Durante toda a sua vida, Fernando Pessoa publicou apenas um livro, Mensagem, e ainda assim só um ano antes do seu falecimento. Fê-lo a instâncias de António Ferro, uma espécie de ideólogo do regime de Salazar, Director do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) (designação posteriormente alterada para Secretariado Nacional de Informação – SNI), que praticamente criou um concurso para premiar Pessoa e de algum modo ajudá-lo financeiramente, pois o poeta vivia na penúria. Ferro, apesar de algumas diferenças pontuais, divergências que levaram a alguns afastamentos, era um seu admirador e queria ajudá-lo. Como que por ironia, Mensagem não chegou a ser um livro nem a ganhar o prémio. Foi desclassificado pelo júri por não ter o número mínimo de cem páginas requerido.

Desde a primeira hora, Mensagem foi a face mais controversa da obra de Fernando Pessoa. Tomado como um texto político, o silêncio durante muitos anos feito sobre ele deveu-se naturalmente ao regime de censura. A crítica da ideologia da Mensagem, tal como foi percebida pelos mentores do salazarismo, implicaria uma crítica ao próprio regime. Esse silêncio da crítica escrita foi, assim, uma solução imposta.

Hoje sabemos que, mesmo ainda em vida de Pessoa, as opiniões sobre o livro estavam já delineadas e extremadas, e circulavam no país, se bem que nem todas em letra impressa. José Blanco esboçou-nos em traços nítidos o leque ideológico transparecido nas duas críticas conhecidas e publicadas ainda em vida do poeta.[1] Nelas se pode facilmente detectar as duas tendências ·assinaladas por Blanco: a leitura nacionalista estrita, que reivindicava «politicamente o livro como uma peça do ressurgimento de Portugal através do Estado Novo»[2] e, por outro lado, uma outra que reclamava uma leitura muito mais profunda da obra, quer em relação à «mensagem» nela contida, quer mesmo quanto à forma. Das críticas dos sectores da oposição ao regime, que então circularam, é mais difícil termos hoje notícia devido à falta de textos publicados. Conhecemo-las sobretudo de modo indirecto. Exemplo revelador é um texto de Augusto da Costa, publicado apenas quatro anos após a morte do poeta, em que o autor se propõe continuar o desenvolvimento de uma tese defendida em quatro artigos anteriores, onde diz ter demonstrado sem dificuldade que Fernando Pessoa era um «poeta e escritor nacionalista».[3] No início desse artigo, Vitorino Nemésio é o único nome citado de entre os que supostamente apodaram Mensagem de «medíocre», mas, a julgar pela argumentação de Augusto da Costa, a crítica visada nessas linhas estava muito mais à esquerda de Nemésio. Pelo que de revelador elas têm, transcreve-se a seguir algumas das passagens mais significativas:

«Medíocre», um livro de Fernando Pessoa, tão louvado pelos «valores humanos »[4] a-propósito de versos assinados por «heterónimos»? O caso seria extraordinário, se não tivesse explicação fácil. Nos versos assinados por «heterónimos» Fernando Pessoa podia ser até génio, porque não era político; ao passo que nos poemas que constituem a Mensagem, assinados pelo seu próprio nome, Fernando Pessoa é poeta nacionalista, mais do que nacionalista, «imperialista português » . Para cúmulo, o livro foi premiado pelo Secretariado da Propaganda Nacional! Poderiam os «valores humanos», nestas circunstâncias, achar admirável a Mensagem? Não podiam. […] — Estamos perante um caso patente de escamoteação político-literária. Elevam às culminâncias da glória os «heterónimos» a-políticos de Fernando Pessoa; ignoram sistematicamente ou rebaixam até à mediocridade a obra nacionalista que Fernando Pessoa deixou assinada pelo seu nome. Dizer que um poeta nacionalista tem talento é 100% contra a ética comunistóide: com a aparência ingénua, simples, de quem trata apenas de literatura, os «valores humanos» fazem quase exclusivamente política contra a Nação. Política literária, que é uma política como qualquer outra.[5]

Fica óbvio que Mensagem foi desde o início interpretada pelos dois extremos do espectro político como uma obra nacionalista, com a diferença de que uma facção por isso se identificava com ela e a outra a rejeitava por esse mesmo motivo. De uma maneira ou de outra, portanto, quase toda a crítica entendeu Mensagem como um poema nacionalista, se bem que com aprovação de uns e reprovação de outros. Os críticos que apontaram ou sugeriram outras leituras não forneceram razões substanciais capazes de libertar o livro da catalogação política que tão cedo sobre ele pendeu.

