26 February 2021
"Terra, Guerras, Enterros e Desterros" é o título que o escritor e biólogo Mia Couto escolheu, provisoriamente, para o próximo livro, inspirado na situação histórica de Moçambique de 1890 a 1895

Novo livro de Mia Couto

Em entrevista à Lusa, em Lisboa, no final da cerimónia de homenagem pelos seus 30 anos de vida literária, Mia Couto, Prémio Camões-2013, disse que está a escrever um novo livro, em que vai procurar perceber as razões que conduzem as pessoas para uma guerra.

Mas, o poeta e romancista moçambicano está igualmente a produzir um romance que aborda “as construções mitológicas sobre o império de Gaza”, que se localizou no sul de Moçambique, em que pretende questionar o personagem do Imperador Ngungunhana, segundo anunciou à Lusa no início do ano.

“Fui superado por uma outra ideia ligada à situação histórica de 1890-95”, disse, referindo-se a um período que ficou marcado pelo ultimato inglês ao regime colonial português sobre a posse de territórios em África, e da prisão de Ngungunhana.

“Mas esta parte do livro do Ngungunhana emancipou-se, autonomizou-se. Estou a tratar dela, mas, antes do livro do Ngungunhava, eu vou fazer uma coisa sobre guerra em Moçambique, uma guerra no mundo. O que leva as pessoas a se conduzirem para uma guerra, a sentirem que existem para uma guerra”, afirmou Mia Couto, a propósito do futuro livro.

A 11 de janeiro de 1890, Inglaterra exigiu a retirada imediata de Portugal da zona do Lago Niassa, no norte de Moçambique, pondo fim a um ambicioso projeto português de unificação das ex-colónias (Moçambique e Angola).

Portugal cumpriu integralmente a exigência britânica expressa num documento em forma de um memorando e, com isso, evitou o rompimento das relações diplomáticas e um confronto direto entre os dois países.

O ano de 1895 marca a queda de Ngungunhana, após a sua detenção, a 28 de dezembro, por Mouzinho de Albuquerque, oficial de cavalaria português que ficou famoso em Portugal por ter protagonizado a captura do imperador Nguni, em Chaimite, na região de Gaza.

O livro no prelo “é inspirado numa situação em que há um conflito interno. A situação de Ngungunhana era uma situação de conflitos que não eram só com portugueses, havia conflitos internos de povos que em Moçambique resistiam contra essa ocupação dos Nguni”, explicou o romancista.

Mia Couto, o escritor mais lido e traduzido de Moçambique, é biólogo de profissão, por isso avisou sobre a abordagem que fará das obras a serem publicadas, inicialmente no próximo ano, inspiradas numa realidade histórica.

“Quero tratar isso com muito cuidado para não ressuscitar fantasmas. Em Moçambique, as coisas têm sempre leituras (diferentes). Eu quero respeitar isso. Não quero nunca que um livro meu possa prejudicar alguma coisa que para mim é sagrada, que é a construção de uma nação sem sobressalto”, disse.

Na entrevista que concedeu à Lusa em fevereiro a propósito da obra que vai tratar das “construções mitológicas sobre o império de Gaza”, Mia Couto considerou que “há pinturas que são feitas (à volta da figura do imperador Ngungunhana) e a pergunta é essa: quem era esse verdadeiro personagem do Ngungunhana?”.

MMT // VM – Lusa/Fim

Foto: O escritor moçambicano, Mia Couto, dá a aula inaugural na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, intitulada “Da cegueira coletiva à aprendizagem da insensibilidade”, em Maputo, Moçambique, 05 de março de 2012. ANTONIO SILVA / LUSA

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