentários do artigo
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