A abolição da censura em Portugal, após o 25 de Abril de 1974, tornou possível a publicação de inéditos de Pessoa que de modo nenhum se coadunam com a visão então corrente da ideologia política do poeta. Jorge de Sena que, já em 1960, no Brasil, fizera aparecer num jornal uma sequência de três poemas pessoanos anti-Salazar,[6] publicou-os em Portugal logo a seguir à revolução.[7] De então para cá, com a possibilidade de se debater abertamente a questão, e com base em novos elementos que aos poucos foram surgindo,[8] torna-se claro que havia da parte de Fernando Pessoa um considerável distanciamento em relação ao regime salazarista, como acontecera já em relação à República.[9]

Teresa Rita Lopes veio a público demonstrar que nem tudo estava já sabido sobre o poeta, ao trazer a lume mais alguns inéditos do espólio de Fernando Pessoa em que, mais uma vez, se confirma o seu distanciamento em relação aos poderes políticos com que foi coexistindo. Mas fica sobretudo evidente que o nacionalismo de Pessoa estava longe das interpretações estreitas que tanto a esquerda como a direita dele fizeram. Em Pessoa havia um cariz sui generis, por ele próprio denominado de «nacionalismo comopolita ».[10]

Muito recentemente António Valdemar publicou um pequeno artigo em que revela conversas significativas com duas figuras políticas nacionais – Mário Soares, o líder do Partido Socialista e mais tarde Presidente da República, e Álvaro Cunhal, líder incontestado do Partido Comunista. Mário Soares não considerava Pessoa um dos seus autores-mentores. Curiosamente, já quando Presidente da República, numa viagem a bordo do navio-escola “Sagres” e em contacto directo com o mar, decidiu reler Mensagem e ganhou-

lhe afeição porque detectou na obra uma sistematização “simbólica” da história de Portugal. Chegou mesmo a reagir à insistência de António Valdemar em associar esse livro aos fascismos europeus.[11]

Álvaro Cunhal foi irredutível:

A Mensagem é um momento contraditório na obra de Pessoa. […] É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado é que a obra poética fracassou completamente. A Mensagem – insistiu – é um fracasso.[12]

Quer dizer, a compreensão e recepção desse livro de Pessoa não se alterou sensivelmente ao longo de meio-século.

Se assim é, como alterar as ideias recebidas e redefinir a ideologia de Mensagem enquadrando-a no que hoje conhecemos sobre a ideologia e a mundividência pessoanas ?

Antes de prosseguirmos será talvez conveniente definirmos os termos. Por mundividência entenda-se aqui as coordenadas de fundo da visão que uma pessoa tem de si, do universo e do seu lugar nele. O termo ideologia possui um alcance mais limitado. Ele abrange essa área da mundividência em que se concentram e conjugam as convicções éticas em geral e as políticas em particular.[13]

Para identificarmos a ideologia de Pessoa subjacente a Mensagem não bastam os elementos presentes na obra. É fundamental ter-se em conta tudo o que sobre ela, sobre Portugal e sobre a política, escreveu Fernando Pessoa. Mas mais ainda: é importante enquadrar essas convicções ideológicas no pano de fundo mais vasto da mundividência pessoana, particularmente no que concerne as suas concepções estéticas, e as suas crenças sobre o papel do mito, da poesia e dos poetas. Depois disso, há que situar o quadro resultante da sua mundividência geral, que nele, como todos sabemos, é especialmente complexo, dada a multiplicação do seu eu em heterónimos. Porque é impossível realizar tamanha tarefa dentro do espaço limitado desta introdução, tentarei resumir a proposta de leitura que publiquei primeiro em Mensagem: Uma tentativa de reinterpretação[14], e que desenvolvi posteriormente em vários ensaios reunidos no livro Pessoa, Portugal e o Futuro[15]. Fazer aqui um resumo dessa proposta de leitura é difícil. Ela será inevitavelmente mutilada, já que esse ensaio constitui um argumento geral e único, escrito de modo compacto e altamente sintético, em que cada peça é apoiada por um mínimo de argumentos adequados que o sustentam. De qualquer modo, aqui fica o esquema central da minha argumentação:

1) Fernando Pessoa preocupou-se seriamente com o estado de decadência em que Portugal se encontrava. O facto de ter vivido parte considerável da sua infância e adolescência exposto à cultura inglesa, então no seu auge, deve ter agudizado a percepção da diferença e acentuado os seus sentimentos de obrigação em relação à pátria. Daí o ter sonhado fazer algo pelo ressurgimento nacional. O espólio hoje conhecido documenta em profusão estas asserções;

2) Convencido de que a atitude pessimista e derrotista que predominava em Portugal nunca levaria à construção de nada, propôs-se elaborar um plano que, posto em prática, colocaria Portugal numa postura dinâmica, positiva e de criação;

3)  Influenciado por Carlyle, Pessoa concebeu uma sociedade em que uma aristocracia de heróis, entre os quais o poeta é o maior, desempenha um papel motor no processo evolutivo dum povo: «o mais alto grau de imaginar é o do poeta, é na poesia que vamos buscar a alma da raça ».[16]

4) Conhecedor da filosofia de Henri Bergson, acolhe-a como pano de fundo: a criatividade atinge-se quando se está num estado de tensão contínua a que se chega através da assunção do passado que nos projecta depois num futuro profundamente superior, espiritual e de largos horizontes;

