“O português de Portugal vai deixar de usar o que chamamos de consoantes mudas. Porém, acho que as duas mudanças mais significativas para o português brasileiro representam perda maior, porque são ligadas à maneira com que os brasileiros pronunciam as palavras. É diferente do caso das consoantes mudas que não são pronunciadas”, afirmou Fiorin à Lusa.

O doutor em linguística referiu-se ao fim do uso do trema, que indicava quando a letra u deveria ser pronunciada após as letras q e g, e a queda do acento da base aberta dos ditongos ei e oi em palavras paroxítonas, como em ideia (que, sem o novo acordo, no Brasil seria grafada como idéia).

Fiorin realçou, no entanto, que as análises sobre o acordo não devem ser centradas em quem ganha mais ou quem perde mais, mas sim nos benefícios da unificação.

“Unificar a ortografia significa mostrar a radical vontade de exibir para o mundo a unidade que deve existir entre os países lusófonos. Qualquer consideração entre quem ganha e quem perde está fora de contexto”, disse.

Segundo o professor, o acordo já “está completamente implantado no Brasil” porque os jornais, revistas e livros já utilizam a nova ortografia e “não havia nenhuma necessidade” de se prorrogar o início da obrigatoriedade de 2013, como antes era previsto, para 2016, quando irá começar oficialmente.

As principais diferenças da antiga ortografia para a do novo acordo destacadas por brasileiros ouvidos pela Lusa são a mudança no uso do hífen e nas acentuações dos ditongos.

“Eu acho que, com o tempo, incorporamos, mas, no começo, assusta um pouco. Às vezes vou escrever uma palavra, e olha que estudo bastante, escrevo bastante, e mesmo assim atrapalho-me”, afirmou o escritor Ivan Petrovich, 55 anos.

A mudança antecipada dos livros e da imprensa, desde 2009, facilitou a memorização das regras, segundo o músico Pedro Henrique Dona, 24 anos. “Achei tranquilo. É mais difícil na hora de escrever. Mas, para ler, não”, disse.

O professor de geografia Sergei Alvarez, 40 anos, afirmou que já se sente adaptado, mas que ainda vê nos trabalhos dos seus alunos algumas regras antigas.

A estudante de jornalismo Mariana Bastos, 25 anos, considerou que algumas mudanças deixaram a ortografia mais fácil, mas, no início, geraram confusão, tanto para escolher a opção correta, como para que o leitor considerasse o uso como adequado.

Para a estudante, o período de transição ainda não foi suficiente para que o acordo fosse completamente incorporado.

Já a executiva Tatiane Bernardo, 36 anos, afirmou ter dificuldade em explicar a ortografia ao filho. “Tem o corretor no computador, mas, quando vou tentar explicar, complica”, disse.

O Acordo Ortográfico foi ratificado pela maioria dos países lusófonos, à exceção de Angola e Moçambique. Em Angola ainda nem foi aprovado pelo Governo e em Moçambique aguarda a ratificação pelo parlamento.

Portugal e Brasil estabeleceram moratórias para a aplicação do acordo, estando prevista a entrada em vigor efetiva a 13 de maio e a 01 de janeiro próximos, respetivamente.

FYB // VM – Lusa/Fim

Foto: Uma criança segura um livro durante o cordão humano de leitura em Lisboa no âmbito das comemorações do Dia Internacional do Livro Infantil, 2 de abril de 2011. MARIO CRUZ/LUSA




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