Desde que fui para Lisboa e assumi o cargo de Embaixador junto à CPLP em meados de 2006, gastei muita saliva e não pouca tinta, tentando convencer aqueles que por diferentes razões se opunham em Portugal à ratificação final do texto acordado pelos países lusófonos em 1990. Publiquei vários artigos, inclusive um para o Livro do Ano da Enciclopédia Barsa, proferi inúmeras palestras, escrevi prefácios de livros sobre o assunto, participei de debates sem fim no radio e na TV, dei entrevistas aos jornais e revistas, enchi a paciência de amigos e interlocutores em geral  – e tudo porque acreditava piamente, como ainda acredito, nos reais benefícios que esse Acordo trará para a própria expansão da lusofonia no mundo.

Na verdade, os meus raros e preciosos leitores deste quincasblog já devem possivelmente ter lido uma matéria que publiquei aqui, em maio do ano passado, tratando exatamente do assunto (basta conferir, na coluna ao lado, na categoriaAcordo Ortográfico), onde destaco, entre outros aspectos, aquele que sempre me pareceu o mais relevante, que é o de finalmente ter-se posto um ponto final numa aberração inaugurada em 1911, quando passamos a contar com duas ortografias oficiais e excludentes (a portuguesa e a brasileira) para a mesma Língua.

Acontece porém que agora, ao apagar das luzes de 2012, o Governo Dilma Roussef, numa decisão absolutamente inexplicável e sem qualquer justificativa plausível, reabriu a questão no Brasil, onde desde janeiro de 2009 o assunto estava encerrado, com a adesão incondicional de todo o país às novas regras. Um novo decreto  modificou o anterior, de 29 de setembro de 2008, estabelecendo um prazo adicional até 2016 para a entrada em vigor definitiva do Acordo Ortográfico. Para quem tem convivido com essa matéria, a decisão brasileira vai afetar seriamente o andar da carruagem em países como Portugal, Angola e Moçambique, onde as resistências ao AO tem sido bem maiores.

Sobre o assunto, o jornal Folha de S.Paulo de hoje, 14 de janeiro, publica um oportuno artigo do educador e membro da Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier, intitulado “Somos um país sério?”. Vale a pena lê-lo. E vale mais ainda a pena ler o que passo a publicar a seguir: o excelente texto do Professor Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná e homem da área, escrito no dia 19 de dezembro, ou seja, uma semana antes da publicação do novo decreto, e onde tudo aquilo que eu diria sobre o assunto está dito, e muito bem. Portanto, meus amigos, vou poupá-los agora de minhas novas reiterações, pedindo licença ao Professor Faraco (que nem tenho o prazer de conhecer pessoalmente) para passar-lhe a palavra:

(Documento encaminhado à Ministra-Chefe da Casa Civil da Presidência da República, Gleisi Hoffmann. Ver nota de esclarecimento ao final)

*Embaixador Lauro Moreira

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