5)  Naturalmente conhecedor do mito da greve geral proposto por Georges Sorel[17] como solução para se sair do inactivismo decadentista, Pessoa ter-se-á servido desse modelo adaptando-o à situação portuguesa, mas seguindo-o de perto: o mito deve ter raízes populares (daí o ter ido buscar o Sebastianismo,[18] e as bases do «nacionalismo» elaboradas pela Renascença Portuguesa);[19] deve apontar para um futuro iminente, próximo, ainda que não se saiba nem se defina exactamente quando; o mito deve ser descrito em termos vagos, misteriosos, de modo a exercer apelo sobre as pessoas — daí o nevoeiro, a utilização da simbologia hermética, e a sua formulação no ponto máximo de encontro entre o símbolo, a palavra e a ideia, na forma de expressão que corresponde às suas concepções de poesia; não importa que o mito seja inatingível, já que, no processo dinâmico de se lá chegar, se operam, criam e realizam actos que seriam impossíveis sem esta tensão. Daí a ideia de recuperar o Quinto Império —  mito igualmente «nacional» — transformando-o num império espiritual a fim de parecer possível e ser, simultaneamente, inatingível. Criar um mito anunciando um novo império material não seria acreditável para ninguém, nem Pessoa achava ser isso sequer um bom ideal para o país;[20]

6) O projecto da construção desse mito nacional de Fernando Pessoa tinha duas vertentes: uma teórica que, ao longo dos anos, ele foi elaborando de modo fragmentado, anotando inúmeras reflexões para um livro «sociológico» que nunca chegou a organizar e para o qual tinha um título, República de Portugal; a outra era a apresentação desse mito aos portugueses em geral, expresso na forma superior da arte poética — a única capaz de tocar não a razão mas o sentimento das pessoas — e que viria a realizar-se em Mensagem.

7) A atitude de Pessoa face ao conceito de verdade reflecte uma concepção epistemológica que remonta a Pascal e aos pragmatistas, como William James. Com efeito, o conceito de verdade tradicionalmente dividia os filósofos entre defensores da verdade como correspondência (aristotélica) e a verdade como coerência (mais platónica). De qualquer modo, ambas essas conconcepções se referiam apenas a verdades relativas ao passado e ao presente. Em relação ao futuro, essas concepcões de verdade são defeituosas porque os factos ainda não aconteceram. Além disso, os seres humanos podem interferir nos acontecimentos alterando-lhes o rumo. Sendo assim, o conceito de verdade em relação ao futuro tem de ser outro. Os seres humanos podem fazer escolhas e impor-se atingir determinados objectivos. Ainda que não consigam alcançá-los na sua totalidade, essa atitude coloca-os numa posição de poderem realizar algo. Quer dizer: os seres humanos podem influenciar o futuro, aquilo que vai ser verdade. Daí Pessoa falar em “verdade como escolha”.

Uma chave de interpretação é válida quando permite interpretar os elementos fundamentais que compõem um problema. Os argumentos acima apontados parecem dar-nos essa possibilidade. Ficaria assim explicado por que motivo Fernando Pessoa se considerava um «sebastianista racional», bem como se entenderia a sua concepção, expressa no poema «Ulisses» da própria Mensagem, de que «o mito é o nada que é tudo». Mais ainda, deixaria de ser necessário tomar-se à letra tudo o que nela vem dito sobre o Quinto Império, ou sobre D. Sebastião, e o próprio poeta não teria mais de ser apontado como tendo pretendido ser a reincarnação deste último.

Do mito em termos sorelianos fazem parte todos os elementos que o mito pessoano apresenta e, à luz desse modelo, não há que continuar a interpretá-los literalmente. Nem muito menos se deverá esmiuçar-lhes o conteúdo, uma vez que o carácter misterioso do que vai acontecer, bem como a indefinição do tempo em que há-de realizar-se, são factores psicológicos fulcrais e sine qua non da eficácia do mito. Pessoa, nesse aspecto, deveria ser bergsoniano de mais para se arrogar o direito de indicar um plano ou descrever o futuro. O importante era redimensionar as energias numa tensão criadora do que quer que fosse, para se sair do niilismo retrógrado, improdutivo e podre, em que se encontrava o país.

Estas concepções do «mito como construção racional» e da «verdade como escolha» parecem-me ter implicações fundamentais na hermenêutica pessoana, sobretudo porque revelam uma mundividência muito mais articulada do que a sugerida por todo um discurso da fragmentação. A leitura atenta dos escritos filosóficos de Fernando Pessoa deixa clara a sua posição sobre o problema da verdade. Ele defende de modo explícito uma verdade construída pragmaticamente.[21]

Se estas peças do puzzle estão correctamente entrelaçadas, então as ligações entre a mundividência de Fernando Pessoa e a sua ideologia política não padecem mais de desajustes incoerentes. E desaparece aquele nó górdio com que se debatiam os admiradores do Pessoa dos heterónimos, cujo reconhecido génio contrastava com o facto de que o Pessoa ortónimo se teria deixado emaranhar num nacionalismo estreito e retrógrado e em loucuras visionárias. A ser assim, é uma vez mais Fernando Pessoa quem melhor traça o seu próprio perfil ideológico na famosa nota autobiográfica, de 30 de Março de 1935. Recordemo-la:

Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial, como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, é absolutamente anti-reaccionário. […]

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista, que se guia por este lema: «Tudo pela Human idade; nada contra a Nação».[22]

A leitura que proponho de Mensagem não pretende insinuar que a trajectória da ideologia política de Fernando Pessoa tenha sido linear. Espírito extremamente arguto, Pessoa expunha-se a toda a espécie de ideias, que se transformavam ao passarem pelo crivo da sua análise.[23] Senhor, porém , de uma personalidade muito especial, ele foi construindo e alargando essa sua visão única do mundo ao longo de toda a vida, com hesitações, ambiguidades e até mesmo enganos, mais tarde corrigidos ou retractados, na sua interpretação de alguns acontecimentos políticos, como no conhecido caso do «Interregno». O seu projecto para Portugal foi igualmente tomando corpo ao longo dos anos. Inicialmente não sabendo bem para onde ia, foi ano após ano sabendo cada vez mais para onde não queria ir.[24] Se, pontualmente, neste ou naquele momento da história política do seu tempo, é possível encontrar Pessoa mais conservador ou mais liberal, tomadas no conjunto, as suas posições políticas revelam uma consistência notável. Elas coadunam-se com a citada classificação ideológica que o poeta faz de si. A ser assim, qualquer que seja a tradução prática de expressões como «nacionalismo cosmopolita»,[25] não parece de modo algum defensável continuar-se simplisticamente a colar o poeta ao regime político que «premiou» essa sua Mensagem.

Como tentei demonstrar, a minha proposta hermenêutica de Mensagem enquanto exploração de um mito entendido à luz da possível influência de Henri Bergson e, sobretudo de Georges Sorel para quem o mito da greve geral constituiria o pilar fundamental, ajudar-nos-ia a compreender o porquê da insistência de Fernando Pessoa no papel do poeta e da poesia como mensageiros do mito e mobilizadores do espírito das pessoas, único processo de agir sobre a mentalidade portuguesa, com vista a fazer a sociedade sair do seu pessimismo paralizador. O mito nacional com raízes populares de modo a que as pessoas pudessem com ele identificar-se  – o sebastianismo – actuaria assim transformando o imobilismo colectivo em atitude positiva. Assim, ficaria decifrada a expressão, «sebastianismo racional» (quase um oxímoro) criada pelo próprio Fernando Pessoa, consciente do carácter fabricado desse mito, mas ciente e convicto da operacionalidade do mesmo sobre as pessoas, desde que expresso em forma poética e revestido de um sem-número de efeitos estéticos que lhe imprimiriam a necessária força capaz de actuar sobre os leitores.

À luz da concepção soreliana do mito, as diversas peças do puzzle à volta de Mensagem parecem complementar-se num todo coerente. Faltava, porém, a confirmação do conhecimento, por parte do poeta, da obra de Sorel por parte de Fernando Pessoa, de quem até hoje ninguém encontrara menção entre os escritos de ou sobre Pessoa. A peça do alicerce do argumento que faltava surgiu-me graças a uma indicação de José Blanco que me pôs em contacto com o atrás mencionado eng. Francisco Peixoto Bourbon, que se reunia habitualmente com Fernando Pessoa e a sua tertúlia no Café Montanha. À minha inquirição sobre Pessoa e Sorel respondeu-me categoricamente Francisco Bourbon na sua primeira carta:

De uma coisa pode desde já estar certo: Fernando Pessoa conhecia a obra de Georges Sorel que em certos pontos lhe merecia concordância e apreço.[26]

Alguns dias mais tarde, já após ter lido a minha tentativa de interpretação, o solícito e atenciosíssimo eng. Bourbon volta a escrever-me dizendo que o meu «raciocínio está cem por cento certo» e, juntamente com esta declaração, remete-me a fotocópia de um artigo seu publicado no ano anterior no jornal O Comércio de Gaia onde fizera afirmações que estão em inteiro acordo com as que eu propusera no meu texto.

Faltava, porém, a tal referência explícita ao nome de Sorel da parte de Pessoa. O incansável eng. Francisco Peixoto Bourbon não desistiu de escrever a todos aqueles que lhe pareciam susceptíveis de fornecer pistas. Poucos dias depois chegou-me dele mais uma carta com a fotocópia de um fragmento de Fernando Pessoa (133G-49) em que o poeta anotara, juntamente com dois outros livros, «G. Sorel: Les Illusions du Progrès». Numa das suas cartas anteriores, porém, Francisco P. Bourbon abrira-me outras perspectivas que estão intimamente relacionadas com essa linha Bergson-Sorel e que não me ocorreram, mas fazem agora perfeito sentido:

[…] julgando que me valorizava um dia declarei a Fernando Pessoa que era cartesiano cem por cento. Com grande surpresa e decepção minha, levei uma corrida em pelo.

Segundo me recordo e a memória me não atraiçoa Fernando Pessoa declarou-me que Descartes era, infelizmente, um dos filósofos mais superficiais e mais nocivos. Teria sido como que o pai espiritual dos enciclopedistas e de Augusto Comte, que o saudoso poeta não suportava.

[…] Declarou então que um dos pontos que lhe merecia pleno aplauso na obra de Georges Sorel era a forma como ele havia demonstrado que «Pascal havia vencido Descartes». «Que o pensamento de então [ou seja, de há meio século] estava profundamente influenciado pelas ideias de Pascal e de Bergson. Que a derrota de Descartes representava, sem dúvida, a derrota do racionalismo e por racionalismo ele entendia o intelectualismo da época. Mas na vitória de Sorel havia para ele um ponto fraco: a vitória do sindicalismo com que Fernando Pessoa de forma alguma concordava. Tinha mesmo profundo desprezo por sindicalistas, a quem chamava sub-gente.

Fiquei na íntima convicção que Bergson havia conseguido traçar como que uma linha divisória entre o que é inerte e o que é vivo e que a ciência e a fé poderiam daí para o futuro coexistir como dois princípios absolutos. Que a razão se torna imbecil e impotente, por profundamente incompetente quando se permite ultrapassar o físico para invadir a metafísica, a que Fenando Pessoa tinha em tanto apreço, quer a moral e o aspecto religioso. Aí seria o único e exclusivo domínio da fé segundo Pascal, do mito segundo Sorel, e da intuição segundo Bergson.

Em conclusão, Fernando Pessoa tinha pleno conhecimento da obra de Sorel, pelo menos parcialmente, mas dada a sua maneira apaixonada de ser e o apreço em que tinha Sorel, por alguns pontos das suas especulações filosóficas, é difícil admitir que além da obra em que ele entendia que Pascal havia vencido Descartes, não procurasse devorar toda a obra publicada até à data de Sorel.[27]

Como tudo isto é tão coerente entre si e com o Fernando Pessoa que emerge para mim por detrás de Mensagem!

Esta atitude anti-cartesiana de Pessoa e o seu aplauso a Pascal prendem-se com o conceito de verdade pragmática que para Pessoa ia ser fundamental. O conceito de verdade relativamente ao futuro é diferente do que se aplica ao presente e ao passado, na medida em que não sabemos o que vai acontecer e, além disso, podemos influenciar  o que vai acontecer. Por isso podemos de algum modo escolher o futuro apostando nas nossas preferências. Essa atitude pessoana iria culminar no seu projecto de Mensagem.

Munidos de toda esta informação sobre as ideias subjacentes aos poemas dessa época, valerá agora a pena recordar aqui um poema nuclear dela, «Ulisses», onde o termo ‘mito’ surge seguido de uma espécie de definição:

O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo –

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

 

Este que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.

 

Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.[28]

Atrás, afirmei que Pessoa tem um conceito especial de mito, que acontece ser o mesmo de Sorel e mais ninguém usou. Para ambos, em vez de fixado no passado, o mito é todo projectado no futuro, existindo como agente no processo da sua consecução, apontando o caminho para a verdade que vai sendo construída, ou servindo para apontar esse caminho, mesmo que ele esteja ainda envolto em nevoeiro. Não apenas autores clássicos sobre o tema como Mircea Eliade,[29] Claude Lévi-Strauss,[30] ou Joseph Campbell,[31] mas inclusivamente alguns mais recentes como Karen Armstrong,[32] ou Bruce Lincoln,[33] entre tantos outros que consultei,[34] nenhum inclui nas suas reflexões qualquer visão do mito como actuando sobre o rumo dos acontecimentos futuros.

Relativamente ao futuro, podemos dizer que Pessoa era de certo modo um pós-moderno na medida em que acreditava ser ele uma construção, disso resultando que não se possa nem se deva tomar o passado como figurino do futuro. Se bem que o poeta tenha usado no seu mito, construído racionalmente, o modelo de grandiosidade do passado português, não o faz no sentido de tal modelo vir a ser pura e simplesmente repetido. O seu objectivo era antes que ele actuasse fortemente sobre a psicologia portuguesa, como incentivo para se fortalecer a crença na possibilidade de se voltar a construir algo de grandioso.

Quer dizer pois que, apesar de acreditar que o futuro pode ser escolhido ou construído a priori. Sendo assim, Pessoa não era afinal pós-moderno, a não ser, se quisermos, na sua incapacidade de agir ele próprio. Porque, na verdade, ele acreditava também na possibilidade do encaminhamento das sociedades para algo definível como progresso. Ou, por outras palavras, porque na sua mundividência estava claro que nos assistem oportunidades de criarmos nós próprios um sentido para o mundo. Mais ainda, se a grande maioria das pessoas se rege por mitos, as elites são quem produz esse sentido; são elas que vão à frente criando os mitos (as verdades futuras são todas mitos, sendo o sebastianismo racional apenas uma delas) e apontando caminhos. Caminhos esses que ele, Fernando Pessoa, nunca teve vontade anímica de percorrer. Conseguiu, todavia, vê-los até bem longe, iluminados pelo fulgor da sua genial inteligência. Pessoa ortónimo não é exclusivo, mas é Pessoa. E é uma construção brilhante, filosoficamente alicerçada. Não vale escamoteá-la nem, por se tratar de um aristocrata do espírito, para mais abúlico, desistir de se tentar destrinçar as complexas peças do aparentemente enigmático puzzle que ele elaborou, e toda a vida manteve, como parte integrante da complexa rede plural que em seu torno também construiu.

Terminarei com uma citação do próprio Pessoa, esperando deixar claro que não sou eu quem pretende colocar ideias na mente de Pessoa; estou apenas procurando detectá-las:

Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o encarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.[35]

Gostaria, entretanto, de encerrar este rápido esboço de um perfil com uma última nota, ainda mais abrangente e, por isso, algo arriscada. Pessoa desdobrou-se, de facto, em fragmentos dificilmente comportáveis num retrato único. Todavia convém não nos esquecermos de que ele assinou muita escrita com o seu próprio nome. Como nele tudo era intencional e repensado (muitas vezes mesmo calculado), esse facto não pode ser despiciendo. Não será de se considerar anormal a certeza de uma pessoa não poder ser reduzida a um retrato singular. É, aliás, normalíssimo ser-se poliédrico. A personalidade de um ser humano moderno facilmente se descentra em desdobramentos e labirintos por vezes incoerentes ou arduamente conciliáveis, sem que isso destrua o núcleo central da sua personalidade (daí o apodar-se de patológicos os casos em que assim não acontece, situação que parece longe de ser aplicável a Fernando Pessoa). Na verdade, ninguém é absolutamente coerente. Pessoa, convenhamos, é um caso extremo de fragmentação, todavia isso não significa que não tenha tido o seu centro. Alguém uma vez sugeriu que, se quisermos saber quais são as crenças últimas de um indivíduo, basta, num diálogo, notarmos o que o faz corar. Ou irritar, poderíamos nós aduzir. E Pessoa teve momentos em que se irritou, tendo até vindo a público em defesa das suas convicções profundas. Sobre outras facetas da sua vida não se terá irritado publicamente, mas há sinais de ter corado no seu interior, como hoje estamos a perceber mais claramente, apesar das suas reticências e silêncios.

É verdade, sim, que a constelação heteronímica não nos permite fazer um retrato de Pessoa com pincel firme. Os contornos serão sempre esbatidos, osmóticos e, sobretudo, de linhas múltiplas que se entrecruzam. Não creio, porém, que encontremos nos heterónimos elementos suficientes para desdobrarmos por completo o retrato, exagerando a multiplicação de imagens. Existe uma diferença entre contrário e contraditório. As contradições de Pessoa não são tão de fundo como às vezes se pretende. Além disso, com o rodar dos anos Bernardo Soares vai-se assemelhando cada vez mais ao próprio Pessoa, e até Álvaro de Campos vai perdendo as suas marcas distintivas e aproximando-se do seu criador. A existência de Alberto Caeiro é curta e a de Ricardo Reis, a partir de certa altura pouco se faz sentir.  Mas, para além disso, gostaria de lembrar que o desmembramento do eu pessoano seria deveras sério se, por exemplo, os heterónimos fossem profundamente díspares, algo como um marxista, outro budista, um terceiro muçulmano e um quarto católico ou judeu. Aí, convenhamos, haveria um caso sério de personalidade irreparavelmente fragmentada, digamos mesmo, esfacelada, dilacerada. Porque, ao fim e ao cabo, por mais que queiramos insistir nas diferentes mundividências dos heterónimos, eles acabam sendo primos e parentes uns dos outros e de um Pessoa-base, que emerge claro de entre o labirinto dos seus escritos, embora os seus contornos formem aquele emaranhado difuso que todos bem conhecemos.

Até ao final da vida, Pessoa manteve a sua faceta sebastianista, nesse singular sentido de “sebastianista racional”. Significa isso que as suas convicções sobre o que era necessário para alterar a mentalidade portuguesa, de modo a mobilizá-la e a fazê-la sair do estado depressivo e pessimista em que se encontrava, seria essa crença no mito de Mensagem. Abúlico e incapaz de intervenção cívica ou política na segunda fase da sua existência, e dividido também pelas múltiplas visões do mundo que mantinha em simultâneo, vivia quase só no cérebro todas essas realidades. Por isso Mensagem acabou sendo algo equivalente ao que Mahatma Gandhi terá expressado quando lhe perguntaram se acreditava na civilização ociental: “Seria uma boa ideia”.

Pessoa terá alimentado essa sua “boa ideia” até ao final dos seus dias.

Onésimo Teotónio Almeida

Providence, Rhode Island (EUA)

[1] José Blanco, «A Mensagem e a crítica do seu tempo», in Fernando Pessoa. no seu tempo. Catálogo da Exposição coordenada por Eduardo Lourenço e António Braz de Oliveira, Lisboa, Secretaria de Estado da Cultura, 1988, pp. 69-74.

[2] Idem, p. 74.

[3] Augusto da Costa, «Fernando Pessoa e os “valores humanos”, Diário da Manhã, 19 de Novembro de 1938. A fotocópia deste texto foi-me fornecida por Luís Amaro, a quem agradeço reconhecidamente.

[4] Alusão eufemística e irónica à oposição, que se reclamava deles defensora.

[5] Ibidem.

[6] Estado de S. Paulo, 20 de Agosto de 1960. Jorge de Sena manteve-se anónimo.

[7] Diário Popular, 6 de Junho de 1974.

[8] Salientem-se, de entre eles, os três volumes Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935), e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, Lisboa, Ática, 1978-1980, todos organizados por e com introdução de Joel Serrão, e .com recolha de textos de Isabel Rocheta e Paula Morão, e o catálogo da exposição Fernando Pessoa: o último ano, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1985. Veja-se também, de Alfredo Margarido, Fernando Pessoa – Santo Ant ónio, São João, São Pedro, Lisboa, A Regra do Jogo, 1986 e ainda João Rui de Sousa, Fernando Pessoa e o Eslavo Novo», Jornal de Letras, 14 de Junho de 1988.

Um conjunto de escritos políticos de Pessoa foi reunido em Contra Salazar. Selecção, introdução e notas de Apolinário Lourenço. Coimbra: Angelus Novus, 2008. Veja-se também José Barreto, Fernando Pessoa – Sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar. Lisboa: Tinta-da-China, 2015.

[9] Refira-se aqui, por exemplo, o artigo de Teresa Bernardino, «Fernando Pessoa e a República» , Diário de Notícias, 26 de Junho de 1988.

[10] Teresa Rita Lopes, «O nacionalismo cosmopolita de Fernando Pessoa», Jornal de Letras, 15 de Maio de 1980. A autora publicou posteriormente Pessoa por Conhecer I e II (Lisboa, 1990).

[11] António Valdemar, “Mensagem na opinião de Soares e de Cunhal”, Tempo Livre, Julho/Agosto, 2019, p. 8.

[12] Idem.

[13] O conceito de ideologia possui uma longa história de confusões e mal-entendidos. Recentemente tornou-se muito comum usar o termo com o sentido de mundividência. Por existirem essas duas realidades distintas e analiticamente separáveis – mundividência e ideologia – os dois conceitos são aqui mantidos. A justificação teórica desse uso foi feita noutro lugar:  Onésimo Teotónio Almeida, The Concept of Ideology – A critical analysis. Providence, RI, Brown University Philosophy Department, 1980, tese de doutoramento mimeografada.

[14] Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura, 1987.

[15] Lisboa: Gradiva, 2014.

[16] Fernando Pessoa, «A Nova Poesia Portuguesa», in Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa, Allca, 1980, p. 69. A influência do pensamento político de Carlyle em Pessoa foi estudada por Gilbert Cavaco em Mensagem: Esoterismo e Ideologia em Fernando Pessoa, New York, Department of Spanish and Portuguese, New York University, 1979, tese de doutoramento mimeografada.

[17] Quando em 1987 publiquei o meu primeiro livro sobre Mensagem não possuia ainda nenhuma prova de que Pessoa conhecia, de facto, a obra de Sorel, nem tinha conhecimento de que qualquer crítico tivesse sugerido essa influência. Tinha sido apenas a leitura dos textos de Pessoa sobre o mito que me fizera associá-lo com as páginas das Refléxions sur la Violence, de Sorel. Posteriormente, Pedro Teixeira da Motta encontrou uma referência a um outro livro de Sorel, Les Illusions du Progrès. Através do contacto epistolar que então travei com Francisco Peixoto Bourbon, benjamim da tertúlia que Pessoa reunia no Café Montanha, foi-me por ele confirmado que o poeta conhecia e admirava o pensamento de Sorel. O próprio Peixoto Bourbon publicara mesmo num pequeno jornal regional um artigo em que se referia ao apreço que Pessoa tinha pelo pensador francês. Dessa ligação dei conta em pormenor no ensaio «Pessoa, a Mensagem e o mito em Georges Sorel», Actas do IV Congresso de Estudos Pessoanos, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1991, pp. 211-22, depois incluído no meu Pessoa, Portugal e o Futuro. Lisboa: Gradiva, 2014. Nesse livro reuno provas adicionais do conhecimento que Pessoa tinha da obra de Sorel, graças a manuscritos encontrados no espólio pessoano por Jerónimo Pizarro.

[18] Sobre ele Fernando Pessoa escreve com uma clareza transparente: «Temos, felizmente, o mito sebastianista com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil, não temos que criar um mito, senão que renová-lo» (Fernando Pessoa, Sobre Portugal , op. cit., p. 225).

[19] São bastante explícitas as passagens em que Pessoa se demarca do nacionalismo de Teixeira de Pascoaes, embora reconheça a importância da etapa, por este levada a cabo, de reconstituição dos elementos fundamentais da cultura portuguesa manifestados desde Camões (o seu lado português, segundo Pessoa), passando por Antero de Quental e António Nobre, acabando por entroncar-se em Pascoaes. Para o «nacionalismo sintético» de Pessoa, como ele lhe chama, «não há propriamente uma alma nacional; há apenas uma direcção nacional» (Fernando Pessoa, Da República, op. cit., p. 224)

[20] São diversas as afirmações em que Pessoa expõe com clarividência a fundamentação das suas convicções em relação ao mito. Veja-se esta, por exemplo: «Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou» (Fernando Pessoa, Sobre Portugal, op. cit., pp. 245 segs.).

[21] Desenvolvi este tema no ensaio «Pessoa e Verdade(s) – ou a crítica do abuso de leituras herméticas», Encontro Internacional sobre Fernando Pessoa, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1990, pp. 195-203, incluído depois no livro Pessoa, Portugal e o Futuro (2014).

[22] In Fernando Pessoa no seu Tempo, op. cit., pp. 20-22.

[23] É curioso notar que o pensamento de Pessoa é afirmado quase sempre de modo negativo. Ele parece saber melhor o que não quer do que o que quer. Mas nas suas críticas transparece constantemente a ideia de que o seu autor tem consciência de transcender as suas próprias influências, embora assimile e transforme muitas delas por servirem os seus objectivos.

[24] Podemos perguntar-nos se Pessoa terá mantido ao longo da vida essa concepção da poesia como potencialmente mobilizadora de espíritos. Provavelmente não, embora nenhum escrito até agora conhecido nos faça supor que ele a abandonou. Parece indubitável que manteve durante muitos anos essa convicção como um dado adquirido. Na fase final da sua vida, as dúvidas sobre cada uma das suas certezas intensificaram-se e multiplicaram-se, bem como a abulia que ele confessava torná-lo incapaz de agir, ou de levar a cabo tudo o que ele próprio reconhecia ser importante fazer. Na carta a Adolfo Casais Monteiro, que delicadamente lhe censurara a publicação da Mensagem, Pessoa assume sem reservas esse seu lado nacionalista: «Sou, de facto, um nacionalista mystico. Mas sou, aparte isso, até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a Mensagem não as inclue» (Adolfo Casais Monteiro, A Poesia de Fernando Pessoa. Organização de José Blanco, 2.ª edição, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1985, pp. 228 segs.).

[25] Confira-se o artigo de José Augusto Seabra «Fernando Pessoa e a “Nova Renascença” da Europa», onde a interpretação estreita do nacionalismo de Pessoa é convincentemente rejeitada (Diário de Notícias, 12 de Junho de 1988). Sobre o assunto veja-se também a sucinta mas precisa «Nota» de José Blanco no final do volume de sua organização A Poesia de Fernando Pessoa de Adolfo Casais Monteiro (op. cit., pp. 251 segs.), bem como também o contributo de José Barreto, “A Mensagem de Fernando Pessoa e o prémio de poesia do SPN de 1934”. Pessoa Plural—A Journal of Fernando Pessoa Studies. Brown Digital Repository. Brown University Library. https://doi.org/10.26300/eray-jf59

[26] Carta de 26 de Novembro de 1987.

[27] Carta de 20 de Fevereiro de 1988.

[28] Fernando Pessoa, Mensagem. Lisboa: Edições Ática, 1963, p. 25.

[29] Mircea Eliade, Aspects du Mythe (Paris: Gallimard, 1963).

[30] Claude Lévi-Strauss, Myth and Meaning (New York: Schocken Books, 1978).

[31] Joseph Campbell, The Mythic Dimension. Selected Essays 1959-1987. Edited by Anthony Van Couvering (New York: Harper Collins Publishers, 1997).

[32] Karen Armstrong, A Short History of Myth (Edinburgh: Canongate, 2005).

[33] Bruce Lincoln, Theorizing Myth. Narrative, Ideology and Scholarship (Chicago: Chicago University Press, 1999).

[34] Por exemplo, Thomas A. Sebeok, ed., Myth. A Symposium (Bloomington: Indiana University Press, 1958); Stephen C. Ausband, Myth and Meaning, Myth and Order (Macon, GA: Mercer University Press, 1983); G. S. Kirk, Myth. Its Meaning and Functions in Ancient and Other Cultures (Cambridge: Cambridge University Press, 1970).

[35]“Portugal, vasto Império – Um inquérito nacional – Depoimento do escritor Fernando Pessoa”, in Jornal do Comércio e das Colónias, 28 de Maio e 5 de Junho, p. 1. Depois reunido em Augusto da Costa, Portugal, Vasto Império. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1934.

.Veja a notícia:

ExpoDubai: Livraria Lello lança “Os Lusíadas” e “A Mensagem” em árabe

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Onésimo Teotónio Almeida

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida - Natural de S. Miguel, Açores, é doutorado em Filosofia pela Brown University em Providemce, Rhode Island (EUA). Nessa mesma universidade é Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, bem como no Center for the Study of the Early Modern World e no Wayland Collegium for Liberal Learning. Autor de dezenas de livros. Alguns dos mais recentes: Despenteando Parágrafos, A Obsessão da Portugalidade, e O Século dos Prodígios. A ciência no Portugal da Expansão, na área do ensaio. Em escrita criativa: Livro-me do Desassossego, Aventuras de um Nabogador e Quando os Bobos Uivam. Co-dirige as revistas Gávea-Brown, Pessoa Plural e e-Journal of Portuguese History bem como a uma série de livros sobre temática lusófona na Sussex Academic Press, no Reino Unido. É membro da Academia da Marinha, da Academia das Ciências e doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.
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